Cecília Ritto e João Marcello Erthal
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Presidente da Câmara dos Vereadores disse ter chamado a polícia somente à noite porque acreditava em ato pacífico. A PM só chegou ao protesto meia hora depois do quebra-quebra
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Manifestantes picham a fachada da Câmara dos Vereadores
Para quem ainda acredita que é possível haver um protesto “pacífico” com a presença de mascarados, duas informações. A primeira: não é verdade que black blocs ou qualquer outra variação romanceada do banditismo estejam interessados em atos sem violência. A outra: no Natal, aquele senhor de barba branca e roupa vermelha era, provavelmente, um parente seu. Na noite de segunda-feira, os professores prestaram pelo menos um serviço ao Rio de Janeiro, sepultando a ingenuidade restante sobre as reais intenções do black bloc. Um repórter da rádio CBN descreveu em detalhes, na manhã desta terça-feira, como foi aliciado para “roubar tablets” em um shopping de informática, no meio do protesto.
Os professores sérios que estiverem em folga podem começar o dia dedicando-se a algumas correções de relatos nas redes sociais. Os equívocos mais presentes do momento são: os black blocs “se infiltraram” no protesto e “os mascarados protegem os manifestantes”. Quem acompanha o tema pelo Facebook sabe que os mascarados foram convocados pelos sindicalistas, e, desta vez, caíram em uma armadilha invisível da Polícia Militar. Os PMs, sabendo o que estava por vir, apenas deixaram o grupo à vontade. E, claro, a rapaziada que considera a depredação de agências bancárias uma ação “pacífica”, passou a promover o vandalismo. Desta vez, com um elemento novo, o incêndio de um ônibus.
O Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio (Sepe) é comandado por mestres que não sabem matemática – eles admitiram, em entrevista ao site de VEJA, não ter calculado os salários com base nos critérios da prefeitura, nem nos padrões propostos por eles próprios. O Sepe saiu-se com a seguinte defesa para a baderna de ontem, como consta em reportagem do jornal O Globo: “O ato promovido pela categoria foi encerrado às 20h”. Ou seja, o sindicato convoca uma centena de mascarados e, no momento em que a quebradeira vai começar, encerra oficialmente suas atividades, isentando-se da culpa.
Se for seguida a letra fria da lei, a PM prevaricou na noite de segunda-feira: no Estado do Rio, é proibido usar máscaras em protestos. E também é dever do policial prender quem depreda o patrimônio público ou privado. O bizarro jogo de propaganda em curso, no entanto, torna difícil entender os movimentos das autoridades. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, definiu o dilema dos policiais que atuam em protestos com a seguinte sentença: “Nós estamos tratando de turba, de ações muito difíceis e muito complexas, que por vezes colocam a polícia entre a prevaricação e o abuso de autoridade”. No caso de ontem, prevaleceu a prevaricação, em favor do objetivo de criar um desgaste para o movimento grevista a exemplo do que houve com o protesto que varreu ruas do Leblon e de Ipanema, atacando lojas e mobiliário urbano.
A estratégia do presidente da Câmara dos Vereadores, Jorge Felippe (PMDB), foi alinhada com a da polícia: deixar a confusão tomar conta do entorno do legislativo carioca e depois mostrar os efeitos dos black blocs sobre a cidade. Durante o quebra-quebra do lado de fora, enquanto manifestantes tentavam derrubar o portão e jogavam coquetel molotov em direção ao legislativo, um grupo da brigada de incêndio e de guardas municipais tentavam conter os vestígios que chegavam dentro da Câmara. Segundo Felippe, eram 400 black blocs.
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Agência bancária é destruída por Black Blocs
Nesta terça-feira, o presidente disse ter chamado a PM às 19h30, quando os mascarados começaram a pressionar o portão. O fato é que, em todas as manifestações no entorno do prédio - seja em reuniões da CPI dos Ônibus ou em sessões para discutir o plano de cargos e salários dos professores -, Felippe pediu ajuda com antecedência à policia, que montou um cerco e não permitiu que o protesto chegasse à porta da Câmara. No Rio, foi-se o tempo em que protestos não terminavam em confusão, bombas e corre-corre. No Facebook, as páginas que promovem a baderna davam o sinal de que não seria diferente o protesto encabeçado pelos professores. Felippe, no entanto, disse que ainda acreditava em um ato pacífico e que, por isso, não acionou a PM com antecedência. “Imaginávamos que seria uma manifestação pacífica, e não que os Black Blocs se multiplicariam e viriam com violência”, afirmou. O comportamento do presidente da Casa também é curioso. Na ocupação de uma semana atrás, ele pediu diretamente ao governo do estado a ação da PM.
“Conversei com o comandante da Polícia e pedi reforço na noite de segunda. Fomos atendidos. Os black blocs agiram de forma dispersa, com grupos de cinco ou seis. Isso dificultou o controle da polícia. Chegaram a tentar invadir o quartel general da PM, mas a polícia se rearticulou e pôde evitar a invasão à Câmara”, disse Felippe, afirmando que os manifestantes usaram material de guerrilha. O resultado dos trinta minutos sem qualquer intervenção policial é visto com indignação por quem passa pela Cinelândia nesta terça. Ninguém mexeu no cenário da destruição, e os destroços do protesto agora servem de antipropaganda para os grevistas. Os vidros do ponto de ônibus ainda estão no chão. As agências bancárias continuam sem tapumes, escancarando os caixas depredados, a fiação solta, as pichações com o nome “Black Bloc” e montes de sujeira misturados aos restos de portas e janelas.
Os símbolos do anarquismo e do marxismo também se espalharam pelo quadrilátero da Câmara, cujas pichações na fachada exaltam os vândalos e pedem a saída do governador Sérgio Cabral, do prefeito Eduardo Paes e da secretária municipal de Educação, Claudia Costin. Outras inscrições pedem “BB’s (Black Blocs) no poder” e “morte aos corruptos”. O portão preto da lateral do legislativo está revestido com tons de vermelho e uma parte ficou retorcida de tanta pressão dos manifestantes. Dentro, houve principio de incêndio em duas salas. Policiais fizeram a perícia na manhã desta terça-feira.
No cerimonial, segundo o diretor da brigada de incêndio da Câmara, Ward Gusmão, foi arremessado um sapato com fogo. Na sala da liderança do DEM, há resquícios de bomba e de objetos queimados. Felippe colocou a culpa nos black blocs, tirou o peso dos professores e pediu a compreensão da categoria: “Quem fala a verdade não merece castigo. A cidade do Rio não tem como pagar o salário que o sindicato quer”, afirmou. Nesta terça, os vereadores arranjaram mais um motivo para não pisar no legislativo. As salas da lateral que ficaram danificadas fizeram a Câmara suspender os trabalhos por hoje.

