O Globo
Acuada por panelaços e denúncias, líder argentina tenta manter domínio do Legislativo
MARCOS BRINDICCI / REUTERS
“Ela ou nós”: argentinos protestam contra a presidente
BUENOS AIRES - Na semana passada, a presidente Cristina Kirchner assegurou que a Argentina tem tudo —“temos Papa, temos rainha (em referência à recentemente entronizada Máxima Zorreguieta, nova rainha consorte da Holanda) e temos Messi, não sou fanática por futebol, mas temos tudo”, escreveu no Twitter.
Recentes pesquisas mostram, porém, que, fora da Casa Rosada, a maioria dos argentinos está preocupada com a situação política e econômica do país. Nas últimas semanas, Cristina enfrentou uma nova onda de panelaços cada vez maiores em todo o país; seu projeto de reforma do Judiciário provocou escândalo no Congresso e foi questionado por associações de juristas locais e até por representantes das Nações Unidas; surgiram novas denúncias de suposta lavagem de dinheiro e corrupção contra altos funcionários do governo e empresários amigos da família presidencial; a oposição começou a selar acordos para enfrentar o governo nas eleições legislativas de outubro e o índice de aprovação popular à presidente caiu para 29,3%, menos da metade dos 64,1% alcançados em outubro de 2011, quando ela foi reeleita com 54% dos votos.
Os dados da empresa de consultoria Management & Fit também mostram que a desaprovação ao governo atinge atualmente 59,6%, bem acima dos 29,4% registrados no momento em que Cristina obteve seu segundo mandato consecutivo. A chefe de Estado vive um pequeno inferno astral, que insiste em negar. Seus aliados políticos adotaram a mesma estratégia e, longe de admitir as pedras que vão surgindo no caminho, preferem falar na continuidade da presidente no poder. O deputado Andrés Larroque, por exemplo, disse semana passada que “temos, pelo menos, uma década (de kirchnerismo) mais pela frente”. No próximo dia 25 de maio, os Kirchner completam dez anos no poder e seus dirigentes já sonham com outros dez anos na Casa Rosada.
— O país precisa de mais paciência, mais tolerância, mais amor — declarou Larroque, o mesmo deputado que chamou a congressista Laura Alonso, do opositor Pro, de “safada”.
Como se vivessem num país diferente ao de Larroque, os argentinos que participam dos panelaços pedem medidas para conter a inflação, melhorar o mercado de trabalho, respeito à divisão de poderes, à liberdade de imprensa, combate à corrupção e à insegurança, entre outras demandas. Muitos repudiam o projeto de setores do kirchnerismo que defendem a implementação de uma reforma constitucional que permita uma segunda reeleição de Cristina, em 2015. A iniciativa dependerá do resultado das eleições legislativas. Se a Frente para a Vitória (FPV, sublegenda do peronismo fundada pelo ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010) conseguir manter sua maioria, a reforma poderá avançar.
— Por enquanto, os números parecem similares aos de 2009, quando o governo não teve uma boa votação — opinou Mariel Fornoni, diretor da Management & Fit.
Já Carlos Fara, da Fara e Associados, assegurou que “o governo teria um piso de 35% e um teto de 40%, com o qual teria a maior bancada, mesmo perdendo vários pontos em relação a 2011”.
— Levando em consideração que este projeto político tem dez anos no poder e não está em seu melhor momento, não é um resultado ruim — afirma.
Para ele, o governo está sofrendo um desgaste paulatino, mas não está em queda livre. Os motivos do desgaste?
— Uma mistura de crise econômica, uma presidente que não atende as demandas majoritárias (insegurança, inflação), um estilo que tornou-se agressivo, soberbo e um excesso de intervenção do Estado na economia que provoca medos e rompe com o sistema de valores da classe média — lista Fara.
O projeto de reforma do Judiciário, considerado uma tentativa de ampliar a concentração de poder do governo, e as denúncias de corrupção acentuaram a deterioração da imagem do governo, acrescentou o analista. As acusações contra o empresário Lázaro Báez, que era amigo pessoal de Néstor Kirchner, já estão sendo investigadas pela Justiça local e também por tribunais suíços.
Desafio de jornalista
Documentos obtidos pelo jornalista Jorge Lanata indicam que Báez criou empresas offshore no Panamá e outros paraísos fiscais, que teriam permitido lavar vários bilhões de dólares. Lanata também acusou o ministro do Planejamento, Julio De Vido, de cobrar propinas de empresários. O vínculo de Báez com os Kirchner é antigo. O empresário foi funcionário do Banco de Santa Cruz e com Kirchner como governador da província patagônica e, posteriormente, presidente, tornou-se dono de várias empresas de construção que foram beneficiadas com obras públicas.
— Se estamos mentindo, senhora presidente, diga à sociedade que estamos mentindo e, por favor, diga a verdade — disse Lanata, em seu programa de TV no domingo passado.
Cristina, mais uma vez, optou pelo silêncio.
