Talita Fernandes
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O forte intervencionismo do estado na economia faz com que a população enfrente dificuldades para viajar ao exterior, comprar produtos estrangeiros on-line e comprar dólares; presidente chega a telefonar para consumidores 'reclamões'
(Reprodução)
Capa da edição de 15 de fevereiro da revista Economist:
'A parábola argentina - o que países podem aprender de um século de declínio'
A situação econômica da Argentina chama atenção por suas características peculiares há algum tempo. O país já passou por diversas moratórias e vive atualmente numa situação de descontrole e instabilidade há muito superada para países próximos, como o Brasil. A inflação ainda é uma das principais dores de cabeça da presidente Cristina Kirchner, que adotou programas de controle de preços para tentar, em vão, segurar a valorização contínua de produtos e serviços. Além disso, o mercado olha com desconfiança as estatísticas do governo: enquanto a inflação oficial de 2013 é de 10,9%, analistas acreditam que os preços subiram a um ritmo de 30% no ano passado.
Os fatores ligados ao câmbio também assustam. Um cidadão argentino precisa pedir autorização ao governo para comprar pacotes de viagens no exterior e moeda estrangeira. Há ainda limitações de compras em sites estrangeiros, sob a penalização de um imposto de 50% sob o valor do produto, quando o limite é ultrapassado. Se os brasileiros reclamam dos preços elevados de eletrônicos no Brasil, comprar um iPhone na Argentina chega a ser duas vezes mais caro que no país, no mínimo.
Tal cenário ganhou destaque extra recentemente: uma forte desvalorização do peso argentino frente ao dólar chamou a atenção dos mercados internacionais e criou uma onda de "pânico" em relação aos emergentes depois que a moeda argentina se desvalorizou 11% em apenas um dia, no mês passado.
A situação econômica dos "hermanos" virou, inclusive, tema da edição desta semana da revista britânica The Economist, cuja capa traz o título A parábola argentina: o que países podem aprender de um século de declínio. Confira a lista de algumas das 'bizarrices' que só acontecem na economia argentina.
As bizarrices da economia argentina
O governo de Cristina Kirchner, entre outras coisas, é conhecido pelas características peculiares da economia. A Argentina vive até os dias de hoje algumas das realidades enfrentadas por países latino-americanos nas décadas de 1980 e 1990, como controle de preços e inflação alta. As medidas adotadas pelo governo - como restrições cambiai - provocam ainda mais distorções. Conheça seis bizarrices típicas da economia argentina:
• O iPhone é mais caro do que no Brasil
Se comprar um iPhone no Brasil já pesa (demais) no bolso do consumidor, o modelo produzido pela Apple custa mais de o dobro no país vizinho. Enquanto no Brasil um iPhone 5 custa em torno de 14 000 pesos argentinos - o que equivale a cerca de 4 000 reais - o mesmo aparelho, em território brasileiro, é vendido por cerca de 1 600 reais. Além disso, na Argentina não são encontrados os modelos mais recentes do iPhone: o 5S e o 5C. Para se ter uma ideia, na loja on-line dos Estados Unidos, o iPhone 5 já não é oferecido a consumidores. Seu modelo mais avançado, o 5S, custa 299 dólares (cerca de 720 reais).
• As compras em sites do exterior são restritas
Depois de restringir a compra de dólares e de pacotes de viagem internacionais em 2012, o governo de Cristina Kirchner anunciou, em janeiro de 2014, uma limitação para as compras em sites estrangeiros. Cada indivíduo poderá gastar até 25 dólares por ano apenas para ficar livre de imposto. Acima desse valor, as compras são taxadas em 50% sobre o valor do produto. Além disso, as mercadorias compradas em sites internacionais precisam ser retiradas na alfândega. Essa é uma medida para tentar evitar uma queda ainda maior das reservas internacionais do país, que despencaram 30% em 2013 e atualmente somam 30 bilhões de dólares, patamar mais baixo desde 2006.
• Lojistas preferem dólar ou real ao peso
As restrições do governo para a compra de dólares fez com que a moeda norte-americana, assim como outras moedas estrangeiras, se tornasse objeto de luxo no país. Com isso, turistas estrangeiros não encontram dificuldade em pagar contas e produtos usando moeda estrangeira como real e dólar, por exemplo. Na verdade, muitos dos comerciantes até preferem receber em moeda estrangeira.
• A presidente liga para consumidores vigilantes
Alguns consumidores argentinos foram surpreendidos com ligações da presidente Cristina Kirchner recentemente. A presidente usou o telefone para agradecer aqueles que ajudam a zelar pelo programa 'Precios Cuidados', lançado pelo governo federal para controlar o valor de mercadorias. A Argentina enfrenta uma situação de inflação elevadíssima, cujos números oficiais são manipulados pelo governo. Enquanto as estatísticas oficiais apontam para uma inflação anual de 10%, analistas calculam que o indicador seja cerca de 30%.
• Dólares do mercado negro foram 'legalizados'
Em maio de 2013, o governo de Cristina Kirchner aprovou uma medida para 'legalização' dos dólares que entraram no país pelo mercado negro, ou seja, sem registro legal. A medida foi aprovada pelo Senado do país e alvo de fortes críticas da oposição. Enquanto o governo usou a justificativa que de a medida ajudaria na recuperação de divisas fora do sistema para investi-las nos setores energético e imobiliário, opositores dizem que o projeto é "imoral" e que o objetivo é proteger "amigos do poder", como o empresário kirchnerista Lázaro Báez, acusado de lavagem de dinheiro no maior escândalo de corrupção da era Kirchner.
• População precisa de autorização do governo para viajar
Desde que a presidente Cristina Kirchner foi reeleita, em outubro de 2011, o país passou a adotar restrições à compra de moeda estrangeira. Em maio de 2012, além da limitação ao acesso direto à moeda, o governo ampliou as restrições cambiais às viagens ao exterior. Desde então, todos que quiserem ir para o exterior têm de preencher um formulário online no site da Administração Federal de Receitas Públicas (AFIP) sempre que precisarem de dólares para viajar a outro país ou que adquirirem pacotes de turismo em agências. É preciso especificar país de destino, datas e escalas, além de informar o motivo da viagem (saúde, congressos, negócios, turismo). É necessário detalhar em que moeda foram efetuados os pagamentos e em quantas parcelas ele foi efetuado. O curioso é que a filha de Cristina, Florencia Kirchner, dá 'belas' escapadas à Europa sempre que pode. Resta saber se ela também enfrenta problemas para comprar pacotes de viagem e moeda estrangeira.
• Aplicativo para controle de preços
Enquanto aplicativos de jogos e redes sociais são os principais sucessos em smartphones do mundo todo, na Argentina, a nova sensação são dispositivos para ajudar no controle de preços, como o app Precios OK. Com aplicativos como esses, os consumidores conseguem registrar o código de barras dos produtos para saber se estão ou não incluídos no programa 'Precios Cuidados' e podem comprovar se os valores cobrados estão dentro dos patamares estabelecidos pelo governo. É possível, inclusive, fazer uma denúncia sobre abusos de preços.
