segunda-feira, outubro 14, 2013

Consequências da natureza regressiva do lulopetismo

Márcio Garcia Vilela
Tribuna da Imprensa

Quando o ex-presidente conquistou o primeiro mandato para a Presidência da República, festejei. Considerado político da esquerda democrática e republicana, imaginava-o um socialista nos moldes europeus, ombreando-se com homens públicos do tipo do espanhol Filipe González, do francês François Miterrand, do português Mário Soares, do trabalhismo do Reino Unido, chefiado por Tony Blair, e do socialismo escandinavo.

Ação política dessa ordem, claramente vinculada a compromissos ideológicos cujas fontes assegurassem o tranquilo e natural acesso e revezamento no poder, me parecia uma séria carência do regime brasileiro. As nossas forças de esquerda falharam em se aglutinar em torno de um projeto democrático consequente e responsável, merecedor do apoio das categorias intermediárias no plano sócio-econômico-cultural; contudo, precisavam integrar o espectro governamental do país sem abalos, como protagonista indispensável do processo de alternância no exercício do poder.

A expectativa sonhada frustrou-se ante a realidade. Pelo fim do primeiro mandato presidencial, excetuada uma ou outra iniciativa, era visível o naufrágio do governo Lula, adernado pelas vagas violentas das contradições incontroláveis. Felizmente, a nação não soçobrou, mas a conta dos desmandos da administração tem de ser quitada, reparando-se a mediocridade da tripulação, a falta de preparo técnico para conduzir a embarcação e o desprezo fatal, na travessia da nau estatal, pelos princípios éticos constitucionalmente mandatórios.

A “GERENTONA”
Esses postulados, ao léu e ao relento, representados no triste episódio do mensalão, que nos custou tanta desonra, foram as manchas de sujeira que mais cravaram o símbolo desafiador que o passar do tempo não conseguiu, até hoje, remover com a imprescindível punição, quando nada para resgatar a dignidade nacional.
Aí surgiram “o clarim e o clarão”, na forma da eleição presidencial, destinada a abrir novas sendas para a cavalgada da recuperação. O caudilho populista e bolivariano não parecia dispor de candidato para suceder-lhe. Foi para a improvisação, e inventou o seu candidato do bolso do colete. Como não havia como justificá-lo politicamente, arranjou-lhe um apelido de péssimo gosto, como é do seu feitio, com o pretexto de que a administração precisava de uma “gerentona”, não de um político de peso.

Como nem sequer conhecia a máxima de Napoleão – “chassez le naturel, il en viendra au galop” –, já que abomina boas leituras, segundo confessou publicamente, a escolhida tem sido o que pode ser, como geralmente acontece. Ora, a nação que se dane; afinal, o que interessa é ganhar as eleições com os meios existentes, sejam quais forem. Nada de escrúpulo, peculiaridade encontradiça em quem um dia despertou esperança e hoje suscita a desconfiança.

Sem qualquer estratégia definida, informa o jornal “Valor”, a sra. Rousseff buscaria agora “repactuar a relação do seu governo com o setor privado”. “Como passará?”, se só acredita no regresso histórico. 

Transcrito de O Tempo