Valor
A valorização do real entre setembro e meados deste mês, após a escalada do dólar nos meses anteriores, ainda tem reflexos sobre os preços no atacado e vai contribuir para que o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) mantenha trajetória descendente em novembro.
De acordo com a média das projeções de 17 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, o índice deve ter subido 0,32% em novembro, deixando para trás uma alta de 0,86% no mês anterior e de 1,5% em setembro. As estimativas para o indicador neste período, que será divulgado hoje pela Fundação Getulio Vargas (FGV), variam entre 0,25% e 0,38%.
A forte desaceleração dos produtos agropecuários em outubro vai continuar neste mês e influenciará também os alimentos e bebidas industrializados, o que pode contribuir para uma trajetória mais benigna para a inflação de alimentos no varejo neste fim de ano. Se confirmada esta expectativa, aumentam as chances de que o governo consiga acomodar um reajuste da gasolina com a meta informal do Banco Central neste ano, que é entregar inflação menor em 2013 do que os 5,84% observados no ano passado.
Fabio Romão, economista da LCA Consultores, projeta que o IGP-M vai ter alta de 0,32% em novembro ante 0,86% na leitura anterior. Para o economista, os preços no atacado explicam essa menor pressão, já que o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que tem peso de 60% na composição do IGP-M, vai deixar avanço de 1,09% em outubro e subir apenas 0,20% em novembro.
Dentro deste grupo, os produtos agropecuários ainda vão perder força, mas a principal fonte de redução da pressão sobre os preços virá dos itens industrializados, à medida que os efeitos da escalada do câmbio até setembro se dissipam ao longo da cadeia.
O IPA-Agro, que subiu 2,97% em setembro por causa dos efeitos da desvalorização do real em relação ao dólar naquele período, já havia avançado menos em outubro, 0,49%. Em novembro, diz o economista, esses itens seguirão perdendo força, subindo somente 0,18%. "As principais contribuições para essa desaceleração serão itens como ovos e aves, que podem ter deflação, e a carne bovina, com altas menos acentuadas do que nos últimos meses". A desaceleração, comenta Romão, está ocorrendo mais rápido do que era antecipado e fugindo ao padrão sazonal, que seria de alta neste período do ano.
Flavio Serrano, economista do BES Investimentos, afirma que os produtos agropecuários estão fugindo da sazonalidade em função das grandes oscilações causadas pelo câmbio. Em setembro, a soja havia subido 10,78%, o que encareceu as rações de animais. Como em outubro o grão cedeu e avançou apenas 0,60%, agora há uma correção dos preços das proteínas animais para baixo.
Esse ajuste vai se refletir também nos preços industrializados, que para Serrano vão passar de 1,32% no mês anterior para alta de apenas 0,14% em novembro. Os alimentos e bebidas industrializados, que subiram 2,36% e 2,04% em setembro e outubro, respectivamente, agora devem ficar em terreno negativo.
Esse movimento deve ser reforçado ainda pelo minério de ferro, que vai ter alta bem inferior aos 6,81% de outubro.
Para os economistas, embora o câmbio tenha voltado a se desvalorizar nas últimas semanas e encostado em R$ 2,30, essa variação só tende a pressionar os preços no atacado com alguma defasagem, e por isso os efeitos ainda não vão ser observados em novembro. Romão, da LCA, comenta que o real se desvalorizou menos agora do que em setembro, quando os efeitos do câmbio sobre a inflação já haviam sido moderados. "Não devemos ter movimento muito intenso e não vai ser determinante a ponto de pressionar a inflação no varejo".
Os economistas também avaliam que a redução da pressão dos alimentos no atacado deve chegar ao varejo ainda neste ano. Romão projeta alta de 0,65% do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) em novembro (que tem peso de 30% no IGP), em relação ao avanço de 0,43% no mês anterior. Para Romão, os alimentos explicam boa parte dessa aceleração, mas não toda. Habitação e despesas diversas também vão subir mais por causa de reajustes de água e esgoto e do cigarro em algumas capitais.
No entanto, em novembro e dezembro os desdobramentos dos alimentos menos pressionados no atacado começam a aparecer no indicador oficial de inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Romão projeta que os alimentos e bebidas vão subir 0,54% em novembro e 0,48% em dezembro, altas mais fracas do que em igual período do ano passado.
Serrano, do BES, também avalia que os alimentos vão continuar pressionados, mas em magnitude bem menor do que a verificada nos últimos anos. "Quando começarem as chuvas de verão, os produtos in natura vão subir, mas vamos ter comportamento mais favorável de proteínas animais", afirma.
Neste cenário, mesmo com um reajuste de 4,5% da gasolina nas bombas no fim de novembro, a inflação será menor do que a do ano passado, a meta informal do Banco Central para 2013, na avaliação da LCA. Romão, que até pouco tempo não acreditava neste cenário, afirma que "são grandes as chances do IPCA ficar abaixo de 5,84% neste ano". Com estimativa de inflação de 0,57% e 0,75% neste e no próximo mês, respectivamente, Romão avalia que o índice oficial ficaria em 5,76%.
Serrano, do BES Investimentos, projeta IPCA de 5,7% neste ano e prefere não estimar o reajuste dos combustíveis, por ser uma decisão que qualifica como 'discricionária" e "política".
