O Estado de S. Paulo
Com informações Agências AP e Reuters
Terminal marítimo é ocupado por militares russos, que já são seis mil em toda a Crimeia
Imagem de arquivo de 2008 mostra navios de guerra
durante um desfile no porto de Sevastopol, Crimeia
KIEV - Tropas russas expandiram nesta segunda-feira, 3, seu controle sobre a Península da Crimeia, área de etnia russa no sul da Ucrânia considerada estratégica para o Kremlin. Soldados ocuparam um terminal marítimo em Kerch e caças Sukhoi violaram o espaço aéreo ucraniano, que tinha sido fechado na noite de domingo.
O terminal marítimo é o principal ponto de ligação entre a Crimeia e o litoral russo no Mar Negro e pode ser crucial para um eventual desembarque de tropas em uma possível ação militar. Ele foi ocupado durante a madrugada por soldados e veículos armados russos. Na cidade vizinha de Nikolaiev, moradores relataram a chegada de mais tropas russas durante a noite.
Em Sevastopol, cidade ucraniana que abriga a principal base russa no Mar Negro, foi registrado um aumento na movimentação de navios de guerra. O serviço de telefonia foi cortado em algumas áreas da cidade.
Jatos de combate russos violaram duas vezes o espaço aéreo da Ucrânia sobre o Mar Morto durante a noite, informou o Ministério da Defesa da Ucrânia. A Força Aérea do país identificou um jato Sukhoi SU-27 e disse ter prevenido quaisquer "ações provocativas".
A Rússia controlou militarmente a península sem disparar um só tiro. O temor agora no governo interino ucraniano e nos países ocidentais é o de que o presidente Vladimir Putin pretenda expandir o controle sobre áreas de etnia russa no sul e leste da Ucrânia, depois da derrubada do presidente pró-Rússia Viktor Yanukovich, no mês passado. Fontes do governo americano acreditam que os russos já controlam militarmente toda a Crimeia, com mais de 6 mil homens na região.
O primeiro-ministro da Ucrânia Arseni Yatsenyuk insistiu em reunião com o secretário do Exterior britânico, William Hague, que a Crimeia ainda faz parte do território do país. "Qualquer tentativa russa de anexar a Crimeia não terá sucesso. Mas precisamos de tempo", disse o premiê. "Precisamos de apoio tangível e real de nossos parceiros ocidentais."
Yatsenyuk se mostrou refratário a uma escalada militar do impasse. "Por enquanto, nenhuma opção militar está na mesa" declarou o líder ucraniano. "Sou partidário de uma solução diplomática dessa crise, porque um conflito traria instabilidade à toda região."
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Moscou dá ultimato à Ucrânia e UE ameaça Rússia com sanções
Enquanto o Kremlin expande seu controle na Crimeia, presidente dos EUA, Barack Obama, diz que Moscou está ‘do lado errado da história’ e suspende cooperação militar
(Atualizado às 01h10) KIEV - Enquanto a Rússia expandia na segunda-feira, 3, seu controle sobre a Península da Crimeia, o governo da Ucrânia denunciou um ultimato do Kremlin para que as forças do país se rendam e evitem um ataque militar. Em Washington, o presidente dos EUA, Barack Obama, passou o dia tentando alinhar seus parceiros em busca de uma resposta a Moscou. "A Rússia está do lado errado da história", disse Obama.
"Ao longo do tempo isso será custoso para a Rússia. Agora é a hora de eles considerarem se podem defender seus interesses por meio da diplomacia, não pela força", afirmou Obama, que prometeu sanções econômicas caso Moscou não recue.
No fim da noite de segunda-feira, após o presidente americano se reunir por mais de duas horas com conselheiros, os EUA anunciaram a suspensão dos vínculos militares com Moscou. "Isso inclui exercícios e reuniões bilaterais, convites para visitar embarcações e conferências de planejamento militar", afirmou o porta-voz do Pentágono, John Kirby. Trocas comerciais e investimentos futuros com a Rússia também foram suspensos, segundo um porta-voz de Michael Froman, representante dos EUA para o Comércio. "Devido aos recentes acontecimentos na Ucrânia, suspendemos as negociações comerciais e de investimento com o governo da Rússia".
A Rússia mantém uma importante base naval na Crimeia, região considerada estratégica por Vladimir Putin, na qual os russos formam a maioria da população. Por isso, enquanto Bruxelas e Washington condenaram a intervenção militar, Moscou diz estar apenas protegendo cidadãos que vivem na área.
Na segunda-feira, o Ministério da Defesa da Ucrânia disse que a Marinha russa deu um ultimato a dois navios de guerra do país. O governo russo negou a acusação, que qualificou de "sem sentido". De acordo com os militares ucranianos, ao menos quatro navios de guerra russos no porto de Sebastopol bloquearam a passagem de embarcações com bandeira ucraniana. A tripulação foi informada que, se não se rendesse, os navios seriam invadidos e apreendidos.
Segundo a rede de TV americana CBS, situação semelhante ocorreu em uma base aérea ucraniana na Crimeia. Soldados russos teriam exigido que os militares deixassem o local. Mais cedo, a agência russa Interfax noticiou que o comandante da frota russa no Mar Negro, Alexander Vitko, deu um ultimato de rendição a todas as forças militares na Crimeia até a zero hora de terça-feira, 4, (horário de Brasília). Kiev negou que tenha recebido as ameaças e disse que o único ultimato foi dado aos dois navios no porto de Sebastopol.
Na segunda-feira, 3, tropas russas expandiram seu controle sobre a Crimeia. Caças Sukhoi violaram o espaço aéreo ucraniano, fechado desde domingo. Moscou mobilizou tanques na fronteira e ocupou o porto de Kerch, principal ligação entre a Crimeia e o litoral russo, que pode ser crucial para um eventual desembarque de tropas. Na cidade vizinha de Nikolaiev, moradores relataram a chegada de mais tropas russas.
De acordo com o embaixador ucraniano na ONU, Yuri Sergeyev, desde 24 de fevereiro, pelo menos 16 mil soldados russos foram posicionados em pontos estratégicos da Crimeia "por meio de navios militares, helicópteros e aviões de carga".
Oleksander Turchinov, presidente interino da Ucrânia, pediu que Moscou pare com o que ele chamou de "agressão e pirataria".
Quebra de silêncio
A China rompeu ontem o silêncio sobre a crise ucraniana no Conselho de Segurança da ONU e pediu que todas as partes busquem uma solução política dentro da legalidade para o conflito. O embaixador chinês na ONU, Liu Jievi, assegurou que seu governo está "profundamente preocupado" com a crise. / AP e REUTERS

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