domingo, outubro 13, 2013

Afasta de nós esse cale-se

Sérgio Augusto
O Estado de São Paulo

Grupo que tenta cercear biografias se esquece de que figuras públicas não têm vida privada

Nem todas as atenções dos últimos dias se concentraram nas bodas de Marina e Eduardo e na avaliação das razias dos black blocs. Nas mídias e conversas, as dúvidas e controvérsias geradas pela adesão de Marina ao PSB e o racha entre os que apoiam e execram a ação dos nossos squadristi mascarados tiveram de dividir o proscênio com duas celeumas envolvendo escritores e artistas.

Ed Ferreira/Estadão
Caetano & cia. defenderam a ditadura do livro chapa-branca

Ambas tiveram como palco privilegiado a Feira de Livros de Frankfurt, na Alemanha, onde o Brasil foi homenageado ao custo de R$ 18,9 milhões aos cofres públicos ("Se os empresários do mercado editorial brasileiro precisassem da homenagem da feira, poderiam recebê-la, com o dinheiro deles", criticou o comentarista político Elio Gaspari, que também sugeriu que se aplicasse a dinheirama da viúva na restauração da Biblioteca Nacional). A comitiva brasileira mal tivera tempo de curtir a maioria dos estandes da Buchmesse quando os escritores Paulo Coelho e Paulo Lins questionaram a representatividade do grupo de autores selecionados pelo governo brasileiro. Coelho exigia a presença de mais ficcionistas best-sellers e, indignado, desembarcou do "trem da alegria". Lins criticou a ausência de outros autores negros, mas permaneceu em seu vagão.

A segunda celeuma, a rigor, não eclodiu em Frankfurt, mas lá encontrou uma providencial câmara de eco. De um lado, sete músicos (Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto e Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Djavan) tentando impor limites à produção de biografias não autorizadas; de outro, um vasto contingente de biógrafos, escritores, editores, intelectuais, atores e mesmo músicos contrários a qualquer obstáculo que possa inibir ou restringir a liberdade de expressão. A cisão não é recente, mas atingiu seu ponto de ebulição no fim da semana retrasada, com uma entrevista da empresária e ex-mulher de Caetano Paula Lavigne, ideóloga e líder da cruzada contra o livre exercício do biografismo. Partindo do princípio de que o Código Civil protege igualmente o público e o privado, ela e seus templários reivindicam uma compatibilização do direito constitucional à liberdade de expressão com o direito à "inviolabilidade da vida privada e da intimidade", como se isso fosse exequível sem ferir, com letais consequências, o princípio maior da livre manifestação do pensamento.

Além de exigir autorização para qualquer biografia, o grupo, autodenominado Procure Saber, sugere o pagamento de royalties aos biografados ou seus herdeiros. Isso ou a não comercialização da obra. Se distribuída gratuitamente, tudo bem, deduzo; até aleivosias seriam relevadas, presumo. Foi um corolário dessa barganha que os advogados das filhas de Garrincha impuseram ao biógrafo Ruy Castro e à Companhia das Letras: primeiro, tentaram proibir a comercialização de Estrela Solitária, por "danos morais" à imagem do jogador, afinal entubados mediante uma graninha.

Pegou muito mal essa cobrança de "direitos autorais sobre a vida pessoal" de cada um, até porque derivada de um raciocínio canhestro. À luz da história e da biografia, figuras públicas não têm vida privada. A cantora Nana Caymmi foi direto ao ponto: "Vida de artista é vida pública". Proibir biografia, segundo ela, "é falta do que fazer". Outro raciocínio canhestro: "Editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e da indignação". Assim falou Djavan, de olho gordo numa fonte de renda suplementar. Uma boa biografia dá muito trabalho, consome anos, às vezes décadas, de pesquisa e finalização; o melhor que os artistas têm a fazer, recomenda Nana Caymmi, é "se sentir honrados por ter gente interessada na vida deles".

A biografia de Clarice Lispector custou cinco anos de intensa e dispendiosa pesquisa ao americano Benjamin Moser. Seria insultuoso sequer insinuar que ele só (ou sobretudo) a escreveu pensando nos cifrões sonhados por Djavan e demais faniqueiros (Wilson das Neves, Pedro Luís, Nasi) agregados à brigada do "Procure Faturar".

Em carta aberta a Caetano, publicada na Folha de S. Paulo, Moser confessou-se "constrangido" com as declarações do compositor, para ele, "escandalosas, indignas de uma pessoa que tanto tem dado para a cultura do Brasil", lembrou ao amigo que liberdade de expressão, além de "absoluta", não existe "para proteger elogios", e o estimulou a não se transformar num "velho coronel".

Na pororoca de insultos e chacotas que de imediato se seguiu nas redes sociais, as cobranças foram mais incisivas e impiedosas. "Censores!", "Imorais!", "Gananciosos!" - e não eram apenas cidadãos comuns manifestando-se contra a ditadura da biografia chapa-branca, mas também intelectuais e companheiros de ofício de Caetano & cia. No meio do fogo cruzado apareceu um gaiato, que rogou ao Chico, "afaste de nós esse cale-se". Outro, não menos irreverente, cobrou de Caetano: "Desde quando não é mais proibido proibir?"

A um retwitt da colunista da Folha S. Paulo Mônica Bergamo, Lavigne reagiu com três bombásticos adjetivos: "chata, recalcada e encalhada". Desconheço o que pensava da jornalista quando de sua coluna se beneficiou no passado. A propósito, não seria pedir notas a colunistas uma forma de invasão da privacidade, uma espécie de bullying marqueteiro?

Na Feira de Frankfurt, um manifesto a favor dos biógrafos e uma palestra do historiador Laurentino Gomes puseram mais lenha na fogueira, que ainda ardia na sexta-feira. Como poderá arder por mais algum tempo, talvez seja uma boa imitar o fotógrafo Leo Aversa, que pensa em escrever uma autobiografia para depois processar o autor.