Janaína Figueiredo
O Globo
Grupos surgidos no início da era Chávez reprimem protestos com apoio do governo
Agência O Globo
Uma imagem de Nossa Senhora carregando uma arma
e o bebê Jesus: imagem do ‘coletivo’ La Piedrita
BUENOS AIRES — Depois de ter assegurado, domingo passado, que não aceitaria grupos violentos dentro do chavismo, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, mudou radicalmente de posição e assumiu a defesa dos “coletivos”, como são chamadas as tropas de choque motorizadas suspeitas de serem responsáveis por várias das mortes de manifestantes ocorridas no últimos dias. Em rede nacional de rádio e TV, Maduro disse rechaçar “a campanha de demonização dos coletivos venezuelanos” e deu duas diretrizes aos grupos paramilitares que atuam no país: “resistir” e “fortalecer-se”. As declarações provocaram forte preocupação num momento em que a Venezuela vive uma onda de violência que parece não ter fim.
— Vamos fortalecer os corpos combatentes, a milícia trabalhadora. Devemos nos preparar para defender esta pátria — disse o presidente, que domingo afirmara que “quem quiser ter armas para combater com armas que saia do chavismo”.
Para jornalistas e analistas ouvidos pelo GLOBO, os “coletivos” que nasceram no início da era Chávez estão mais fortes do que nunca. E formam, com as Forças Armadas Bolivarianas e as Milícias Bolivarianas, uma poderosa rede de contenção a serviço do governo. Nas últimas semanas, a ação dos grupos motorizados armados foi evidente, não apenas em Caracas, mas também em cidades como Valencia, onde a miss Génesis Carmona foi morta.
Salário oficial e plano de saúde
Imagens divulgadas em redes sociais e alguns meios de comunicação evidenciam a participação desses “coletivos” armados na repressão a manifestações. São soldados ligados ao chavismo que andam livremente pelas ruas, sem uniforme e armados até os dentes, segundo a jornalista Argelia Rios, articulista do “El Universal”.
— Não gosto de chamá-los de coletivos porque os coletivos eram outra coisa, tinham uma função cultural. Para mim, estas gangues são o componente malandro das Forças Armadas — comentou.
Outro analista local, que pediu para não ser identificado, disse ter confirmado que muitos desses agentes informais são pagos pelo Ministério da Defesa e têm até plano de saúde.
— Eles fazem o trabalho sujo que os militares não podem fazer — afirmou.
O quartel desses “coletivos” são as favelas venezuelanas. Alguns são conhecidos, como os Tupamaros e o grupo A Pedrinha. Mas a maioria é de clandestinos.
— No bairro 23 de Janeiro chegaram a entregar 21 mil fuzis num dia. Eles têm um imenso poder de fogo — enfatizou Argelia.
Para ela, Chávez deu-lhes status político, e hoje estão descontrolados. Na visão de Luis Alberto Buttó, professor da Universidade Simón Bolívar, é evidente que as gangues atuantes na repressão estão ligadas ao governo chavista.
— Não sabemos quem dá a ordem de reprimir. O que podemos dizer é que eles atuam para defender o processo revolucionário — apontou Buttó.
Não se sabe quantas pessoas integram esses “coletivos”, nem quantos grupos existem no país. No caso da milícia, uma organização oficial e que depende diretamente das Forças Armadas, criada em 2005 por decreto presidencial, estima-se que englobe mais de 120 mil soldados.
— A milícia é um corpo organizado, disciplinado. Esses coletivos são anárquicos, atuam fora da lei — explicou Buttó.
Ele, como muitos venezuelanos, diz que tem tido dificuldades para dormir devido ao ruído dos tiros que se escuta por toda a cidade de Caracas.
