Josias de Souza
A presidente do Ibope, Marcia Cavallari, resumiu numa entrevista o drama de Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) nas eleições de presidenciais de 2014. Diferentemente do que ocorreu em 2010, quando a disputa presidencial foi marcada pelo desejo de continuidade, o sentimento que predomina agora na sociedade brasileira é o da mudança.
Porém, afirmou Cavallari, “as pessoas não estão vendo na oposição quem possa representar essa mudança. Nas pesquisas que a gente fez, não vemos que eles se apropriaram desse sentimento. A Dilma [Rousseff] ainda leva uma vantagem.” A presidente do Ibope falou à repórter Carla Jiménez. A íntegra da entrevista pode ser lida aqui. Vão abaixo as principais observações:
— Sentimento de mudança: Sim, há um desejo de mudança. O problema é que, por enquanto, as pessoas não estão vendo na oposição quem possa representar essa mudança. Nas pesquisas que a gente fez, não vemos que eles se apropriaram desse sentimento. A Dilma ainda leva uma vantagem.
— Mudança X reeleição: Tem uma parte [do eleitorado] que fala em mudança, mas quer que a Dilma continue lá. ‘Eu quero que ela mude, eu não quero que ela continue desse jeito que está.’
— Taxa de conhecimento X calendário eleitoral: Tanto o Aécio Neves, quanto o Eduardo Campos ainda não são totalmente conhecidos da população. Esse ano também tem um calendário eleitoral bastante complicado. Todo ano de eleição presidencial coincide com a Copa do Mundo. Mas como está sendo realizada aqui, o clima do país muda.
Vão chegar as delegações, vai estar aquela convivência com outras pessoas e tal, então as pessoas vão estar focando nas questões eleitorais somente depois que acabar a Copa, a partir de 13 de julho. A campanha, então, acontecerá entre o final de julho, agosto e setembro. Vai ser uma campanha muito curta, o que dificulta as ações.
Agora, é o início do horário eleitoral gratuito na televisão [no dia 19 de agosto] o momento no qual todos os candidatos passam a ser conhecidos de uma forma mais homogênea pela população. Hoje, os candidatos mais conhecidos levam vantagem nas pesquisas de intenção de voto.
— As manifestações jogam contra quem? Contra todos os políticos. A Dilma, por exemplo, assim como todos ocupantes de cargos executivos, governadores e prefeitos, caíram no fundo do poço. Depois foram se recuperando. A Dilma não voltou ao patamar de antes, mas alguns governadores voltaram. Uns se recuperaram mais, outros menos, outros vão ter mais dificuldade de conseguir se recuperar. O [Eduardo] Campos foi um dos poucos, assim como o Beto Richa [governador do Paraná, do PSDB]. Uns caíram e voltaram, outros não voltaram ao patamar anterior, e outros estão se recuperando mais devagarinho.
Por isso que eu falo que é contra todos. As obras da Copa também não são uma responsabilidade só do governo federal. Não é o governo federal que está construindo os estádios, por exemplo, são os governos estaduais. E a mobilidade urbana. É dinheiro do governo federal, mas também tem as prefeituras que estão à frente. É assim, se as coisas não funcionarem, o Brasil passar vergonha porque não conseguiu fazer uma Copa direito, e se houver atos de violência, ou de segurança pública com turista…
— Efeito black bloc: […] A grande maioria das pessoas, as que querem se manifestar em causas legítimas, no ponto de vista delas, se inibiu. Duvido que a gente consiga ter manifestações com aquele tanto de gente que juntou nas de junho porque agora todo mundo já pensa: os vândalos, os quebra-quebras estão no meio. Não tem mais tanto apoio popular quanto antes. […] As pessoas estão se perguntando também: do que adiantou as manifestações de junho? O que se conseguiu depois delas? O que mudou?
Por si só isso perde força porque desviou o caminho legítimo da manifestação que era a busca de saúde de qualidade, educação de qualidade, transporte de qualidade. Se quebra a lojinha do seu Zé, que é um igual a ele que está lá se manifestando, ele fala ‘pô, eu estou sofrendo para conseguir o que eu tenho, o outro vai lá…’ então não quer fazer parte disso.
— Corrupção: Aumenta a conscientização. Eu não sei se chega a mudar alguma coisa. Todas as pesquisas que a gente fez sobre corrupção, a gente conclui que o brasileiro é cúmplice da corrupção, não é vítima da corrupção. Porque se ele também puder, ele também vai cometer atos de corrupção. […] Dar caixinha para o guarda para não ser multado… Isso é uma coisa de valor… Pode ter mais cobranças, mais consciência. […] Ou seja, começam a conversar mais. Mas não sei se isso, sozinho é capaz de mudar essa condição de cúmplice para vítima. Não é algo imediato.
— Saúde no topo das preocupações: […] É curioso porque quando você faz as pesquisas com quem usa o serviço publico de saúde, a avaliação do serviço recebido é positiva. O grande problema é a demanda. É eu conseguir marcar a consulta, eu conseguir fazer a cirurgia, eu conseguir fazer o exame. A média de espera para ser atendido é muito grande. Três meses, no caso de uma consulta. Um procedimento um pouco mais complicado vai para seis meses. Essa foi uma pesquisa para São Paulo.
— Insatisfação é maior nas capitais: Temos visto uma diferença grande, desse clima todo que a gente está falando dos grandes centros, para o interior. No interior do país está muito mais positivo do que os grandes centros das capitais. Nas avaliações que fazem da satisfação… o nível de satisfação é maior com a vida, a avaliação de Governo Dilma é mais alto [no interior]… Como grandes centros, considerando as nove regiões metropolitanas do Brasil, as maiores, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Brasília, esses representam um terço do país. E o interior, que é praticamente dois terços, está mais satisfeito, faz uma avaliação mais positiva dos governos. É nos grandes centros que está o problema maior. É onde estão localizados os protestos, as manifestações.
— Incertezas econômicas: Os sinais não são tão positivos. E a economia sempre vai ser o drive principal de uma eleição presidencial. Ela nunca pode ser descuidada. Se as coisas vão bem, em teoria, o governante em questão, incluindo os candidatos a governo dos Estados, está saindo com vantagem. […] Tem muitas variáveis fora do controle absoluto. Tem muita incerteza na economia, sobre a infraestrutura da construção da Copa, se as manifestações vão se dar ou não… O brasileiro não quer é passar vergonha. De ter manifestação, de ter violência, de acontecer acidentes nos estádios por obras mal feitas.
