Adelson Elias Vasconcellos
Em tempos de governos petistas, as coisas são como são, não porque a sociedade queira, mas porque os ideólogos do partido resolveram privatizar para o partido aquilo que pertence ao Estado, do mesmo modo como resolveram que deveriam ensinar as pessoas a pensar como eles, a agir como eles, e a por no chão os postulados de uma sociedade livre, ordeira, democrático e que sustentasse suas instituições na lei, na ordem e na ética.
Quando lemos que José Dirceu, já sentido o cheiro de carne queimada no julgamento final do Mensalão, ameaça o STF com recurso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, está no fundo dizendo que ele, Dirceu, não reconhece no Judiciário do país autoridade em julgá-lo e condená-lo. O golpe à democracia do país, que ele arquitetou e chefiou deve ficar restrita aos “interesses do partido e do governo”, como ele próprio declarou.
O escândalo da atuação de Rosemery Noronha parece ter sido lacrado para que ninguém saiba o que de fato se passou nos bastidores do poder em que, o ex presidente Lula, concedeu aquela que deveria ser não mais do que mera secretária da presidência, ares de primeira ministra do escritório em São Paulo. Tinha mais poder do que ministros e assessores diretos. E, no entanto, a Justiça não permite que a sociedade que, é afinal quem pagou pela patifaria, tome conhecimento das investigações.
Fosse Rosemery ligada a algum partido de oposição e, certamente, teríamos dia sim dia também vazamentos seletivos de informações sobre suspeitas, documentos, declarações e todo o etecétera da apuração. Recentemente, o país assistiu como o método se desenvolve nas investigações do CADE sobre um cartel comandado pela Siemens. Enquanto a investigação se restringiu a São Paulo, a mídia nacional era abastecida com vazamentos pitorescos. Porém, quando estas mesmas investigações alargaram seus horizontes para os contratos da Siemens E Alstom com obras do PAC e até com governos estaduais, alguns comandados por petistas, os vazamentos simplesmente cessaram por completo.
Lembram do escândalo da Construtora Delta? Pois então, até uma CPI foi criada pelos petistas para apedrejarem o governo Marconi Perillo, de Goiás. Porém, bastou que as investigações alcançassem os braços da Delta em obras federais do PAC e os privilégios inúmeros que lhe concedeu o governador Sérgio Cabral, Rio de Janeiro, e rapidamente a CPI foi enterrada, e as investigações sumiram dói noticiário.
Se a gente for pesquisar direitinho, veremos que 90% das operações da Polícia Federal, em que desbaratam quadrilhas especializadas em assaltar os cofres públicos, vamos constatar que são formadas por esquemas construídas de 2003 para cá, ou seja, a partir da chegada do PT ao Planalto.
Lula, várias vezes, elogiou a atuação da Polícia Federal em seu governo. Alegava que a quantidade de operações se devia ao fato de que a PF petista era mais competente e menos tolerante com a corrupção. Aí a gente cai no mote publicitário do biscoito crocante. Isto é, tem mais operações porque no governo petista se rouba e se corrompe mais, ou se corrompe mais porque o governo petista é mais tolerante, por isso obriga a PF a trabalhar mais.
Vejam o caso recente da quadrilha que aplicou golpes em torno de R$ 400 milhões no Ministério do Trabalho. O secretário executivo, Paulo Roberto Pinto, demitido hoje, já tinha sido afastado do ministério por obra e graça de suas ações pouco republicanas. Sua primeira passagem se deu por nomeação de Carlos Lupi, que foi derrubado ainda no primeiro ano do governo Dilma, naquela leva de ministros demitidos por ligação com a corrupção.
Como Dilma precisava se fortalecer com vistas à sua reeleição, resolveu esquecer o passado, e eis o pedetista com novo poder de mando no Ministério do Trabalho. E de quem ele lembrou para secretário executivo? Adivinhem...
Vimos em texto do Josias de Souza, que ninguém menos do que Simone Vasconcellos, aquela senhora que carregava malas de dinheiro do valerioduto para a distribuição farta entre os parlamentares com consciência de aluguel, também pertencia a esta turma do Ministério do Trabalho. É exatamente a mesma personagem que o ministro Barroso, do STF, entendeu ter recebido pena rigorosa demais no julgamento dos embargos de declaração na ação do Mensalão.
Seja como for, o que a gente vai observando na medida que o tempo passa, é que os esquemas de fraudes assentados na administração pública do país, não poupam espaço algum. Por onde quer que se olhe, ministérios, secretarias, estatais, fundações, fundos de pensão, sempre poderemos encontrar uma quadrilha de carniceiros sugando recursos públicos. São esquemas de fraudes milionárias. Regra geral, poucos acabam condenados e, regra geral, quase nada do que é desviado acabe recuperado.
Nas manifestações de junho, quando a popularidade a provação de Dilma despencaram, disse aqui que lamentava que a agitação popular acontecia em um tempo distante demais das eleições, ou mesmo da própria campanha eleitoral. Este intervalo imensos de tempo, permitiria que o governo se recuperasse e adotasse medidas populistas e marqueteiras suficientes para a recuperação. É exatamente isto que estamos assistindo.
Por que isto é ruim para o país? Porque, não apenas o governo Dilma continuará errando a mão na economia e degradando nossos fundamentos ainda mais, como também estas quadrilhas mais e mais se sentirão seguras em continuar agindo contra os cofres públicos. De vez em quando, assistiremos o desmanche de uma ou outra, mas o grosso do que se rouba e se corrompe na administração federal continuará livre, leve e solto.
Do mesmo modo, por mais programas que este governo venha lançar, os serviços públicos continuará em estado de lastimável decomposição. Porque, se a propagando vende um paraíso artificial na imaginação das pessoas, a realidade insistirá em nos esfregar no rosto a indignidade com que tais serviços nos são oferecidos.
Pode ser que, a partir das campanhas de 2014, o sentimento de indignação que continua represado em grande parte da população brasileira, volte a se manifestar, abrindo caminho para um completo processo de mudança e depuração da vida política nacional. Outubro de 2014 nos oferecerá esta janela única de oportunidade para desprivatizar o Estado do partido único que o amordaçou, e devolver às instituições a seriedade com que as mesmas devem se conduzir.
