João Werner Grando, Fabiane Stefano e Bruno Ferrari
Revista EXAME
Não é só isso. Os lucros dos fazendeiros estão se transformando em investimentos que podem levar a um novo salto de produtividade no campo
Germano Lüders/EXAME.com
Eraí Maggi em uma de suas fazendas em Mato Grosso:
ele já é o maior produtor mundial de grãos
Cuiabá e São Paulo - Este é o melhor ano da vida do maior agricultor do mundo. Eraí Maggi Scheffer, gaúcho de 54 anos que fez a vida em Mato Grosso, acaba de colher a maior safra de grãos da história. Há pouco mais de um ano, ele espalhou sementes de soja, milho e algodão por uma área de 420 000 hectares — o equivalente a três vezes a cidade de São Paulo.
Como sempre no mundo da agricultura, foi um empreendimento de alto risco. Mas o tempo ajudou, choveu na hora certa, estiou quando necessário, e Eraí, como é mais conhecido, colheu 1,7 milhão de toneladas. É um número que, solto em meio a tantos outros, não mostra a dimensão que realmente tem.
Para transportar essa produção, são necessários quase 45 000 caminhões — que formariam uma fila de ida e volta na rodovia Presidente Dutra, que liga o Rio de Janeiro a São Paulo. Eraí vai faturar 1,2 bilhão de reais em 2013. É um resultado improvável para uma história que começou há 50 anos, quando sua família deixou o Rio Grande do Sul para tocar uma fazenda de 60 hectares no Paraná.
Duas décadas depois, Eraí Scheffer seguiu o caminho de outros colonos gaúchos e se mudou para Mato Grosso, numa época em que o cerrado brasileiro começava a deixar de ser um ambiente inóspito para a agricultura. Trabalhou na propriedade do tio e passou os anos 90 comprando fazendas de agricultores quebrados. Tornou-se o maior produtor de soja do país em 2007, quando ultrapassou o primo, o hoje senador Blairo Maggi. Agora é o maior produtor de grãos do mundo.
A estonteante safra colhida por Eraí Maggi Scheffer simboliza um momento bastante peculiar da economia brasileira — que está sendo empurrada pelo agronegócio. A indústria patina, o varejo cresce menos do que em outros anos, as exportações caem, o crescimento médio da economia decepciona. Mas quem está no campo parece viver em outro país.
De 2008 para cá, a agropecuária cresceu duas vezes mais do que o PIB nacional. No primeiro semestre deste ano, a diferença foi mais gritante: o PIB teve uma expansão de 2,6%, e a agropecuária cresceu quase 15%. Tudo isso, vale dizer, vem acontecendo sem pacotes de ajuda governamentais, reuniões de emergência em Brasília, isenções fiscais temporárias ou qualquer tipo de mãozinha dessas que têm sido praxe no país nos últimos cinco anos.
E o empurrão dado pelo campo tem evitado uma situação econômica pior. Não fossem as exportações do setor, o déficit de 1,6 bilhão de dólares da balança comercial nos primeiros nove meses do ano aumentaria para 67 bilhões de dólares.
Colhemos 187 milhões de toneladas de grãos em 2013, um crescimento de 12% em relação a 2012 impulsionado pelo bom ano das principais culturas do país, a soja e o milho. Poderia ser apenas outro recorde entre tantos batidos pelo agronegócio nacional na última década, mas um olhar mais distanciado torna a atual fase de nossa agricultura ainda mais impressionante.
A safra brasileira de grãos dobrou na última década. E o que se vê, hoje, não é a expansão territorial que explicou o avanço do agronegócio em outras fases. Como se sabe, a conquista do cerrado mudou a cara da agricultura brasileira. Isso se tornou possível quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu sementes de soja capazes de vingar no calorão do cerrado.
De 1998 a 2005, a área plantada no país cresceu 35%. Foi esse o fenômeno que deu origem a produtores como Eraí Scheffer, Blairo Maggi e tantos outros, com suas plantações do tamanho de cidades. Mas os tempos em que a área plantada avançava aos saltos ficaram para trás.
Nos últimos sete anos, o crescimento foi de 0,5% ao ano; a média dos sete anos anteriores foi de 3%. Ainda há muito espaço para conquistas territoriais, é verdade — a área ocupada pela pecuária é vastíssima —, mas o que tem feito a diferença é o aumento deprodutividade dos agricultores brasileiros.
De 2006 a 2013, seu crescimento foi de 5% ao ano. Na última década, a produtividade da indústria caiu 1% ao ano e a do setor de serviços subiu apenas 1%. O agronegócio está fazendo, em suma, aquilo que o resto do país deveria fazer. E há espaço para mais. “Podemos dobrar a produção nos próximos anos”, diz Eraí Scheffer.
Essa convicção se deve à combinação de dois fatores. Primeiro, os agricultores brasileiros nunca ganharam tanto dinheiro. Segundo cálculos do Rabobank, banco holandês que é o maior financiador da agricultura do mundo, a margem de lucro dos fazendeiros passou de 26% para 54% na produção de soja e de 15% para 40% no caso do milho, de 2000 para cá.
A conta não inclui gastos com logística, o maior pesadelo enfrentado pelos produtores, mas indica que está sobrando mais dinheiro a cada ano. E é aí que entra outro fator. Quem tem dinheiro para investir encontra hoje um leque enorme de opções para aumentar a produtividade de sua fazenda.
Tratores de última geração, sementes mais resistentes, sistemas por satélite para decidir onde plantar são cada vez mais usados nas lavouras brasileiras. E, aos poucos, cria-se a percepção de que separar parte do lucro para investir vale a pena. As melhores fazendas de cada cultura são muito mais produtivas do que a média.
A diferença chega a 90% na soja e a 100% na cana-de-açúcar (veja quadro ao lado). É impossível que todos os produtores nacionais tenham o desempenho dos melhores. Mas um estudo da consultoria Agroconsult indica que, seguindo o ritmo atual de incrementos tecnológicos, associado a uma expansão de área, a produção anual de grãos poderá aumentar 50% até 2023.
Se uma década atrás o avanço na produtividade da agricultura se devia, sobretudo, à mecanização em larga escala, quem está à frente do processo hoje em dia usa a tecnologia com um grau de sofisticação muito maior. O agricultor Richard Dijkstra, do Paraná, tornou-se um dos mais produtivos do país usando o que se convencionou chamar de agricultura de precisão para cultivar milho e trigo.
De dois em dois anos, amostras do solo são enviadas a um laboratório, que analisa sua acidez e fertilidade. Essas informações são usadas para formar um mapa detalhado da fazenda, com os dados do que cada hectare precisa para ter uma produtividade maior. Com base nisso, máquinas guiadas por satélite depositam em cada área da fazenda apenas a quantidade de adubo necessária, sem desperdícios.
Segundo Dijkstra, enquanto antes eram depositadas até 2 toneladas de fertilizantes em cada hectare sem fazer distinção da área, agora o volume varia, podendo ser zero nas regiões identificadas como mais férteis. “O uso de insumos diminuiu muito, e o efeito foi direto na rentabilidade do negócio”, diz. A próxima novidade em teste em suas fazendas é uma máquina que analisa a necessidade de aplicação de nutrientes conforme a cor das folhas do trigo e do milho. Hoje, a produtividade é cerca de 20% maior do que a média da região.
Agricultores como Dijkstra estão na vanguarda do setor no país. São, ainda, uma minoria. Estima-se que apenas 10% dos cerca de 5 milhões de propriedades rurais brasileiras usem alguma técnica de agricultura de precisão — nos Estados Unidos, o percentual chega a 90%, o que ajuda a entender por que o país é a maior potência agrícola do mundo.
Ainda que a produtividade nacional tenha aumentado nos últimos anos e seja a maior do mundo nas lavouras de soja, ela ainda é inferior à dos Estados Unidos no milho e à da Austrália no algodão. O que impressiona, no entanto, é a velocidade com que o buraco que separa o Brasil dos melhores do mundo encolhe.
De 2000 a 2010, a produtividade nas lavouras de grãos do Brasil cresceu, em média, 4,3% ao ano. Nos Estados Unidos, o aumento foi de 1,8%, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). “Os ganhos de eficiência têm se espalhado rapidamente entre os produtores, porque os efeitos no negócio são grandes e há recursos disponíveis”, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados.
O aumento na produtividade que se viu na última década foi resultado de um trabalho de formiguinha dos agricultores. É assim na vida real. Um trator de última geração, com ar-condicionado, câmera de visão noturna e piloto automático custa 550 000 reais. O mais básico, que só funciona de dia e com bem menos potência, sai por 10% do preço.
Bernardo Gradin: investimento de 4 bilhões de reais
para desenvolver uma nova maneira de produzir etanol
A semente de soja mais resistente custa duas vezes mais do que o tipo comum. É o investimento ano a ano que traz aumento de produtividade, mas houve também um salto que só o Brasil deu: a descoberta de que era possível plantar duas safras ao ano (uma de soja, outra de milho) na mesma área. É algo que, pelo clima único, só acontece em grande escala no Centro-Oeste.
Um dos pioneiros na técnica foi o gaúcho Rogério Ferrarin, que se mudou para Mato Grosso na década de 90. “Acharam que eu era maluco, mas ninguém tirava da minha cabeça que cabiam duas safras dentro do período de chuva”, diz Ferrarin. Seu objetivo era plantar a soja mais cedo para colher em janeiro, cerca de dois meses antes do usual, e começar a semear a terra com milho na sequência para que a lavoura fosse regada pelas chuvas que costumam ir até o fim de março na região.
No início, a produtividade era baixa, mas, com sementes mais adaptadas, o problema foi resolvido. O último avanço foi dado com a chegada da semente de soja “precoce”, que é colhida mais rapidamente, o que abre mais espaço para que o milho pegue as chuvas. A chamada safrinha tomou conta de Mato Grosso. Neste ano, chegou a 46 milhões de toneladas, a maior da história e 12 vezes maior do que a de 2000. Curiosamente, a safrinha já ultrapassou a safra tradicional de milho. Em dez anos, a produtividade do grão cresceu 43%.
A obsessão por produtividade vem atraindo para o agronegócio uma nova leva de empresas inovadoras. Duas delas entraram no ranking das 50 mais inovadoras do mundo, elaborado pela revista americana Fast Company.
A Enalta, de São Carlos, no interior paulista, desenvolveu um sistema que monitora o trajeto das máquinas agrícolas e traça o melhor percurso de acordo com o que precisa ser feito na plantação. E a Bug Agentes Biológicos, de Piracicaba, cria em laboratório insetos para substituir o inseticida nas lavouras.
Talvez nenhuma dessas empresas recém-criadas tenha tanta ambição quanto a GranBio, fundada pelo empresário Bernardo Gradin com a intenção de virar do avesso o mercado deetanol. Gradin pretende produzir etanol de forma alternativa: em vez de usar o caldo da cana-de-açúcar como matéria-prima, vai usar a celulose obtida do bagaço e da palha da cana, o chamado etanol de segunda geração.
“Queremos gerar etanol de forma mais barata e eficiente usando a biotecnologia”, diz Gradin, cuja família detém 20% das ações do grupo Odebrecht. A empresa importou uma variedade mais produtiva de cana, encontrada em Barbados, no Caribe. Hoje, está plantando de forma experimental em Alagoas, fazendo o cruzamento genético com variedades brasileiras para chegar a uma espécie mais adaptada ao clima local.
A GranBio montou um laboratório em Campinas, onde uma dezena de Ph.Ds. pesquisa enzimas e leveduras capazes de converter a celulose em etanol de forma mais eficiente. A previsão é que a primeira fábrica comece a funcionar em fevereiro de 2014. O investimento será de 4 bilhões de reais até 2020 — o BNDES já aportou 900 milhões. Caso dê certo, o etanol de segunda geração deverá ser 30% mais barato do que o extraído do caldo da cana.
Nova geração
A chegada de novas empresas, o crescimento das fazendas e a sequência de bons anos estão ajudando a transformar os negócios no campo. Se já não era negócio para amadores, a agricultura brasileira passa por um processo de profissionalização sem precedentes.
“Os agricultores brasileiros dominaram a parte técnica. Agora começam a organizar melhor os negócios”, diz André Pessôa, sócio da consultoria Plataforma Agro. A consultoria, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e a Organização das Cooperativas Brasileiras realizaram a primeira grande pesquisa sobre o perfil do produtor brasileiro, que mostra que, nas grandes fazendas, começa a haver preocupação com a administração.
A pesquisa, que entrevistou 1 500 dos principais agricultores e pecuaristas do país em 16 estados, mostra que 25% deles contrataram gerentes financeiros e 20% usam serviços de consultoria quando querem alterar algum processo de produção ou planejar a sucessão. Além disso, a segunda geração, composta dos filhos do fundador, tem uma formação melhor do que a dos pais.
O paranaense Nelson Vigolo, um dos maiores produtores de grãos de Mato Grosso, começou a organizar sua empresa. Em cinco anos, sua área plantada dobrou para cerca de 200 000 hectares, e o número de funcionários, para 3 000. Do comando familiar, que dividia com o pai e o irmão, migrou para uma organização com três diretorias: comercial, de recursos humanos e financeira.
“O negócio ficou complexo demais para mantermos uma estrutura centralizada de decisões”, diz Vigolo. Talvez o grande modelo desse processo seja a SLC Agrícola, que abriu o capital na Bovespa em 2007. Fundada pela família gaúcha Logemann, a SLC cultiva soja, milho e algodão em 15 fazendas, em estados como Mato Grosso, Goiás e Maranhão.
O atual presidente é o agrônomo Aurélio Pavinato, que não é da família. Sua meta é aumentar a área plantada de 280 000 para 700 000 hectares até 2021. Se precisar de capital, deverá contar com a boa vontade do mercado. Suas ações valorizaram 60% desde a estreia na bolsa, enquanto o Ibovespa subiu 1%.
Estradinha
É verdade que a boa fase do agronegócio brasileiro tem sido impulsionada pelos altos preços das commodities agrícolas. Os valores da soja no mercado internacional mais do que dobraram em dez anos; os do milho triplicaram. Que não será assim para sempre é desnecessário dizer.
A expectativa de analistas é que haverá uma queda de preços em 2014. Faz parte do ciclo: os preços sobem, mais gente planta, o estoque cresce e os preços diminuem. Os agricultores brasileiros estão lidando com uma dificuldade adicional: a alta dos custos de produção.
De forma geral, salários, preço de fertilizantes e gastos com logística aumentaram, o que deverá reduzir as margens de lucro no ano que vem. Mesmo assim, previsões oficiais indicam que a safra de 2014 deverá ser a maior da história. Deverá se repetir, portanto, o velho problema de sempre: filas e mais filas de caminhões esperando para embarcar a carga em portos lotados.
Esse é o lado perverso do agronegócio — produzir mais pode dar origem a uma baita dor de cabeça. Não é surpresa que qualquer agricultor espume de ódio ao ser perguntado sobre como o Estado atrapalha seus negócios da porteira para fora.
“Faz 30 anos que estamos em Mato Grosso, multiplicamos a produção, e temos a mesma estradinha para transportar”, afirma Eraí Scheffer, que, para evitar os problemas que teve para escoar sua última safra, acaba de comprar 320 caminhões para levar seus grãos até os portos. Eis o toque surrealista do sucesso do agronegócio brasileiro: o rei da soja tem de ser o rei do caminhão também.
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