quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Maduro muda chefe de Inteligência após mortes em marcha

Janaína Figueiredo
O Globo

Agentes ignoraram ordem de presidente venezuelano e atuaram em protestos, revelou vídeo

AFP-18-2-2014 
Nicolás Maduro, discursa na terça-feira em Caracas 

BUENOS AIRES - Nos últimos dias, analistas e representantes de ONGs de defesa dos direitos humanos na Venezuela se fazem uma mesma pergunta: até que ponto o presidente Nicolás Maduro controla as forças de segurança (incluídos os chamados coletivos chavistas, as tropas de choque informais que operam em várias regiões do país), principalmente o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), acusado de ter participado da violenta repressão à marcha opositora do dia 12 e de ser responsável pela morte de duas pessoas.

Na terça-feira, dois dias depois de ter admitido que agentes do Sebin atuaram nos protestos da última quarta-feira, desrespeitando ordens superiores, o Palácio Miraflores destituiu o general de brigada Manuel Gregorio Bernal Martínez, que estava à frente do serviço de Inteligência, e nomeou como sucessor Gustavo Enrique González López, que era diretor-geral do Centro Estratégico de Segurança e Proteção da Pátria (Cesspa) e até julho de 2013 foi comandante geral da Milícia Bolivariana.

As suspeitas sobre o Sebin, que deve cumprir ordens do Ministério de Relações Interiores e do próprio presidente da República, aumentaram após a divulgação de um vídeo realizado pelo jornal “Últimas Notícias”, que apesar de nunca ter escondido sua simpatia pelo chavismo, fez uma grave denúncia contra o governo de Maduro. As imagens obtidas pelo jornal venezuelano confirmam a presença de agentes do Sebin, que atuaram com membros da Guarda Nacional e dispararam contra opositores. Na visão de Rocío San Miguel, diretora da ONG Controle Cidadão, “o Sebin deve responder às diretrizes do presidente, e o presidente é responsável pela ação de seus agentes”.

— É inadmissível ver agentes do Sebin atuando nas ruas com armas de guerra, algo proibido por nossas leis — assegurou Rocío.

Ela questionou, ainda, “a total impunidade que reina na Venezuela”.

— Maduro reconheceu o erro do Sebin, mudou o diretor, mas os culpados pela repressão da semana passada continuam livres, com exceção de um deles, que não sabemos de que está sendo acusado nem se permanecerá detido. O Estado protege assassinos — afirmou a diretora da ONG.

As imagens recolhidas pelo “Últimas Notícias” mostram como agentes do Sebin dispararam contra os manifestantes no mesmo lugar onde morreram duas das três vítimas dos protestos, o opositor Eran Bassil Dacosta e o chavista Juan Montoya. Segundo Rocío, além de agentes do Sebin, também entraram em ação “grupos paramilitares, parapoliciais e coletivos chavistas”.

— São mercenários, que atuam em função dos interesses do governo, mas claramente estão excedendo limites de uma maneira muito perigosa — alertou a diretora da ONG Controle Cidadão.

Para a socióloga Margarita López Maya, a conduta do Sebin revela que as forças de segurança chavistas estão fora de controle:

— Os grupos mais radicalizados parecem estar ampliando seu poder dentro da revolução.