terça-feira, dezembro 17, 2013

Os novos excluídos da África do Sul

Fernando Eichenberg 
O Globo

Imigrantes de outros países do continente sofrem com xenofobia de sul-africanos e falta de oportunidades; Igreja Metodista em Johannesburgo vira abrigo para milhares de refugiados, a maioria do Zimbábue

Fernando Eichenberg
Igreja Metodista que abriga refugiados estrangeiros em Johannesburgo, África do Sul

JOHANESBURGO - Em sua sala no terceiro andar da Igreja Metodista Central, situada na rua Pritchard, no centro de Johannesburgo, o bispo Paul Verryn, de 61 anos, multiplica o tempo para cumprir uma repleta agenda diária. Além da celebração das missas, sua maior preocupação são os mais de mil africanos estrangeiros alojados precariamente no local. Em 2002, sensibilizado com os sem-teto que dormiam a céu aberto nos arredores, o bispo abriu as portas de sua igreja para acolher quem desejasse passar a noite. Desde então, calcula que já tenha abrigado mais de 30 mil pessoas, em sua grande maioria originários de outros países do continente. Com sua iniciativa, recebeu críticas de fiéis, virou desafeto do governo, foi suspenso e colocado na geladeira por seus superiores, só conseguindo retomar seu posto com o auxílio de advogados. Sua missão é ainda mais complicada pela xenobia presente na África do Sul.

— A xenofobia está no ar, se manifesta de forma esporádica, imprevisível e, na maioria das vezes, muito violenta — diz Verryn. — É uma nova forma de apartheid. Nunca vi nenhuma reação contra gregos, alemães, franceses ou americanos. A xenofobia é sempre contra negros. Alguns chamam de “afrofobia”.
O bispo diz ter uma “opinião particular” sobre a questão. Para ele, os estrangeiros são “um presente” para o país:

— Durante o apartheid, a África do Sul ficou muito isolada do resto do continente. Não entendemos realmente o resto da África e ainda agimos quase colonialmente.

Hoje, 80% de seus hóspedes são refugiados do Zimbábue, fugidos da violência política e da crise econômica do país comandado pelo ditador Robert Mugabe. Os restantes 20% vêm de países como Congo, Ruanda, Malaui, Burundi, Angola e Moçambique.

Com a morte de sua mulher, Rachid Santini, de 49 anos, deixou seus dois filhos de 13 e de 20 anos em Angola e partiu para a África do Sul em busca de melhores condições de vida. Conseguiu trabalhos durante três meses, mas depois ficou doente da perna, e hoje se recupera na igreja do bispo Verryn. Ele diz também sentir a xenofobia entre os sul-africanos em geral.

— Não é fácil ser estrangeiro aqui. Eles não nos aceitam 100% — diz Rachid.

Ao seu lado, o zimbabuano Stan Ley, de 30 anos, mostra as cicatrizes na cabeça e as marcas no braço esquerdo provocadas pela torturas de que diz ter sido vítima em seu país. Ele cruzou a fronteira da África do Sul em maio deste ano. Nas eleições de 2008, havia sido preso e torturado por três dias por policiais. Temendo mais violência às vésperas do novo pleito, decidiu partir.

Os muros da igreja resguardam as mais diferentes tragédias e histórias de vida. Ruth Manyika, de 55 anos, também do Zimbábue, chegou em dezembro de 2008, após sua casa ter sido queimada pelas milícias do governo. Em seu colo, uma criança de pouco mais de um ano se agarra carinhosamente em seu pescoço, deixando pensar que seria seu filho. Engano. Quando o bebê tinha dois meses, a mãe, uma desconhecida, solicitou a Ruth que cuidasse dele por uns 15 minutos porque tinha um compromisso. Mas a mãe nunca mais retornou.

Para tentar obter um mínimo de organização no local, o bispo estabeleceu regras, que ele mesmo reconhece dificilmente serem cumpridas. No prédio da igreja não se pode fumar “qualquer tipo de coisa”; beber álcool; brigar; roubar ou fazer sexo, exceto para os casais e em dormitórios reservados. Além disso, os “hóspedes” devem passar o dia na rua, para procurar trabalho, retornar para a igreja às 19h, e se envolver em algum dos programas de aprendizado administrados por voluntários.

Paul Verryn acredita no futuro da África do Sul, mas com muitos “se” e “mas” pendentes:

— Aqui, nós procuramos encorajar a integração. Há muito trabalho a ser feito em relação à democracia neste país. E também pela integridade política.