terça-feira, março 25, 2014

Herança de preço administrado vai além de 2015

Denise Neumann e Claudia Safatle 
Valor

Os cenários traçados para a inflação de preços administrados em 2015 embutem uma recomposição parcial das tarifas de serviços como energia elétrica e ônibus urbano e do preço dos combustíveis, apesar da recente aceleração dos Índices Gerais de Preços (IGPs) e do aumento dos custos nesses segmentos. Na média, as projeções para preços administrados variam entre 4,5% e 5% para este ano e entre 5% e 5,7% para 2015, com um cenário mais radical onde a alta poderia chegar a 7%. Apesar das defasagens acumuladas, uma recomposição integral das diferenças não está no cenário de nenhum analista.

As dúvidas sobre as regras que vão nortear o reajuste da energia elétrica impedem muitos analistas de "desdobrar" as previsões para os administrados no próximo ano. Entre três projeções levantadas pelo Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, as estimativas para o reajuste de energia elétrica variam de 5% a 10% em 2015. E essa dúvida é a principal variável por trás da disparidade nas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que em uma hipótese extrema alcança 6,7% e rompe o teto da meta de inflação em 2015. Na média, porém, os três cenários estimam um IPCA levemente menor que o deste ano em 2015.


O rompimento do teto da meta integra o cenário mais "radical" de recomposição de preços (e hoje visto como menos provável) desenhado pela equipe do banco Brasil Plural. Nessa hipótese, os administrados sobem 7% com 10% em energia e 6% em ônibus urbano. Apesar de ter calculado a projeção "radical", a equipe do Brasil Plural considera mais provável um realinhamento mais suave dos preços, que resultaria em alta média dos administrados entre 4,5% e 5% em 2015, percentual mais próximo dos 4% previstos para 2014.

Nos cálculos da Mauá Sekular, a política de represamento de preços em 2013 escondeu uma inflação de 3,7% dos administrados. Se o governo decidir fazer todo o ajuste desses preços em 2015, a inflação do setor deverá ser de 8,4%, acima dos 4,5% estimados para o período no relatório trimestral de inflação. Isso agregaria 1 ponto percentual sobre o IPCA do próximo exercício.

Para fazer esses cálculos e medir o represamento de preços de combustíveis, energia e transportes urbanos, o economista Alessandro del Drago, da Mauá Sekular, usou o modelo do Banco Central para projetar o comportamento dos preços administrados para o ano subsequente, levando em conta a performance dos preços livres. Uma amostra de 2004 a 2012 indica uma correlação entre os preços livres e administrados em que 70% da inflação do primeiro é repassada para o segundo no prazo de dois anos.

Caso os preços administrados tivessem seguido essa relação em 2013, eles teriam apresentado uma inflação de 5,2% e não de 1,5% como de fato ocorreu. Ou seja, o IPCA teria encerrado o ano passado em 6,8% e não em 5,92%.

A primeira dificuldade dos economistas é estimar o tamanho da defasagem em cada tarifa. No caso da energia, existe uma conta bilionária a ser paga pelos consumidores, mas essa despesa foi gerada pelo custo extra do uso das térmicas e vai vigorar por um determinado período, sem representar uma mudança permanente no custo de energia. No caso dos combustíveis, a regra não conhecida pela qual a Petrobras passou a corrigir seus preços também dificulta a missão, enquanto no caso das tarifas de ônibus, os custos - e o tempo de ausência de correção - variam de capital para capital. Além disso, a recente alta dos IGPs (que corrigem parte da tarifa de energia e outros preços administrados, como aluguéis) por conta dos preços agrícolas adicionou um pouco mais de incerteza à conta.

Priscilla Burity, economista do Brasil Plural, observa que a alta recente dos IGPs tem um componente transitório (os preços dos in natura que estão subindo agora devem cair até meados do ano) e um pouco mais estrutural, relacionado ao aumento dos grãos no mundo, que já afeta o preço das carnes. Assim, na média, nem toda alta recente será depois repassada aos demais preços. Por enquanto, diz ela, o Brasil Plural estima uma alta média de 6% nos IGPs, mas essa estimativa está com viés de alta.

No caso da energia, Fábio Romão, da LCA Consultores, projeta alta de 7% este ano e um reajuste menor, de 5%, em 2015. Sua estimativa para o próximo ano combina uma queda no preço de alguns contratos, um percentual de aumento para dar início à recomposição necessária para pagar a conta acumulada pelo uso das térmicas, e uma desvalorização menor no câmbio ao longo deste ano (em relação ao que aconteceu em 2013).

É equivocado pensar que se a conta das térmicas chegar a R$ 30 bilhões, isso representa uma necessidade de reajuste de 30%. Esse seria o tamanho do reajuste se o governo decidisse recuperar toda a despesa em um único ano, mas como ele já avisou que vai parcelar a conta, basta um reajuste de 6% mantido ao longo de cinco anos (mas com impacto único na inflação) para recuperar esse valor, por exemplo. Assim, a cada ano o governo recolheria R$ 6 bilhões até encerrar a conta. Por causa dessa "possibilidade" de parcelamento é que as projeções embutem reajustes mais modestos, apesar da conta salgada acumulada no setor.

"Há muitas dúvidas sobre como o reajuste de energia será feito", pondera Romão, acrescentando que, além da indefinição de como será cobrada a despesa de 2013, não se sabe qual será o tamanho da despesa deste ano e qual o preço que será definido para a energia nos próximos leilões. Para o economista da LCA, os IGPs têm hoje uma influência direta menor no preço dos administrados do que tinham no passado. Ele lembra que os preços de telefonia seguem um índice setorial e no caso da energia outras variáveis (como o câmbio) também entram no cálculo.

Fernando Rocha, economista e sócio da JGP Gestão de Recursos, observa que os preços das tarifas públicas estão errados ("fora do lugar"), seja o de energia, o de combustíveis ou o das passagens de ônibus. Ele projeta alta de 5,1% de administrados este ano (com 7,9% de energia) e 5,7% em 2015 (com 9,8% de energia), com IPCA de 6,5% este ano e 6% no próximo. Nessas contas ele considera um mix de dólar mais caro (que afeta os preços de Itaipu) e inflação passada (peso do IGP na tarifa), mas deixa de lado a defasagem originada da despesa com as térmicas.

Para os combustíveis, ele projeta um aumento de 4% ao consumidor no fim deste ano (algo próximo a 7% na refinaria) após as eleições. "Se o governo fizesse o realinhamento dos preços (de energia e gasolina) haveria o estouro da meta, mas os benefícios seriam maiores que os custos", argumenta, criticando o "microgerenciamento" que o governo faz dos preços. Por essa "visão populista", pondera, o governo perde a visão do longo prazo. Os problemas criados pela distorção de preços se materializam na falta de caixa da Petrobras e na insegurança causada no setor elétrico, afirma Rocha.

Priscilla observa que a defasagem média dos preços da gasolina entre o mercado doméstico e o americano tem ficado em 12% nos últimos meses. "Dificilmente o governo permitirá um reajuste que recomponha a diferença de uma vez", diz a economista. Cada 10% de reajuste na gasolina representa alta de 0,30 ponto no IPCA.

Outro problema para 2015 são as tarifas de ônibus urbano. Levantamento feito pelo Valor PRO em janeiro indicou que 11 das 13 capitais onde o IPCA é coletado não planejavam reajustar as tarifas de ônibus este ano. As contas da LCA embutem alta de 3,6% neste preço em 2014 e mais 5% em 2015. Na contas do Brasil Plural, entram 2% de alta este ano e 2,5% no cenário "suave" ou 6% em caso de uma recomposição mais firme dos preços, diz Priscilla. "O ambiente de 2014, pela preocupação com manifestações em ano eleitoral, não é favorável a reajustes, apesar dos custos que vem sendo acumulados com salários e diesel", afirma.