O Globo
Com Agências Internacionais
Pressionada pela Rússia, país trava pacto com UE
Ex-república soviética hesita em firmar acordo comercial com bloco
STRINGER / REUTERS
Estudantes participam de protesto
a favor da integração com a União Europeia em Kiev
VILNIUS - A Ucrânia participa nesta quinta e sexta-feira da cúpula da União Europeia e de seis países ex-soviéticos sob forte pressão do bloco e da Rússia. O encontro de dois dias em Vilnius, capital da Lituânia, ganhou contornos de drama geopolítico após o presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, congelar as negociações para a assinatura do acordo de associação com a UE - que seria a peça central da cúpula e marcaria uma mudança histórica para a Ucrânia, afastando-a da Rússia.
Durante o evento, o ministro das Relações Exteriores sueco, Carl Bildt, afirmou que seu colega ucraniano, Leonid Kozhara, admitiu que o país travou o acordo com a UE devido à pressão da Rússia, de quem a Ucrânia é muito dependente economicamente. Mas, em geral, Kiev culpa os custos bilionários de adaptar a indústria do país aos padrões exigidos pela UE, citando cifras contestadas pelo bloco.
- A economia ucraniana precisa de grandes investimentos, mas estes não são custos. Os únicos custos que vejo são os da inação, permitindo a estagnação da economia e arriscando o futuro do país - rebateu o comissário de expansão da UE, o tcheco Štefan Füle.
O bloco conta com o apoio de boa parte da população ucraniana. Desde a semana passada, quando Yanukovich anunciou que não assinaria o acordo na reunião em Vilnius, milhares têm defendido nas ruas o entendimento do país com a UE. Ontem, em Kiev, pelo menos dez mil pessoas saíram às ruas para defender a assinatura do acordo, que não implica em adesão à UE. Para muitos ucranianos - principalmente os que vivem no Oeste do país, mais ligados à cultura da Europa Ocidental - o acordo seria também uma declaração de identidade e valores.
Ganhando tempo
Mais que um embate comercial, a Ucrânia é pivô de uma briga por influência entre UE e Rússia em que o bloco quer detonar o que resta da “cortina de ferro” da Guerra Fria, e Moscou usa de todas as artimanhas disponíveis para manter países da antiga União Soviética como seus satélites. Com a população dividida entre a aproximação do país à UE ou à Rússia, a Ucrânia - o sétimo país mais populoso da Europa, com quase 46 milhões de habitantes, e o segundo mais extenso do continente - aparece como a peça mais valiosa desse jogo. Por enquanto, o bloco europeu se contentou em firmar acordos similares com as pequenas Geórgia e Moldávia.
Consciente de sua importância, mas também de seu limitado poder, a Ucrânia analisa os custos políticos e econômicos das ofertas e pressões. Além de renegociar a dívida, a Rússia promete suspender as restrições às importações de produtos ucranianos e baixar o preço do gás exportado - que chega à Bielorrússia, aliada de Moscou, por um terço do preço pago por Kiev - se Yanukovich der as costas para a UE. Em crise, o bloco não tem o mesmo dinheiro da Rússia (os € 600 milhões oferecidos pelos europeus foram considerados humilhantes por Yanukovich) e precisa do mercado ucraniano.
Para completar, a Ucrânia terá eleições gerais em um ano e meio, e uma das condições impostas pela UE para o acordo comercial é a libertação da ex-premier Yulia Timoshenko, arquirrival de Yanukovich e considerada presa política por vários países ocidentais. Acusada de abuso de poder, ela entrou em greve de fome em defesa do acordo com a UE.
Para analistas, o presidente ucraniano tenta conciliar a UE e a Rússia enquanto ganha tempo para um melhor acordo com Moscou no curto prazo.
- Yanukovich quer ganhar tempo e sair de Vilnius com algo que ele possa usar nas negociações com a Rússia - disse Tim Ash, economista do Standard Bank, de Londres. - Ele espera palavras de apoio da UE para acalmar os ânimos nas ruas.
