sexta-feira, agosto 30, 2013

O que teria levado Assad a usar armas químicas?

O Globo
Anne Barnard, ‘New York Times’ 

Governo pode ter tentado aterrorizar ainda mais os que apoiam os rebeldes, dizem analistas

JONATHAN NACKSTRAND / AFP 
Mulher usa máscara e carrega cartaz com os dizeres:
‘Bashar al-Assad, procurado’

NOVA YORK - Com a probabilidade crescente de uma intervenção militar liderada pelos EUA contra o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, seus detratores e defensores têm se perguntado: por que ele lançaria um ataque químico mortal numa escala nunca antes vista na guerra civil em seu país - como as autoridades americanas e seus aliados afirmam - se ele parecia resistente às ofensivas contra ele, e justamente no momento em que os inspetores internacionais chegaram à Síria?

Aliados de Assad argumentaram que não haveria nenhum benefício lógico para que seu governo lançasse o ataque. Mesmo aqueles que defendem uma intervenção militar demonstraram perplexidade com uma das poucas ações que poderiam empurrar à ação um governo americano até então relutante em responder.

Se o governo sírio for responsável pelo ataque, o que ele nega, as razões para tal são conhecidas apenas pelo círculo íntimo de Assad. Mas analistas militares dizem que ele e seus partidários podem ter tido como objetivo aterrorizar ainda mais aqueles que apoiam os rebeldes, desafiando a comunidade internacional, ou simplesmente buscando aumentar a pressão militar sobre os financiadores mais teimosos e estratégicos dos combatentes rebeldes e seus apoiadores.

“O que faz sentido do ponto de vista militar e estratégico para Assad pode não fazer para nós”, diz Emile Hokayem, especialista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. “Assad está lutando sua própria luta, em seus próprios termos. Ele pode ter errado desta vez. Talvez não quisesse matar tantas pessoas, ou tenha achado que a comunidade internacional estaria menos sensível. Mas não significa que não faça sentido da perspectiva dele”.

De certo modo, o fato pode representar mais uma continuidade da guerra do que a saída dela. Em dois anos e meio de conflito, Assad aumentou lentamente a intensidade dos ataques contra bairros civis onde os rebeldes têm apoio.

Alguns analistas dizem que um crescente sentimento de impunidade pode ter levado Assad a acreditar que ele poderia escapar mesmo com um ataque bem maior do que os anteriores. Outros suspeitam que a intenção era apenas um aumento gradual no uso de produtos químicos, e que um erro tático levou a um número muito maior de mortos na última semana, e às fotos de corpos de crianças que provocaram indignação internacional.

Yezid Sayigh, analista militar no Carnegie Middle East Center em Beirute, diz que as forças do governo usaram armas químicas em pequenas quantidades várias vezes para combater lutadores nas linhas de frente, enquanto tentam tomar áreas específicas, e poderiam ter tentado agir assim em escala maior no último ataque.

Ele afirma que o governo também pode ter usado o efeito psicológico de armas químicas para assustar os moradores que insistiam em ficar na região, tirar cobertura e apoio dos rebeldes e aumentar os fluxos de refugiados aos já sobrecarregados vizinhos.

“Eles sentiram a necessidade de utilizar armas químicas há bastante tempo e foram longe com isso, sem rodeios, mas dentro de certos limites”, opinou Sayigh. “Talvez tenham sentido que precisavam alcançar progressos significativos na área de Damasco, e afrouxaram as regras”.

Embora o uso de armas químicas possa parecer inusitado durante uma visita de inspetores de armas da ONU, o efeito dissuasivo de observadores internacionais foi supervalorizado no passado. Hokayem lembra que alguns dos primeiros massacres em larga escala no conflito ocorreram durante visita de inspetores da ONU.

Analistas descartam a possibilidade de que o ataque tenha sido realizado por um comando remoto independente, assim como a ideia de um atentado desesperado e irracional. As forças do governo reduziram seus alvos militares, reconhecendo que não podem lutar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas têm mais capacidade do que os rebeldes para decidir sobre alocação de recursos e armas para áreas que consideram importantes em momentos determinados.

Ainda assim, existem diferentes centros de poder dentro de suas forças de segurança, e alguns analistas têm especulado que o irmão de Assad, Maher, líder da temida Guarda Republicana, possa ter dado a ordem.

Rússia e Irã, aliados da Síria, dizem que o ataque foi realizado por rebeldes, que produzem muitas armas caseiras. Mas o governo também usou armas aparentemente improvisadas, quando lançou bombas de helicópteros.

Sayigh aponta que o governo da Síria foi acusado de erros de cálculo semelhantes no passado, como no assassinato do ex-premier libanês Rafik Hariri, em 2005 — fato que levou à retirada de suas forças do Líbano sob pressão.

“Eles costumam agir de forma contundente”, diz Sayigh. “Às vezes, calculam mal”.