quarta-feira, maio 29, 2013

Entramos para o Primeiro Mundo! (Pelo menos no discurso)

Pedro Luiz Rodrigues

O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves – possível aspirante ao governo do Rio Grande do Norte, segundo o registro de pequena nota saída hoje na imprensa – parece verdadeiramente convencido de que o Brasil poderá prestar notável contribuição para o restabelecimento da saúde econômica dos Estados Unidos. Foi isso o que ficou implícito nas declarações que prestou em Washington à imprensa internacional.

Por razões como essa, salientou a atenta plateia no Wilson Center, o Brasil já não mais deve ser percebido como um país emergente, mas já como uma verdadeira potência. Passamos enfim, ao Primeiro Mundo. Alvíssaras!

Os EUA, como se sabe, andam fracos das pernas desde 2008. O desempenho recente de sua economia tem sido sofrível. No primeiro trimestre de 2013 a expansão de seu PIB foi de apenas 2,5% a ano, depois de terem apresentado resultados medíocres em 2012 (+2,2%) e de 2011 (+1,8%).

Nós, os bonzões, devemos ter crescido entre 1,1% e 1,4% no primeiro trimestre de 2013 (os dados consolidados estão para sair). Para não falar dos modestos 0.9% de crescimento, registrado em 2012. Fica o crescimento de 2011 como o único não medíocre do período: 2,7%.

Quando li as declarações recentes do nobre deputado,  vindas de da capital norte-americana e publicadas no jornal madrilenho El País, fui checar para ter certeza de que não estava lendo um jornal antigo, do início da década de 1970 (quando, aliás, o deputado foi eleito para seu primeiro mandato na Câmara) e quando o Brasil crescia à média de dez por cento ao ano). Mas, não, a matéria era mesmo de hoje.

Segundo o relato da correspondente espanhola em Washington, o presidente da Câmara de Deputados está nos EUA “para reforçar a colaboração” entre os Parlamentos dos dois países. Nós, brasileiros, ficaremos aguardando ansiosos o denso relatório pelo qual, ao regressar, Sua Excelência explicará todas as iniciativas que tomou para viabilizar  essa aproximação.

Será que os americanos vão querer nos transferir tecnologia sobre seu regime partidário (já que, de fato, os partidos, lá, não são de ‘mentirinha’ que aceitam sem pestanejar tudo o que lhes mandam da Casa Branca). Ou será que nós é que iremos colaborar, com idéias como a de se ter partidos sem consistência programática ou ideológica, capazes de se manterem grudados ao poder, seja ele qual for? 

El País acha que a visita de  Henrique Eduardo Alves se dá em momento importante para as relações bilaterais, pois antecede de uma semana a visita do vice-presidente americano Joseph Biden a São Paulo, e de alguns meses a visita de Estado  que fará Dilma a Washington (outubro).

O Presidente da Câmara disse que o Brasil colabora com as americanos por intermédio do comércio, dos investimentos e do turismo. De fato, os brasileiros adoram a Flórida. No ano passado foram 1,5 milhão de brasileiros a visitar os EUA, onde gastaram a fábula de 11 bilhões de dólares. De fato, as malas são muitas e voltam sempre abarrotadas ao Brasil, repletas de mercadorias compradas por preços incomparavelmente menores do que os que se praticam entre nós. Os brasileiros, espertos, também preferem comprar imóveis nos EUA, onde as relações de custo-benefício são incomparavelmente melhores do que as praticadas na nossa semi-bolha imobiliária.

Henrique Eduardo Alves comemorou também a expectativa de que em breve os EUA derrubarão a exigência de vistos para a entrada de turistas brasileiros nos EUA. Aí sim, não há dúvida, a delicada situação em que se encontra nosso balanço de pagamentos em conta-corrente irá de uma vez para o brejo.