sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Senado trata a crise de penitenciária do Maranhão como flagelo sem culpados

Josias de Souza


Há um mês, em 13 de janeiro, membros da Comissão de Direitos Humanos do Senado visitaram São Luís. Foram à capital maranhense atraídos pelo cheiro de sangue que exalava do noticiário sobre o complexo penitenciário de Pedrinhas. Vistoriaram cadeias, visitaram autoridades e conversaram com vítimas da violência. Reunidos nesta quarta-feira (12), os senadores divulgaram um relatório. Quem lê chega a duas constatações: 1) a diligência resultou em desperdício de dinheiro público; 2) é inesgotável o prestígio de José Sarney (PMDB-AP) no Senado.

O documento, disponível aqui, foi redigido pela senadora Ana Rita (PT-ES). Tem nove folhas. Nelas, a crise do sistema prisional do Maranhão é retratado como um flagelo sem culpados. Na parte descritiva, que ocupa oito páginas e meia, o relatório é um rascunho pobre de fatos que as manchetes já passaram a limpo. O trecho final, batizado de “Análise e Conclusões” preenche três parágrafos constrangedores.

Num, Ana Rita anota sua impressão sobre a visita dos senadores ao cadeião maranhense. O complexo penitenciário de Pedrinhas é composto por nove unidades. A “diligência” do Senado percorreu apenas um par de cadeias. Tomada pelas palavras, a relatora petista acha que os senadores foram ludibriados: “…podemos dizer que aquilo que nos foi mostrado nas duas unidades visitadas não reflete a realidade das demais unidades não visitadas.” Ciceroneou o grupo durante a incursão pelo xadrez o secretário da Administração Penitenciária do governo do Maranhão, Sebastião Uchôa.

Noutro parágrafo, Ana Rita piorou o soneto com uma emenda que dissolve a crise de Pedrinhas num caldeirão nacional: “Podemos afirmar que, a exemplo do que ocorre em outros estados, o crime organizado está fora do controle estatal e a sua retomada certamente exigirá uma conjugação de esforços do Congresso, do Judiciário, do Ministério Público, das Defensorias Públicas, do governo federal e dos governos estaduais.”

No terceiro e último paragráfo do capítulo intiludado “Análise e Conclusões”, a relatora não analisa nada nem conclui coisa nenhuma: “Dada a complexidade do caso, esta Comissão deverá promover uma reunião específica, na retomada dos trabalhos em fevereiro próximo, para avaliar a visita ao Maranhão e fazer os encaminhamentos que julgar pertinentes.” Nesse trecho, Ana Rita referia-se à reunião desta quarta-feira. Um encontro que resultou num lote de encaminhamentos impertinentes. Foram resumidos em notícia veiculada no portal do Senado.

Deliberou-se que a Comissão de Direitos Humanos do Senado pedirá para se reunir com o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) e com o corregedor do Conselho Nacional de Justiça, ministro Francisco Falcão. No encontro com Cardozo, os senadores querem “debater propostas legislativas em tramitação no Congresso”. Hã?!?! Na reunião com o corregedor, pleitearão a realização de mutirões carcerários e inspeções em presídios. O CNJ não tem feito outra coisa.

De resto, a comissão remeterá dois ofícios à governadora maranhense Roseana Sarney (PMDB). No primeiro, os senadores rogarão para que o Estado faça concursos para contratar defensores públicos e agentes penitenciários. Algo que Roseana jura já estar fazendo. No segundo, pedirão informações sobre “as medidas emergenciais adotadas para tentar resolver a crise no sistema prisional”, que já enviou à cova mais de 60 cadáveres de presos. Os senadores teriam poupado o custo da correspondência se tivessem crivado Roseana de perguntas ao visitá-la na incursão por São Luís.

O encontro com Roseana Sarney foi descrito no relatório de Ana Rita. Nas palavras da senadora, a filha de José Sarney atribuiu a crise que pendurou o Maranhão de ponta-cabeça nas manchetes a um episódio ocorrido em São Paulo no ano da graça de 2005. Referia-se aos ataques contra a população da capital paulista ordenados desde a cadeia por líderes do PCC. A partir daí, disse Roseana aos senadores, o crime organizado “se alastrou para as 27 unidades federadas”.

Depois de pintar o problema com tintas nacionais, Roseana cuidou de jogar o pincel no colo de Dilma Rousseff. “Como se trata de um problema nacional”, escreveu Ana Rita, Roseana “sugeriu que o governo federal deveria investir na ampliação de presídios federais.” Parte das vagas federais abrigaria os detentos das facções organizadas, “ficando os presos de menor periculosidade sob a responsabilidade dos governos estaduais.”

Não fosse a reverência dos senadores ao sobrenome Sarney, o relatório da comissão poderia ter realçado que as observações da governadora revelam ingratidão e cegueira. Roseana é ingrata porque cospe no prato que Dilma lhe estendeu ao ordenar ao ministro da Justiça que providenciasse a transferência dos chefões do crime maranhense para cadeias federais. É cega porque não consegue enxergar o próprio umbigo.

José Sarney, hoje senador pelo Amapá, elegeu-se governador do Maranhão pela primeira vez em 1966. Desde então, o Estado não foi governado senão pelo pai de Roseana e por gestores autorizados por ele. Houve uma mísera exceção. Mas durou pouco. Eleito em 2006, Jackson Lago (PDT) assumiu o governo maranhense em 2007 e foi cassado pelo TSE em 2009. Assumiu a própria Roseana, que ficara em segundo lugar na eleição.

O deslocamento dos senadores até o Maranhão só teria feito sentido se, ao retornar, eles se dispusessem a dar suporte político aos atores que se esforçam para submeter o poderio dos Sarney a uma lufada de ar fresco. O primeiro passo para resolver um problema é enxergar o problema. Obra de quase meio século, o descalabro prisional do Maranhão é um flagelo 100% feito pela oligarquia Sarney, eis o que os senadores se abstiveram de declarar.

Além de Ana Rita, integraram a missão maranhense os seguintes senadores: Humberto Costa (PT-PE), João Capiberibe (PSB-AP), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), João Alberto Souza (PMDB-MA) e Lobão Filho (PMDB-MA). Os dois últimos não integram a Comissão de Direitos Humanos. Integrantes do grupo político de Sarney, compuseram o grupo para prover um escudo, não para levantar véus.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA: 
É só examinar a relação dos integrantes da tal comissão para concluir-se pela inutilidade e que função única era “absolver” Roseana Sarney de qualquer negligência, incompetência e má gestão. Poderia ter poupado os cofres públicos de tamanho desperdício.