João Sorima Neto, O Globo
Com Agências Internacionais
Analistas avaliam que meta fiscal foi novamente colocada em xeque
Ibovespa vai seguindo pessimismo no exterior e se desvaloriza
Dólar fecha em queda de 0,54% negociado a R$ 2,35
SÃO PAULO - O mercado financeiro recebeu negativamente as medidas anunciadas ontem pelo governo para ajudar as distribuidoras de energia - que incluirão um desembolso extra de recursos públicos (R$ 4 bilhões), mais financiamentos no mercado (que chegam a R$ 8 bilhões), totalizando R$ 12 bilhões. Para eles, o pacote ajuda no curto prazo, mas é insuficiente para resolver os problemas de caixa das empresas e coloca em xeque o cumprimento da meta fiscal.
Às 16h08, os papéis do setor estavam entre as maiores quedas. As ações preferenciais da Cemig recuavam 5,76% a R$ 12,93, a terceira maior queda; as ações ordinárias da CPFL Energia perdiam 4,66% a R4 16,78, quarta maior baixa e as preferenciais da Eletropaulo tinham queda de 4,03% a R$ 7,62, a quinta maior baixa.
Também estão em baixa as ações ordinárias (com direito a voto) da Energias BR (2,19% a R$ 8,91); Eletrobras ON (3,95% a R$ 4,87) Eletrobras PNB (2,70% a R$ 8,90) e Cesp PNB (0,18% a R$ 21,61).
Em nota, o banco BNP Paribas avaliou pelo menos duas implicações diretas: um custo fiscal no curto prazo e uma inflação mais alta à frente. O relatório do banco observa que o custo fiscal total com energia foi revisado para cima.
“Acreditamos que o governo pode precisar gastar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões neste ano a fim de manter as luzes acesas”, diz a nota, acrescentando que o banco continua pessimista com as dinâmicas fiscal e inflacionária no Brasil.
Para o estrategista da corretora SLW, Pedro Galdi, o mercado esperava uma espécie de ‘milagre’ para salvar as elétricas, e o pacote anunciado pelo governo deixou a desejar.
- Primeiro, o prejuízo das eléricas com energia mais cara, até fevereiro, é de R$ 5 bilhões e o governo vai dar um socorro de R$ 4 bilhões. Ou seja, a conta não fecha. Segundo, o empréstimo de R$ 8 bilhões que a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) foi autorizada a tomar terá que vir de bancos como Caixa Econômica Federal ou Banco do Brasil, já que a CCEE é uma instituição sem fins lucrativos e não tem garantias a oferecer. E nem se sabe quando essas instituição vai tomar esse financiamento. Na prática, esse empréstimo pode ser transformar num custo fiscal - diz Galdi.
Ele lembra que em 2015, quando deve acontecer o reajuste das contas de luz, vencem algumas concessões como as da Copel, Cemigi e Cesp. Elas terá que se adaptar ao novo modelo e reduzir tarifas, como outras empresas já fizeram em 2012.
- Ou seja, no mesmo ano de reajuste, teremos uma redução de tarifas em algumas empresas. Mas o aumento represado nas contas chega a 25%, enquanto o desconto, segundo estimativas, chegaria a 18%. Portanto, haverá reajuste de qualquer jeito - afirma Galdi.
Por isso, as ações de elétricas recuam hoje, depois de subir muito ontem, na expectativa do pacote.
- As empresas elétricas terão um primeiro trimestre ruim, e o segundo também em termos de resultados. Isso significa menos dividendos aos acionistas e os papéis recuam hoje. Essa é a leitura do mercado - afirma o estrategista da SLW.
Para o analista Felipe Salto, da consultoria Tendências, o custo adicional com as elétricas anunciado pelo governo não coloca em risco o cumprimento do superávit primário, estimado em 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB), embora a Tendência estime que o superávit primário este ano deverá ser de 1,5% e não de 1,9% como anunciado pelo governo. Para o economista da Tendências, as receitas deste ano com novas concessões foram subestimadas pelo governo e podem compensar o gasto extra.
- O governo subestimou as receitas com concessões. Com o leilão de telefonia 4G, por exemplo, a expectativa de receitas estimada foi de R$ 4,5 bilhões, mas podem chegar a R$ 12 bilhões, compensando o gasto extra com as elétricas - diz Salto.
Ele observa entretanto, que o risco fiscal está nos R$ 8 bilhões em empréstimos, que o governo autorizou a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) a tomar no mercado.
- Esse financiamento traz risco fiscal, já que terá que ser avalizado pelo Tesouro Nacional ou mesmo por bancos públicos - diz o economista.
Em relatório divulgado nesta sexta, o Itaú Unibanco avalia que o custo fiscal do governo com o setor elétrico será de R$ 15 bilhões, com R$ 5 bilhões adicionais de financiamentos feitos por bancos públicos.
Para os analistas do Itaú Unibanco não ficou claro se a alta nas contas de luz para os consumidores vai acontecer totalmente em 2015 ou se será diluída em mais anos. O Itaú lembra que o peso dos preços de energia no IPCA é de 2,7%.
