Míriam Leitão
O Globo
É importante entender a dimensão e a natureza da crise que nos aflige agora. Do ponto de vista externo, o que está acontecendo é muito menor do que o que vimos nos últimos cinco anos. Internamente, acumulamos algumas fragilidades, mas temos também forças para enfrentar eventuais turbulências. O clima e as imperícias no setor energético criaram um problema a mais.
A primeira crise, em 2008, foi gravíssima. Naquele momento, o sistema financeiro internacional chegou perto do colapso por erros de política monetária e bancaria das maiores economias. O Brasil foi afetado porque todos os países o foram. Uma grande onda bateu na nossa costa. Empresas expostas em derivativos cambiais ampliaram a crise aqui dentro. Houve um dia de a bolsa ter que suspender o pregão três vezes. O Brasil estava crescendo e foi à recessão.
A segunda crise foi a Europeia. Ela não foi aguda, mas foi crônica. Meses e meses de países quebrando e de dúvida até sobre se a União Europeia sobreviveria.
Esta terceira, agora se dá, em parte, por bons motivos. Os Estados Unidos, crescendo, estão retirando os estímulos monetários, o dólar está se valorizando, e os títulos de longo prazo americano estão com ganhos maiores. O capital está mudando de rota. Saindo de mercados emergentes para os Estados Unidos ou outros países em processo de recuperação.
O volume alto de reservas ajudou nas duas primeiras crises e ajuda agora. Mas o que nos fragiliza é um déficit em conta-corrente que aumentou demais, principalmente nos últimos anos. O país não aproveitou o dólar baixo para ter uma inflação mais baixa. E está, neste momento, com a taxa anual muito mais alta do que a de inúmeros países com os quais somos comparados na hora de se escolher o investimento. A crise energética interna é mais uma incerteza neste momento.
O quadro é sério, mas a crise externa não tem a dimensão das outras duas. Agora, está havendo um redirecionamento dos capitais porque o pior já passou na economia americana. Na sexta-feira, foi divulgado o dado de desemprego de 6,6%. A economia americana sair do buraco é uma boa notícia para todos porque ninguém tem a ganhar com as dificuldades deles.
O que nos atinge é o fato de haver menos interesse de vir capital para o Brasil quando precisamos financiar o déficit em conta-corrente que aumentou. Precisamos mais deles, quando eles estão com menos interesse em nós.
A inflação alta precisa ser combatida. A boa notícia anunciada na sexta-feira, de um IPCA mais baixo do que o esperado em janeiro, pode se prolongar pelo trimestre. Há grande chance de a taxa acumulada do trimestre ser bem menor do que do primeiro trimestre do ano passado. Isso será um alívio.
O clima diminui a força desse ganho da queda da inflação trimestral. Parte da safra está se perdendo pela falta de chuvas. Esse verão tórrido e esse fevereiro de pouca chuva está tornando mais difícil manter a fórmula que o governo montou desde o ano passado: o Tesouro compensa as distribuidoras pelo custo extra, adiando as más notícias para depois das eleições. O custo maior está aumentando a incerteza fiscal.
Há muitas complicações na conjuntura econômica, como temos falado aqui, mas quando se fala da crise atual, e o mercado financeiro estabelece que há cinco países mais frágeis — nós, entre eles —, deve-se ter em mente que a crise externa não é tão grave, e o Brasil tem ativos para enfrentar as turbulências.
Mark Mobius disse, em reportagem publicada pelo "Valor Econômico", que desta vez não é crise, é choque. Ou seja, a evolução seria menos intensa do que os últimos eventos. O que ele aponta como fonte de desagrado em relação ao Brasil é o inesperado, que acontece com frequência demais. No caso, ele se queixa da descapitalização da Vale para pagar o Refis, que interferiu nas projeções de rentabilidade do papel. Esse é apenas um dos vários inesperados com que a economia brasileira tem afugentado investidores. Não é o momento de sustos em quem ajuda a financiar a economia do país nesta transição.
Em resumo, a crise externa é menos intensa que as outras duas, mas o Brasil criou para si alguns complicadores. O cenário é menos emergencial, mas exige perícia na administração diária da política econômica.