O Globo
María Teresa Nielsen , El Mercurio/Gda*
Deputada María Corina Machado se recupera de fratura no nariz após confusão em Assembleia Nacional
Carlos Garcia Rawlins / REUTERS
Deputada María Corina Machado levou chutes durante a briga
SANTIAGO - Mesmo ainda se recuperando da fratura no nariz causada por socos de deputados chavistas, a deputada da oposição María Corina Machado foi ao Chile com o objetivo de denunciar o clima hostil que a Venezuela vive desde que Nicolás Maduro ganhou as eleições presidenciais de 14 de abril por uma margem de 1,7 pontos percentuais. María Corina, que faz parte da Mesa de Unidade Democrática (MUD), questiona o resultado e, como outros colegas parlamentares, se nega a reconhecer a vitória de Maduro até que haja uma ampla recontagem.
Foi essa negativa em aceitar o sucessor de Hugo Chávez que motivou o ataque no Congresso no dia 30 de abril, do qual María Corina recorda estar no chão vendo o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, sorrir.
O GLOBO: Como a senhora avalia o governo venezuelano no campo econômico?
María Corina Machado: O que ainda estamos vivendo decorre de um processo de bonança petroleira. São as consequências de uma política que de maneira intencional buscou gerar a dependência absoluta de uma sociedade ao Estado, e que destruiu a atividade e o emprego privados. Ainda hoje, 96% das divisas vêm do petróleo. Quando se percebe que a Venezuela está importando entre 150 mil e 200 mil barris de gasolina e diesel por dia não se pode estranhar que importemos 80% do que comemos. É uma tragédia que faz com que a Venezuela tenha transformado talvez no país mais instável da América Latina.
O GLOBO: Como acha que Maduro tem guiado o legado político deixado por Chávez?
María Corina Machado: Qual legado político? A realidade que vivemos é responsabilidade de Chávez e de suas políticas. Maduro é responsável também. A capacidade de gerar desconfiança e a destruição da coesão social realizada por modelo é brutal. Na história da Humanidade, em nome da paz e em nome dos pobres foram cometidas as piores atrocidades. E muita gente de fora pensa que o socialismo do século XXI ou a revolução bolivariana de Chávez e Maduro é para os pobres. E eu digo que sim, eles os querem bem pobres, porque necessitam de pobres na sociedade. Isso se converteu em uma fachada para justificar as maiores atrocidades, desde o ponto de vista da violação dos direitos humanos até a violação dos princípios e garantias de uma sociedade democrática.
O GLOBO: Considerando que mais de um mês se passou desde as eleições presidenciais e que a comunidade internacional reconheceu a vitória de Maduro, a oposição utilizará quais ferramentas para seguir alegando fraude eleitoral?
María Corina Machado: Havia um compromisso com os venezuelanos e com a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) de que uma auditoria seria feita com todas as mesas. Maduro fez tudo com muita velocidade. Todos os presidentes da Unasul validaram e foram legitimar com suas presenças o juramento. Esses presidentes não tinham saído de Caracas ainda e o Conselho Nacional Eleitoral juntamente com Maduro se retraíram. O mínimo que exigimos da Unasul é saber se eles mudaram as premissas sob a nova avaliação da crise.
O GLOBO: A oposição da região se sente órfã na região? Esperavam mais de alguns governos?
Órfãos não, mas nos sentimos traídos por parde dos governos. A carta democrática da OEA virou uma bagunça. Você vê como a comunidade internacional reagiu diante das circunstâncias de Honduras, Paraguai e inclusive o Equador? Creio que na América Latina existe um grupo de reféns do chavismo, dependentes do petróleo e dos recursos venezuelanos. Não estou os desculpando, mas essa é uma situação diferente daqueles que estão absolutamente comprometidos com esse modelo: Nicarágua, Bolívia e Equador, com uma obsessão pela reeleição e pelo controle da população.
Existe uma terceira categoria, são os países democráticos, com instituições sólidas, e que simplesmente nos dão as costas. Parecem que têm medo ou calculam errado em prol de seus benefícios na balança comercial, ou pela influência da Venezuela em instâncias internacionais. E um quarto grupo, esvaziado, de países e governos que estão dispostos a levantar a voz, pelos princípios democráticos e pelos direitos humanos.
*Grupo de Diários América (GDA)
