domingo, fevereiro 23, 2014

À beira do abismo

José Casado
O Globo



RIO - A mercadoria mais democratizada na Venezuela hoje é a escassez: faltam dólares, pão, papel - inclusive o higiênico - e, sobretudo, democracia.

Sobram balas, de chumbo ou borracha. Sobram também granadas de gás lacrimogênio.

Parte do estoque de bombas de gás foi comprado no Brasil pelo governo Hugo Chávez e está parcialmente vencido desde julho de 2010, mas a polícia venezuelana continua a usá-lo de forma intensiva.

O rótulo das bombas traz uma clara advertência do fabricante fluminense (Condor): "É perigosa sua utilização depois do prazo de validade". Trata-se de um composto químico encapsulado que, com o tempo, entra em decomposição e pode ser mortal, especialmente se entre seus compostos ativos estiver o cianeto de bromobenzila.

A Venezuela arde, com mortos e feridos em quantidade incerta. Avança em direção ao abismo sob o silêncio conivente de vizinhos com efetiva capacidade de influência - como o Brasil.

O governo partilhado entre o presidente Nicolás Maduro e o deputado Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, dá sinais de ter entrado em estado terminal.

Perdeu o controle das ruas e impôs a censura à televisão e às redes sociais. As tevês estatais exibem musicais e discursos de Maduro, evitando o relato dos protestos nas ruas. Redes sociais, como o Twitter, estão submetidas a bloqueio constante, para dificultar a exibição de imagens, confirmado pelas empresas provedoras.

Desde então, jornalistas de todo o país dedicam-se à construção de redes alternativas de informação. Estimulam a produção de imagens com áudio e difundem manuais de truques para driblar o bloqueio cibernético.

Produzem e recebem incontáveis relatos de prisões, torturas e registros em vídeo de ataques da polícia e das milícias - alguns flagram assassinos e suas vítimas. Confirmada a origem e o conteúdo, a mensagem vai para a internet.

As evidências de divisões na cúpula do chavismo se acumulam. Seguidas invasões da sede do partido oposicionista Vontade Popular, de centro-direita, com a prisão do seu líder, Leopoldo López, e a caçada ao demais dirigentes passaram a ser percebidas como reflexos da fraqueza governamental. Maduro e Cabello tentam, dessa forma, satisfazer as alas mais radicais do partido chavista (PSUV) dentro do governo.
Cabello fez questão de se mostrar no papel de carcereiro de López, conduzindo-o da polícia a um quartel e, depois, proclamando pelas redes sociais - com uma ponta de ironia - que o opositor já estava "em reclusão com seus direitos humanos".

Em seguida, ele deflagrou um movimento na Assembleia Nacional para cassar mandatos de oposicionistas "por toda a vida". O alvo inicial é a deputada María Corina Machado que, em 2011, confrontou diretamente Hugo Chávez sobre casos de corrupção no governo, parte deles envolvendo Cabello.

Há indícios de instabilidade nos quartéis venezuelanos. Nesta semana, Maduro fez em média dois discursos por dia com sucessivos e enfáticos apelos "à unidade" das Forças Armadas, cuja ala nacionalista resiste à prevalência dos "instrutores" do G-2, o serviço secreto de Havana (na terça-feira chegou um novo contingente cubano ao Forte Tiuna, a vila militar de Caracas). Cuba tem absoluto interesse na estabilidade do governo Maduro, que até agora mantém a ajuda econômica acertada por Chávez com os irmãos Castro: apenas em petróleo são US$ 2 bilhões por ano.

Múltiplos, também, são os sinais de corrosão nas bases do condomínio de poder chavista liderado por Maduro e Cabello. Refletem o clima captado em pesquisa de opinião pública conduzida na última quinzena pela OCR Consultores, de Caracas.

Os resultados nacionais, segundo Oswaldo Ramírez, presidente da consultoria, indicam um exuberante aumento na desaprovação ao governo.

A rejeição é recorde: 60%. Maduro agora tem apenas 23% de respaldo; outros 17% consideram sua administração "regular" - a pesquisa incluiu os redutos reconhecidamente chavistas.

O quadro é o oposto ao registrado onze meses atrás, quando o país já estava eleitoralmente dividido. Em abril, Maduro disputou a eleição presidencial e declarou-se vencedor por exígua margem de votos (1,5% sobre o adversário Henrique Caprilles, na questionada contabilidade do tribunal eleitoral). Assumiu o mandato com respaldo de 44% dos venezuelanos que consideravam boa a sua gestão - incluídos os redutos reconhecidos como oposicionistas. Um contingente de 35% considerava o governo "regular", conforme pesquisa da OCR Consultores na época.

São escassas as perspectivas de recuperação do governo Maduro-Cabello. Principalmente, porque o governo capitulou na economia. A inflação bateu nos 56% em 2013 e tende a subir para um novo patamar neste bimestre.

Asfixiado, sem reservas em dólares e sem caixa em bolívares, o governo realiza uma escalada na tributação. Na noite de quarta-feira (19) decretou um súbito aumento de 18,6%, deixando claro que não aceitará repasse aos preços. Isso garante a ampliação da escassez de produtos básicos nas próximas semanas.

Entre cortinas de fumaça, as reais saídas das barricadas sobre asfalto e as criadas pelo governo na retórica sobre um golpe de estado imaginário, os venezuelanos lutam para não perder o humor.

Na tarde de quinta-feira (20) uma jornalista da CNN noticiava os confrontos nas ruas de Caracas, e se equivocou ao citar o presidente da Assembleia Nacional, sempre relacionado às milícias, a uma ala radical militar e ao narcotráfico nos quartéis venezuelanos.

Em vez de "Diosdado Cabello", ela pronunciou "Diosdado Caballo". Em minutos, disseminou-se uma piada nas redes sociais: "Não sabemos que animal é esse, mas é por aí mesmo".