quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Presidente do Ibope: ‘a oposição não se apropriou do sentimento de mudança’

Josias de Souza


A presidente do Ibope, Marcia Cavallari, resumiu numa entrevista o drama de Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) nas eleições de presidenciais de 2014. Diferentemente do que ocorreu em 2010, quando a disputa presidencial foi marcada pelo desejo de continuidade, o sentimento que predomina agora na sociedade brasileira é o da mudança.

Porém, afirmou Cavallari, “as pessoas não estão vendo na oposição quem possa representar essa mudança. Nas pesquisas que a gente fez, não vemos que eles se apropriaram desse sentimento. A Dilma [Rousseff] ainda leva uma vantagem.” A presidente do Ibope falou à repórter Carla Jiménez. A íntegra da entrevista pode ser lida aqui. Vão abaixo as principais observações:

Sentimento de mudança: Sim, há um desejo de mudança. O problema é que, por enquanto, as pessoas não estão vendo na oposição quem possa representar essa mudança. Nas pesquisas que a gente fez, não vemos que eles se apropriaram desse sentimento. A Dilma ainda leva uma vantagem.

Mudança X reeleição: Tem uma parte [do eleitorado] que fala em mudança, mas quer que a Dilma continue lá. ‘Eu quero que ela mude, eu não quero que ela continue desse jeito que está.’

Taxa de conhecimento X calendário eleitoral: Tanto o Aécio Neves, quanto o Eduardo Campos ainda não são totalmente conhecidos da população. Esse ano também tem um calendário eleitoral bastante complicado. Todo ano de eleição presidencial coincide com a Copa do Mundo. Mas como está sendo realizada aqui, o clima do país muda.

Vão chegar as delegações, vai estar aquela convivência com outras pessoas e tal, então as pessoas vão estar focando nas questões eleitorais somente depois que acabar a Copa, a partir de 13 de julho. A campanha, então, acontecerá entre o final de julho, agosto e setembro. Vai ser uma campanha muito curta, o que dificulta as ações.

Agora, é o início do horário eleitoral gratuito na televisão [no dia 19 de agosto] o momento no qual todos os candidatos passam a ser conhecidos de uma forma mais homogênea pela população. Hoje, os candidatos mais conhecidos levam vantagem nas pesquisas de intenção de voto.

As manifestações jogam contra quem? Contra todos os políticos. A Dilma, por exemplo, assim como todos ocupantes de cargos executivos, governadores e prefeitos, caíram no fundo do poço. Depois foram se recuperando. A Dilma não voltou ao patamar de antes, mas alguns governadores voltaram. Uns se recuperaram mais, outros menos, outros vão ter mais dificuldade de conseguir se recuperar. O [Eduardo] Campos foi um dos poucos, assim como o Beto Richa [governador do Paraná, do PSDB]. Uns caíram e voltaram, outros não voltaram ao patamar anterior, e outros estão se recuperando mais devagarinho.

Por isso que eu falo que é contra todos. As obras da Copa também não são uma responsabilidade só do governo federal. Não é o governo federal que está construindo os estádios, por exemplo, são os governos estaduais. E a mobilidade urbana. É dinheiro do governo federal, mas também tem as prefeituras que estão à frente. É assim, se as coisas não funcionarem, o Brasil passar vergonha porque não conseguiu fazer uma Copa direito, e se houver atos de violência, ou de segurança pública com turista…

Efeito black bloc: […] A grande maioria das pessoas, as que querem se manifestar em causas legítimas, no ponto de vista delas, se inibiu. Duvido que a gente consiga ter manifestações com aquele tanto de gente que juntou nas de junho porque agora todo mundo já pensa: os vândalos, os quebra-quebras estão no meio. Não tem mais tanto apoio popular quanto antes. […] As pessoas estão se perguntando também: do que adiantou as manifestações de junho? O que se conseguiu depois delas? O que mudou?

Por si só isso perde força porque desviou o caminho legítimo da manifestação que era a busca de saúde de qualidade, educação de qualidade, transporte de qualidade. Se quebra a lojinha do seu Zé, que é um igual a ele que está lá se manifestando, ele fala ‘pô, eu estou sofrendo para conseguir o que eu tenho, o outro vai lá…’ então não quer fazer parte disso.

Corrupção: Aumenta a conscientização. Eu não sei se chega a mudar alguma coisa. Todas as pesquisas que a gente fez sobre corrupção, a gente conclui que o brasileiro é cúmplice da corrupção, não é vítima da corrupção. Porque se ele também puder, ele também vai cometer atos de corrupção. […] Dar caixinha para o guarda para não ser multado… Isso é uma coisa de valor… Pode ter mais cobranças, mais consciência. […] Ou seja, começam a conversar mais. Mas não sei se isso, sozinho é capaz de mudar essa condição de cúmplice para vítima. Não é algo imediato.

Saúde no topo das preocupações: […] É curioso porque quando você faz as pesquisas com quem usa o serviço publico de saúde, a avaliação do serviço recebido é positiva. O grande problema é a demanda. É eu conseguir marcar a consulta, eu conseguir fazer a cirurgia, eu conseguir fazer o exame. A média de espera para ser atendido é muito grande. Três meses, no caso de uma consulta. Um procedimento um pouco mais complicado vai para seis meses. Essa foi uma pesquisa para São Paulo.

Insatisfação é maior nas capitais: Temos visto uma diferença grande, desse clima todo que a gente está falando dos grandes centros, para o interior. No interior do país está muito mais positivo do que os grandes centros das capitais. Nas avaliações que fazem da satisfação… o nível de satisfação é maior com a vida, a avaliação de Governo Dilma é mais alto [no interior]… Como grandes centros, considerando as nove regiões metropolitanas do Brasil, as maiores, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Brasília, esses representam um terço do país. E o interior, que é praticamente dois terços, está mais satisfeito, faz uma avaliação mais positiva dos governos. É nos grandes centros que está o problema maior. É onde estão localizados os protestos, as manifestações.

Incertezas econômicas: Os sinais não são tão positivos. E a economia sempre vai ser o drive principal de uma eleição presidencial. Ela nunca pode ser descuidada. Se as coisas vão bem, em teoria, o governante em questão, incluindo os candidatos a governo dos Estados, está saindo com vantagem. […] Tem muitas variáveis fora do controle absoluto. Tem muita incerteza na economia, sobre a infraestrutura da construção da Copa, se as manifestações vão se dar ou não… O brasileiro não quer é passar vergonha. De ter manifestação, de ter violência, de acontecer acidentes nos estádios por obras mal feitas.