domingo, maio 12, 2013

Crise cambial pressiona Cristina Kirchner


Editorial
O Globo

Casa Rosada enfrenta escassez de divisas e acelera projeto autoritário de inspiração cunho chavista, com o controle do Judiciário. Mistura explosiva

Tendo como horizonte as eleições parlamentares de outubro, decisivas para o projeto kirchnerista de reeleger a presidente Cristina para um terceiro mandato, a Casa Rosada acelerou as medidas na área econômica, para tentar frear a crise cambial, e reforçou o ataque à democracia para ampliar o controle do governo sobre a sociedade, acelerando a trajetória chavista.

Nos últimos dias, pela primeira vez desde 2002, o dólar no paralelo ultrapassou os dez pesos e ficou mais de 100% acima da cotação oficial. É reflexo da escassez de divisas, provocada, entre outros fatores, pela virtual exclusão do país do mercado financeiro internacional, devido ainda a problemas na negociação com os bancos credores após a moratória de 11 anos atrás; à intensa procura dos argentinos por dólares — tradicional forma de poupança no país, pela desconfiança de governos; à fuga de capitais devido à crescente incerteza econômica; e à queda dos investimentos estrangeiros, pelo mesmo motivo e mais a insegurança jurídica. As reservas externas estão em queda desde 2009, apesar de a soja, principal produto de exportação, ter ido ao pico de US$ 650 por tonelada.

Em resposta, o governo decidiu tratar como legal dinheiro não declarado de argentinos, calculado em US$ 120 bilhões. A medida tem tudo para ser um tiro n’água, pois os donos dos recursos não sentem segurança para transferir para o sistema financeiro formal o produto, muitas vezes, de evasão fiscal, lavagem e outras operações ilegais. Afinal, esta é a Casa Rodada que maquia o índice de inflação e avança sobre recursos da previdência privada para tapar rombos do Tesouro.

Se a economia vai mal, é hora de dar gás ao projeto chavista, entendem os kirchneristas. Para que Cristina possa concorrer, é necessária uma emenda constitucional, que só será aprovada com uma ampla vitória nas eleições parlamentares de outubro. Para se garantir, o governo partiu para o controle do Poder Judiciário ao fazer aprovar no Congresso, onde tem maioria, uma reforma judicial para controlar o Supremo.

Na mesma direção, submeteu ao parlamento projeto que garante, via expropriação, o controle sobre a Papel Prensa, único fornecedor argentino de papel-jornal. Não por acaso, o maior acionista da empresa é o Grupo Clarín, sobre o qual recai toda a ira da Casa Rosada. É explosiva a mistura de crise econômica e avanço do autoritarismo.