Comentando a Notícia
Não tem jeito: por mais que a gente fique esfregando a realidade da economia do país nos olhos de Guido Mantega, mais o ministro tende a se mostrar avesso à ela. Nesta quinta-feira, ao anunciar ao mundo o corte de R$ 44,0 bilhões no orçamento da União e informar à plateia a meta de superávit, Mantega escorregou na maionese para repetir, pela enésima vez, que nossos problemas e dificuldades são decorrentes dos países ricos – estes eternos mal humorados para com emergentes e subdesenvolvidos -, falando ainda de crise lá fora como a desaceleração da China, das tempestades solares, dos anéis de saturno, etc.
Nelson Barbosa, saído do governo Dilma no ano passado, em entrevista a Miriam Leitão, na GloboNews, também se saiu com mesmo este discurso, acrescentando, entretanto, que temos autonomia para resolver muitos dos problemas que nos atingem, mas que há um preço a pagar. Qual seria o preço? O preço político.
É claro que assumir a iniciativa de tocar prá frente as reformas estruturantes que os petistas se negam em assumir, teria um custo político que o partido se nega pagar. Por exemplo: reforma da previdência. Dado tamanho do rombo atual e considerando a maior expectativa de vida dos brasileiros, a exemplo do que já fizeram muitos países europeus, precisaremos, cedo ou tarde, enfrentar a necessidade de se alongar a idade mínima para aposentadoria. Trata-se de uma imposição que não poderemos fugir por muito tempo, sob pena e risco de tornarmos a previdência, nas condições atuais, totalmente inviável. Porém, quem assumirá a reação da sociedade, dos sindicatos e centrais sindicais, dos ditos movimentos sociais, ONGs, partidos de esquerda e toda a fauna de entidades que nem querem ouvir falar do assunto? Esta turma toda esquece que dinheiro não dá em árvore!
E a reforma tributária? Quantos projetos já foram enviados ao Congresso e acabam engavetados por absoluta falta de entendimento - e interesse - entre deputados e senadores? E, no entanto, produtos manufaturados e semi faturados brasileiros são cada mais raros na nossa pauta de exportações.
A maior parte de nossas dificuldades encontram suas causas aqui dentro mesmo, e tentar culpar terceiros tem sido a regra para fugir-se de temas impopulares. Esta transferência de responsabilidades é marca indelével dos governos petistas. E se valem deste cretinismo hediondo justamente para deixar de fazer aquilo que é mais valioso para o país: reformas profundas.
Na oposição, os petistas moveram céus e terra contra o Plano Real e todas as medidas dele resultantes. E, no entanto, já no poder, tornaram-se herdeiros dos benefícios a tal ponto que se patronos da estabilidade econômica. Ou seja, nas virtudes, querem apropriar-se da obra contra a qual foram ferrenhos opositores e sair placidamente cumprimentando com o chapéu alheio.
Uma questão que o governo deveria mirar com atenção redobrada são os gastos excessivos. Desde que assumiram em 2003, os gastos correntes têm crescido continuamente em montantes superiores ao crescimento real da arrecadação e ao crescimento do PIB. Assim, para fazer frente à torração de dinheiro público, ou aumentam-se os impostos – e isto tem sido feito mesmo que de maneira gradual -, ou se aumenta a dívida pública – e isto tem acontecido de maneira acelerada. E este aumento de gastos nada tem a ver com crises externas ou com a desaceleração da economia chinesa. Tem a ver com a falta de controle, com o desatino do espírito de ostentação que habita as mentes e as almas de quem está no poder. Os Estados Unidos tem território e população bem maiores do que as brasileiras, sua economia é cinco vezes maior do que a nossa e, no entanto, Obama governa a Casa Branca com apenas 15 ministérios, enquanto os petistas já chegaram ao absurdo ministério de 40 pastas. Isto exige uma estrutura cara e dispendiosa, e a maioria dos ministérios serve apenas de cabide de emprego para os gananciosos políticos de uma base de apoio inchada e balofa ao extremo.
Ponham neste balaio cerca de 23 mil cargos de favor, uma penca de estatais inúteis e temos aí uma fábula de desperdício que consome recursos que escasseiam em áreas mais prioritárias e com benefício direto para a população.
Guido Mantega, até um certo tempo, conseguiu engambelar a plateia com este discurso vazio e disparatado, completamente distante da realidade. Na medida em que as pessoas foram se dando conta do papo furado do ministro, o próprio governo foi perdendo credibilidade. A desconfiança, é bom que se registre, não se dá por questões políticas, ou porque as pessoas estão de má vontade com quem está no poder. Esta falta de credibilidade é resultado de um discurso que não se casa com a realidade, e também fruto dos resultados ruins que a economia brasileira vem colhendo. Associem a isto tudo, promessas que não se cumprem, previsões furadas ano após ano, malabarismos e mandracarias de todo o gênero para enfeitar com perfumaria barata a má gestão das contas públicas, e temos um quadro a justificar o pessimismo em relação as autoridades que teimam em não assumir seus próprios erros e desacertos.
Tanto é assim que, parece à primeira vista, o governo Dilma não esperou muito tempo para rever suas metas, tanto em relação ao crescimento do PIB, quanto ao possível de se alcançar em relação ao superávit primário. O corte de R$ 44,00 bilhões sinalizam a preocupação de dar um aviso ao mercado de que o governo está comprometido, em 2014, em cumprir as metas fiscais necessárias à boa gestão das contas públicas, procurando não perder de vista o indispensável equilíbrio fiscal.
Claro que todos sabemos o quanto de esqueletos mal cheirosos estarão sendo empurrados para 2015. A rubrica subsídios e subvenções, apesar do corte, tende a crescer num ano eleitoral. O que todos hoje se perguntam é se terá o governo Dilma disciplina necessária para atingir as metas propostas. E que fique claro: diante dos sinais de recuperação das principais economias do planeta, o não cumprimento daquelas metas terá que, necessariamente, encontrar outros culpados como alvo.
Preocupa é que a deterioração das contas públicas segue em ritmo acelerado. O déficit recorde de 11,591 bilhões de dólares nas transações correntes de janeiro - acumulando um total nos doze últimos meses superior a R$ 80 bilhões -, influenciado, sobretudo, pelo fraco desempenho da balança comercial e pelas remessas de lucros e dividendos das empresas é assustador. Durante o período que se seguiu à crise internacional de 2009, bilhões de dólares sobrevoaram o planeta em busca de oportunidades de investimento. O Brasil, contudo, continuou avesso em se aproveitar deste imenso capital em favor de seu desenvolvimento. Na medida em que o FED americano, agora, começa a retirar, gradualmente, estes bilhões de dólares, o único atrativo que restou ao Brasil são seus juros altos. Mas estes não vem para investimentos produtivos, e sim em busca de lucro fácil. Entra hoje, sai amanhã. É o chamado capital motel. Só que ele é necessário para cobrir os rombos provocados pela falta de responsabilidade fiscal.
Enquanto isto, outros países, com muito menos riquezas e oportunidades, aproveitaram para fazer as reformas necessárias para aproveitar a liquidez internacional e atrair investimentos produtivos. É o caso da Aliança do Pacífico da qual participam Chile, Peru, Colômbia e México. Alguém ouve ou lê de parte das autoridades econômicas destes países alguma crítica aos países ricos?
E o que se dizer da enorme indisposição do governo Dilma para acelerar acordos de comércio bilateral. Continuamos insistindo em nos prendermos a um Mercosul de países falidos e em crise institucional. O Mercosul, que era para ser uma aliança comercial, pouco a pouco foi se prostituindo e se convertendo num clubinho de politiqueiros sul americanos mal arranjados, todos devotos da cartilha dos irmãos Castro. Perdeu seu sentido, perdeu sua essência e hoje mais nos atrapalha e prejudica do que nos traz algum benefício.
Como se vê neste pequeno retrospecto, nossas dificuldades atuais nada tem a ver com causas externas. São frutos de nossos erros e más escolhas, nosso preconceito ideológico ao capital privado, nossa teimosia em nos manter aliados a economias irrelevantes. Durante muito tempo criticamos aqui o despropósito do Brasil jogar bilhões de dólares em investimentos externos, quando por aqui faltavam-nos recursos em áreas essenciais como a infraestrutura, educação, segurança, transporte público, saneamento básico .
É por tudo isso e outras tantas razões que aqui deixamos de abordar, que nosso crescimento continua pífio, com inflação alta, déficits crescentes, juros nas alturas e dívida pública em níveis preocupantes.
Como o discurso do governo teima em bater em teclas surradas, as perspectivas do Brasil em relação a, num futuro imediato, tomar um novo rumo são ruins. E como a perspectiva do bastão trocar de mãos também são mínimas, o país deve se preparar para viver os dois primeiros anos do próximo governo, independente de quem seja eleito, com muitas tempestades. Deixamos o tempo passar sem aproveitar as oportunidades que nos foram oferecidas. Resta-nos agora colher os maus frutos e, isto, já vem acontecendo.
Pesquisas e mais pesquisas, e o que realmente importa
Duas pesquisas saídas do forno. Uma, dá a vitória a Dilma no primeiro turno. Nem poderia ser diferente. Dilma é assunto de manhã, de tarde e à noite em todas as redes de televisão, rádio, internet. Claro, ela já seria notícia pelo simples fato de ser presidente do país. Imaginem quando além de presidente, a candidata à reeleição continuando misturando a ação de governar com o palanque eleitoral. Fora da período legal de campanha, Dilma ter o peso que tem, parece-me muito natural. Daí porque ser preocupante que nesta pesquisa se tenha apontado 24% de indecisos. Ora, difícil imaginar, diante de tanta exposição, que a senhora Rousseff não seja conhecida pelo povo brasileiro. Como o segundo colocado, Aécio tem 17%, aquele bloco de indecisos pode definir a parada em favor ou não de Dilma, podendo levar a eleição presidencial para um segundo turno, totalmente indesejável pelos petistas.
Já a outra pesquisa, sobre a aprovação do governo Dilma, e por ora é o que interessa, aponta leve queda, de 43% para 39%. Também, aqui, um resultado normal, já que se situa dentro da margem de erro, ainda que perigosamente.
Infelizmente, o IBOPE não fez, e se fez não divulgou, a avaliação por item de atuação do governo, isto é, qual o conceito de aprovação/desaprovação para educação, saúde, transporte, segurança, saneamento, carga de impostos, inflação, etc. O índice divulgado é amplo demais, genérico demais para se ter uma ideia sobre os efeitos causados pela ação de governar de Dilma sobre a população. Que a avaliação geral seja divulgada, tudo bem, mas melhor seria para os analistas políticos se as avaliações abrangessem campos específicos da ação de governar da presidente. E, neste caso, teríamos muitas surpresas. Porque, rigorosamente, em itens específicos, o conceito geral sequer é superior ao regular.
Amarrando bandidos em postes
Piadinha na internet:

