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Indícios do uso de armas químicas fazem Casa Branca considerar ação militar. A pedido de Obama, Pentágono prepara leque de opções ofensivas na região
Ahmed Jadallah/Reuters
Crianças esperam para receber alimentos e ajuda em campo
de refugiados na cidade de Bab al-Salam, na Síria
Diante do agravamento da guerra civil na Síria, com as acusações de que o regime de Bashar Assad teria usado armas químicas contra civis no massacre da última quarta-feira, os Estados Unidos já estudam estratégias para uma possível intervenção no país árabe. Nesta sexta-feira, o secretário de Defesa Chuck Hagel declarou que, a pedido do presidente americano, o Pentágono preparou um leque de alternativas para o caso de Obama decidir lançar uma ação militar contra Damasco.
"O Departamento de Defesa é responsável por fornecer ao presidente opções para todo o tipo de contingências", afirmou Hagel. "Isso exige posicionar nossas tropas e nossos recursos para ser capaz de realizar diferentes opções – qualquer que seja a escolha do presidente."
Plano de ação -
Embora o secretário de Defesa não tenha entrado em detalhes sobre as movimentações das forças do país na região, fontes militares relataram para a imprensa dos EUA que a frota americana no Mediterrâneo vai ganhar o reforço de um quarto navio de guerra e que a Marinha recebeu ordens para se preparar para uma possível operação militar na Síria.
Além disso, um funcionário de alta patente da Defesa americana contou para a rede CNN que a lista de alvos para ataques aéreos no território sírio foi atualizada recentemente. O plano de ação para um eventual bombardeio incluiria o uso de mísseis de cruzeiro, que partiriam de navios estacionados no Mediterrâneo e tornariam desnecessária a entrada de pilotos americanos no espaço aéreo sírio.
Foto de Homs, Síria, 5 de abril, 2013 - AFP
Em entrevista para a própria CNN nesta sexta, o presidente Barack Obama declarou que os EUA ainda buscam confirmação de que o ataque químico ocorreu, mas que todos os indícios apontam para um “evento de grande preocupação”. Obama destacou que a situação na Síria exige a atenção americana e acrescentou que evitar a proliferação de armas de destruição em massa e proteger as bases e os aliados do país na região são “interesses essenciais” dos EUA.
No ano passado, Obama defendeu que o uso massivo de armas químicas na Síria significaria a superação de uma “linha vermelha” que obrigaria a Casa Branca a estudar ações mais incisivas sobre o conflito. Depois do massacre da última quarta, França e Grã-Bretanha já se manifestaram a favor de uma ação militar contra Assad caso o uso de gases tóxicos seja comprovado. Aliada do ditador, a Rússia é contra a intervenção e considera o uso da força “inaceitável”.
Investigação -
No campo diplomático, os americanos anunciaram um esforço conjunto com os russos para convencer o governo sírio e os rebeldes a cooperaram com uma investigação sobre o suposto ataque químico.
Na quarta-feira, uma ofensiva na periferia de Damasco provocou um número indeterminado de vítimas. A oposição denunciou 1 300 mortes e acusou o regime de ter cometido ataques com gases tóxicos. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), que tem uma ampla rede de ativistas e médicos, contabilizou 170 mortes e não confirmou o uso de armas químicas. O regime negou categoricamente o uso de armas químicas.
Os principais grupos de oposição na Síria
• Conselho Nacional Sírio (CNS)
Criação: Outubro de 2011
Chefe: George Sabra
Princípios: lutar contra o regime usando meio legais; rejeitar divisões étnicas; proteger a independência e a soberania nacional, opondo-se à intervenção militar estrangeira.
Fundado na Turquia por exilados políticos, o conselho é dominado por muçulmanos sunitas que lutam contra cristãos e alauítas leais ao regime de Bashar Assad. O grupo é composto por 17 organizações menores e indivíduos que propõem uma administração interina para o período pós-Assad e um projeto de reconciliação nacional, além da criação de uma comissão judicial para investigar crimes contra a humanidade e eleições para formar uma assembleia constituinte.
A Irmandade Muçulmana exerce influência no CNS e o atual presidente, um cristão ortodoxo, representa a maioria de integrantes originários do grupo fundamentalista. Sabra substitui Abdel Baset Sayda, curdo que deixou o cargo em novembro de 2012, logo após a criação da Coalizão Nacional Síria das Forças de Oposição e da Revolução (CNFROS).
• Coalizão Nacional Síria das Forças de Oposição e da Revolução (CNFROS)
Criação: Novembro de 2012
Chefes: Ahmed Jarba
Princípios: defender a soberania e independência nacional com um regime civil e democrático; preservar a unidade do povo sírio e do país; não estabelecer nenhum diálogo ou negociação com o regime de Assad
Em resposta à pressão estrangeira por uma nova aliança que substituísse o Conselho Nacional Sírio, visto como ineficiente e consumido por disputas internas, as facções de oposição se reuniram no Catar para assinar o acordo de criação da Coalizão Nacional Síria das Forças de Oposição e da Revolução (CNFROS). Basicamente, o objetivo da CNFROS é o mesmo que o CNS – derrubar por via legal o ditador Bashar Assad e estabelecer um “estado civil democrático e pluralístico”. No entanto, ela tem a pretensão de ser um conselho de liderança mais inclusivo, que assuma o papel de representante legítima do país para receber ajuda financeira e militar de países estrangeiros.
De fato mais abrangente, a coalizão conta com membros de outros 14 grupos opositores, incluindo o próprio Conselho Nacional Sírio. Mas não aceita militantes islâmicos como os da Frente Al-Nusra, classificada como grupo terrorista pelos Estados Unidos.
Assim que foi criada, a CNFROS conseguiu o reconhecimento dos países do Conselho de Cooperação do Golfo, das 21 nações da Liga Árabe, de alguns países europeus e dos Estados Unidos. Mas a aliança enfrenta problemas semelhantes aos do CNS, e não conseguiu formar um governo provisório dentro da Síria para administrar as áreas dominadas pelos rebeldes.
• Exército Sírio Livre (ESL)
Criação: Julho de 2011
Chefe: Salim Idriss
Princípios: proteger os cidadãos sírios
O Exército Livre da Síria é considerado o principal braço armado de oposição ao regime de Bashar Assad. O grupo reúne civis, militantes islâmicos e, principalmente, desertores das Forças Armadas. Comandado pelo coronel e ex-integrante da Força Aérea Reyad Musa Al Asaad, o ESL diz não possuir nenhuma pretensão política e ser independente de qualquer etnia e religião. Seu objetivo declarado é proteger a população síria dos abusos do governo.O grupo já teve sede na Turquia, país que ainda é usado como refúgio por membros do braço armado rebelde. A principal reclamação do ESL é a falta de recursos e armamentos.
Inicialmente, as operações do grupo tinham como alvo comboios militares no noroeste do país, mas depois se espalharam para outras partes do território. Em um ataque na capital Damasco, uma célula do grupo matou o cunhado de Assad e o ministro da Defesa Daoud Rajiha. No entanto, o ELS já admitiu que não tem como manter o controle de uma área e realizar um confronto direto com as Forças do governo, estimadas em200.000 soldados. O grupo de oposição afirma ter mais de 40.000 homens, mas analistas dizem que o contingente não deve passar dos 10.000 integrantes.
• Frente Al-Nusra
Criação: Janeiro de 2012
Chefe: Abu Mohammed Al-Julani
Princípios: estabelecer um estado islâmico com base nas regras da sharia; o grupo realiza ataques com bombas a alvos do governo e facções muçulmanas contrárias a sua ideologia.
O grupo jihadista, que é classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos, recentemente jurou lealdade ao chefe da Al Qaeda, mas disse que quer manter sua identidade, sem se fundir com a rede extremista.
O grupo já reivindicou a responsabilidade por diversos ataques com bombas no país e justifica suas ações como uma reação às atrocidades cometidas pelas forças sírias e milícias pró-Assad. O grupo também já deixou claro que considera Israel e Estados Unidos inimigos do Islã e que combatem muçulmanos de outras facções, como os alauítas.
A existência de grupos ligados a organizações terroristas é um dos principais argumentos que levam os países ocidentais a relutar em relação ao envio de armas aos rebeldes. Em 2012, os Estados Unidos incluíram o grupo na lista de organizações terroristas.
• Comitê Nacional de Coordenação por Mudança Democrática (CNC)
Criação: Setembro de 2011
Chefe: Hussein Abdul Azim
Princípios: construir um Estado democrático e civil; rejeitar o sectarismo e a intervenção estrangeira; garantir na Constituição os direitos da etnia curda.
O comitê é um dos poucos a defender o diálogo com o governo de Bashar Assad como saída para a crise no país. A ideia é promover uma transição gradual para a democracia sem que seja necessário derrubar o regime, mas com algumas condições: anistia aos presos políticos, retirada dos militares das ruas e permissão de protestos pacíficos.
Contrários a qualquer intervenção exterior e defensores do aumento das sanções para pressionar Assad, os membros do Comitê criticam a Coalizão Nacional Síria, por acreditar que ela impõe sua legitimidade como representante do povo e enfraquece a relação de outros grupos democráticos com países ocidentais, e também o Conselho Nacional Sírio, que acusa de não ter ideologia, ser fraco e dominado pela influência da Irmandade Muçulmana.
Muitos grupos oposicionistas enxergam o Comitê Nacional como outra face do governo e não o reconhecem como oposição. A organização é formada por partidos políticos esquerdistas, três partidos políticos curdos, políticos independentes e jovens ativistas.

