Bruno Villas Bôas
O Globo
Bancos preveem total de US$ 35 bi, pouco abaixo de 2013
RIO E SÃO PAULO - Apesar de as recentes captações da Petrobras e do BNDES terem aberto a temporada de emissão de títulos de renda fixa de companhias brasileiras no exterior - em operações que somaram R$ 14 bilhões - especialistas consultados pelo GLOBO avaliam que o ambiente mais favorável a operações no mercado de capitais pode durar pouco. A expectativa é que as emissões se concentrem no primeiro semestre e o próximo a buscar recursos no exterior seria o Banco do Brasil.
Bancos de investimentos responsáveis pelo lançamento destas operações estimam captações de cerca de US$ 35 bilhões de empresas, bancos e governos no ano, o que significa uma queda ou um resultado próximo da estabilidade em relação a 2013. Essas emissões somaram US$ 36 bilhões no ano passado, o pior resultado em cinco anos e queda de 25% frente ao ano anterior (US$ 50,5 bilhões).
Por trás da expectativa de um ano “morno” estão fatores que vão desde incertezas sobre a economia brasileira - com perspectiva de crescimento baixo, preocupações com a política fiscal e com o comportamento do câmbio - até o calendário apertado num ano de Copa e eleições presidenciais. Outro fator é a retirada de estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), o que tende a encarecer as operações pelo mundo.
Segundo Alexei Remizov, diretor-gerente de capitais externos do HSBC, empresas, bancos e governo devem captar, somados, US$ 35 bilhões. Ele explica que a perspectiva de baixo crescimento da economia já tem levado empresas a encolherem planos de investimento, o que reduz a necessidade de captação de recursos:
- A fila de empresas para captar não é grande. Além da redução de investimentos, empresas que não têm receita em dólar estão mais resistentes a captar, porque a operação de hedge (proteção) da dívida contra o câmbio é cara.
Pedro Bianchi, diretor de renda fixa do Bank of America Merrill Lynch, concorda que as empresas devem desacelerar as captações, após terem financiado seus planos de negócios em 2012. Ele avalia que os bancos, no entanto, podem buscar mais recursos no exterior.
- Uma coisa vai compensar um pouco a outra. Teremos um valor parecido com o de 2013 - disse Biachi, para quem um corte do rating brasileiro pode impactar o mercado. - Só que isso não está no nosso cenário.
Na avaliação de Viktor Andrade, diretor de transações corporativas da EY, a desaceleração da economia brasileira reduz a capacidade de as empresas tomarem novas dívidas.
- Pode haver redução nas captações externas de empresas brasileiras. Fazer a gestão de sua estrutura de capital de forma apropriada será um desafio para as companhias. Elas tendem a otimizar mais os recursos que já têm e não se comprometerem com novas dívidas.
Segundo Italo Lombardi, economista para América Latina da Standard Chartered Bank, a decisão do Fed de reduzir em US$ 10 bilhões a recompra de ativos, para US$ 75 bilhões mensais, deu maior previsibilidade ao mercado e destravou operações no início de ano.
- Mas o BC americano vai começar a elevar os juros do país em algum momento. Os títulos de dez anos do Tesouro americano, os treasuries, devem subir para algo como 3,5% ao ano. Vai ficar mais caro para as empresas captarem recursos no exterior e o mercado ficará cada vez mais seletivo - avaliou Lombardi.
Emissão em euro mais em conta
A opinião é compartilhada pelo economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. Segundo ele, as operações recentes são residuais, resultado do processo de ajuste dos recursos com a perspectiva de fim de estímulo nos EUA.
- As oportunidades ainda existem, mas são mais restritas. Não é exatamente um retorno: os fluxos de capitais estão saindo dos emergentes em direção aos países desenvolvidos - disse Agostini.
A despeito do cenário, o início do ano apresentou alguns sinais de reação. Fernando dos Santos Zorzo, sócio da área de mercado de capitais da Pinheiro Neto Advogados, afirmou que o escritório tem sido procurado para auxiliar em contratos de emissão de dívida no exterior.
- Parece haver uma janela de oportunidades. Temos recebido mais propostas para atuar nas captações de empresas lá fora - disse Zorzo.
O mercado europeu tem sido uma das preferências das companhias, segundo ele, por ainda estar com juros baixos, o que permite o pagamento de uma taxa de retorno menor para o investidor.
A emissão do BNDES foi de € 650 milhões (R$ 2 bilhões), com taxa de retorno de 3,783%. A Petrobras emitiu títulos em euro e libra no total de € 3,77 bilhões (R$ 12 bilhões).
No mercado de câmbio, o dólar subiu 0,21%, a R$ 2,356, influenciado pelo crescimento de 0,2% nas vendas no varejo dos EUA, acima das previsões de analistas. No mercado de ações, o Ibovespa, índice de referência dos investidores, fechou em alta de 0,56%, aos 49.703 pontos.