sexta-feira, setembro 13, 2013

O dia do Chefão

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

No governo João Goulart, o general Humberto Castelo Branco era comandante do IV Exército, em Recife,  Santiago Dantas ministro do Exterior e Renato Archer secretário-geral do Itamaraty.

Miguel Arraes, governador de Pernambuco, começou a queixar-se de que o presidente João Goulart estava preparando uma intervenção federal  de duas pontas: contra Lacerda na Guanabara e contra ele, em Pernambuco, Veio ao Rio, pediu a interferência de Santiago Dantas.

Santiago resolveu ir a Recife ver as coisas de perto. Chamou Renato Archer, viajaram. Lá, Arraes os convida para um jantar reservado no Palácio com o general Castelo Branco. Quando os dois apareceram, Castelo fingiu  um susto e ficou visivelmente contrafeito. Mas a mesa estava pronta, sentaram-se os quatro e a conversa foi andando.

CASTELO
Castelo dizia  que não queria sair de Pernambuco :

- Doutor Santiago, estou informado de que o presidente João Goulart está maquinando uma intervenção em Pernambuco. A coisa é muito grave. Primeiro, porque o governador Arraes está realizando aqui uma administração eficiente, criteriosa, tranquila, e seria uma injustiça qualquer ação contra seu governo. Depois, porque Pernambuco é o coração de todo o Nordeste e qualquer intranquilidade no estado vai necessariamente atingir toda a região, de si já problemática. E como eu sei que a primeira medida para cumprir o plano é meu afastamento do comando da região, gostaria que o senhor, a quem o presidente ouve com o maior respeito e acatamento, fizesse ver a ele que, no interesse da tranquilidade do governo federal, não deveria haver mudança agora no comando militar da Região.

A conversa foi até alta madrugada. Os quatro trancados na sala. Santiago voltou, foi a Brasília, conversou com Jango. Não adiantou. Poucos dias depois, o general Castelo Branco era substituído pelo general Justino Alves Bastos,“para controlar o Arraes” (palavras textuais de Jango).

Castelo foi promovido para o comando do Estado Maior do Exercito.

CIVIS
Era exatamente o que Castelo queria. Toda aquela conversa dele no jantar de Recife era puro disfarce. Castelo já estava enfiado até os ombros (ele não tinha pescoço) na conspiração para o golpe militar de março de 64.

Magalhães Pinto em Minas, Carlos Lacerda na Guanabara, Ademar de Barros em São Paulo imaginavam que seriam os “lideres civis da Revolução”, cada um deles imaginando que os militares iriam entregar-lhe a presidência da Republica.  A Historia provou que bancavam os bobos. Terminaram a vida isolados, humilhados e sobretudo arrependidos.

MILITARES
Os militares já estavam lá na frente, porque a base da conspiração era a embaixada americana, através do embaixador Lincoln Gordon e o general da  CIA Vernon Walters, de quem Castelo era subalterno e serviçal. Costa e Silva no Rio, Mourão e Luis Guedes em Minas, Kruel em São Paulo, tantos outros, agiam nas suas áreas, mas quem recebia  as ordens dos americanos era Castelo, atarracado, baixinho, pequenininho, sem caraterzinho.

Quando o golpe estourou, ficou claro que o 31 de março era o dia de Castelo. Os americanos já o tinham escolhido bem antes para ser o Chefão. Jango foi exilado para o Uruguai, Arraes preso em Fernando de Noronha e depois exilado na Argélia e Castelo para o palácio do Planalto.

LULA
Hoje, seria o Dia D de Lula, o verdadeiro chefão do Mensalão, que, eleito presidente sem maioria no Congresso,  decidiu e mandou José Dirceu armar o esquema de compra de partidos e deputados. Dirceu sempre disse: – “Nada fiz sem ordem ou  conhecimento de Lula”.

Mas  Dirceu, Marcos Valério, Genoino, Delúbio Soares, outros, preferiram imolar-se a contar a verdade sobre Lula no Mensalão. Coube aos Procuradores Gerais da Republica Antonio Fernando e Roberto Gurgel esmiuçar, destrinchar, documentar e denunciar ao Supremo e ao bravo relator Joaquim Barbosa  a historia da “quadrilha”,“organização criminosa”

Afinal, o processo do Mensalão chegou ao fim. Está nas mãos do Supremo encerrar a não ser que, no “infringir” dos ovos, Lula e o PT, com seus “vastos poderes”, joguem o processo para o próximo ano e despejem o entulho em cima da candidatura de Dilma. Seria uma “chicana sacana”.