O Globo
Famílias tentam se adaptar à alta dos preços anualizada acima de 30%, com redução de compras, troca de quilos por unidades, opção por marcas mais baratas
Nem a paixão nacional - a carne - escapa das mudanças
Victor R. Caivano / AP
Vitrine de loja de sapatos em Buenos Aires:
mesmo com desconto, preços nem sempre cabem no orçamento
BUENOS AIRES - Trocar canelones com recheio abundante por espaguete simples na manteiga, comprar cortes de carne mais baratos, levar três tomates em lugar de um quilo e limpar a casa com cloro, dispensando detergentes e saponáceos de marca, são alguns dos novos hábitos que a classe média argentina adotou nesses tempos difíceis de luta com a inflação.
A alta de preços no primeiro bimestre chegou a quase 10% segundo cálculos da Direção de Estatísticas de Buenos Aires e de algumas consultorias. No caso de alimentos, porém, os aumentos em janeiro e fevereiro acumulam 13%.
O resultado pode ser visto nas ruas. As vendas do comércio, em geral, recuaram 3,8% em janeiro e 6,5% em fevereiro, segundo levantamento da Confederação Argentina da Média Empresa, enquanto nos açougues - que promoveram reajustes de 20% apenas em janeiro - o movimento diminuiu, com clientes comprando agora mais carne de segunda. Nos armazéns de bairros de Caballito e Liniers, os comerciantes dizem que muitos clientes estão trocando a carne - uma paixão nacional - por proteína vegetal, como soja.
— Adoro fazer um assado em casa, mas a carne está muito cara — diz Suzana, enquanto pechincha cortes mais em conta em um açougue no bairro de Barracas.
No comércio de frutas e verduras, nos últimos seis meses, tem sido cada vez mais comum o peso ser substituído por unidades. Nos mercados de San Telmo e em Caballito, consumidores compram duas bananas, ou três peras, ou três ciruelas. O hábito também é mais frequente nas padarias, onde os clientes pedem uma ou duas unidades de cada tipo de pão e já não compram por quilo. Levantamento da Federação da Indústria de Panificação de Buenos Aires revela que desde o início do ano o faturamento das padarias diminuiu 40% e as vendas caíram 15%.
O diretor do Centro de Fabricantes de Pastas Frescas de Buenos Aires, Gustavo Fugazot, diz que é visível a queda nas vendas de massas mais elaboradas, como canelones e lasanhas, substituídas por tipos mais em conta, como o talharim e o espaguete.
— É comum que clientes me perguntem se podem pagar em prestações, inclusive para compras pequenas, como de 200 pesos (R$ 65) — diz Fugazot.
Nos supermercados, que aderiram ao programa de Preços Cuidados, que mantém sem reajuste 194 produtos da cesta básica, o movimento aumentou dez vezes, mas os hábitos de compra também mudaram. Levantamento realizado pelo jornal "Clarín" revela que consumidores acostumados a levar leite em embalagens longa vida e potes de iogurte agora compram esses produtos em sachês, bem menores e mais baratos.
Os produtos de limpeza também espelham a mudança de comportamento da classe média argentina, que deixou de lado produtos clássicos como detergentes e desengordurantes. Na Química Rame, em San Justo, um litro de cloro, que custa 24 pesos, rende 15 litros de loção desinfetante, que os portenhos chamam de lavandina, quando misturado com água.
Apertando o cinto aqui, indo menos vezes ao supermercado ali, a classe média argentina tenta se adaptar às restrições ao crédito - como na limitação de parcelas dos financiamentos - ao aumento das taxas de juros, às restrições recentemente impostas a compras em sites do exterior e a uma inflação que, anualizada, já passou dos 30%.
O resultado pode ser medido em estatísticas recentes, como na queda de 11,7% nas vendas de eletrodomésticos, 7,1% nas de vestuário e na diminuição de 8,5% no emplacamento de veículos.
