Cleide Carvalho
O Globo
Youssef, ligado a ex-diretor da estatal, se apresentava como intermediário e pedia até 8% de fornecedores
Marcelo Piu / O Globo
Paulo Roberto Costa na porta do Instituto Médico-Legal, no Rio,
logo depois de ser preso, no dia 20 de março
CURITIBA — Informações às quais O GLOBO teve acesso e que constam também das investigações da Polícia Federal mostram que o doleiro Alberto Youssef agia como uma espécie de “representante comercial” para as obras de refinarias da Petrobras, graças a suas relações com Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da estatal.
Por meio da GDF Investimentos, Youssef se tornou intermediário de empresas dispostas a pagar comissões entre 6% e 8% para fornecer a grandes obras da estatal, a cargo de consórcios de empreiteiras. Apenas para fornecer tubos de aço importados para as obras da refinaria Abreu e Lima, cuja fiscalização de execução estava cargo de Costa, a Sanko-Sider desembolsou cerca de R$ 10 milhões. Em contrapartida, o fornecimento deve render à empresa entre R$ 120 milhões e R$ 130 milhões num período estimado em cinco anos.
Youssef e Costa foram presos na Operação Lava-Jato, da Polícia Federal (PF), que investiga doleiros suspeitos de lavagem de dinheiro. Costa foi preso no Rio e, depois, transferido para Curitiba. Como diretor de Abastecimento da Petrobras, ele foi o representante da estatal num comitê de proprietários da polêmica refinaria de Pasadena, no Texas.
Comissão por “assessorias”
O doleiro Youssef ganhava ainda comissões para “assessorar” empresas para que conseguissem ser incluídas no Certificado de Registro de Classificação Cadastral (CRCC), obrigatório a quem quer vender produtos ou prestar serviços à estatal. Os pagamentos eram feitos para a MO Consultoria Comercial e Laudos Estatísticos, que movimentou R$ 90 milhões entre 2009 e 2013.
A MO Consultoria é uma empresa de fachada. Desde abril de 2009, se revezam como donos da consultoria Edilson Fernandes Ribeiro e Waldomiro de Oliveira. Os dois fizeram juntos uma dívida bancária em nome da RCI Software e Hardware e não pagaram. A Justiça mandou executar a dívida, mas descobriu que todos os endereços deles eram falsos.
Costa saiu da Petrobras em abril de 2012. Depois disso, durante dois meses recebeu por serviços de contato comercial prestados à Sanko-Sider, e se desligou. Segundo a empresa declarou à Polícia Federal, Costa não deu resultados como contato comercial e foi desligado.
A Sanko-Sider informou ainda à PF que foi procurada por Youssef, que ofereceu seus serviços de representação comercial. Foi Youssef quem apresentou à empresa Waldomiro de Oliveira, da MO Consultoria. A empresa informou ainda que nunca houve contato com Costa antes da saída dele da Petrobras.
A planilha apreendida na empresa, que revela valores repassados à MO Consultoria, faz parte do controle de pagamentos da Sanko-Sider. Os diretores da empresa afirmaram à PF que o dinheiro é lícito e foi pago ao doleiro por serviços prestados na intermediação de contratos com empresas privadas. Disseram ainda que não cabe à Sanko-Sider saber o que foi feito com o dinheiro. Os pagamentos foram feitos via TED (transferência eletrônica) bancária.
A Sanko-Sider é uma importadora de tubos de aço e traz os produtos principalmente da China. A empresa chegou a participar de visitas a fabricantes chineses junto com representantes da Petrobras para convencer a estatal sobre a qualidade dos produtos. Desde 2011, a importadora fornece para a estatal. Foram sete contratos em 2011, doze em 2012 e dez em 2013. A maioria deles se encaixa na modalidade de fornecimento único, com baixo valor, no qual a licitação é dispensada. O levantamento foi feito pelo GLOBO no site de acesso à informação da Petrobras, onde estão listadas licitações e contratos mês a mês.
Os dois contratos de maior valor foram fechados com a Petrobras em 2013, na modalidade convite. Neste caso, a comissão de licitação deve convidar no mínimo três empresas para apresentarem propostas. O primeiro deles é de janeiro de 2013, no valor de R$ 2,014 milhões, com validade até janeiro de 2015. O segundo, no valor de R$ 494,3 milhões, é destinado ao uso em tubovias. Não há informação sobre a que unidade elas se destinam.
As compras de tubos nas novas obras de refinarias estão sendo investigadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Nas obras da Abreu e Lima, foi constatada falha no projeto da estatal, que resultou na necessidade de comprar mais 190% de tubos do que o previsto inicialmente. Os aditivos contratuais para fazer as interligações com tubos geraram aumento de custo de R$ 1 bilhão.
Petrobras não comenta o assunto
A obra da refinaria em Pernambuco sofreu atraso de mais de dois anos. O custo inicial era de US$ 2,5 bilhões e, hoje, a previsão é que ela seja concluída com investimento de US$ 18,5 bilhões, até 2015. Em 2011, quando ocupava a diretoria de Abastecimento da Petrobras, Costa comentou o atraso e o aumento no valor da obra. Considerou normal:
— O projeto passou por uma série de análises e é como na construção de uma casa. Quando chega o orçamento final, ele está bem acima do previsto, pelo nível de detalhamento e até de fatos inesperados que aconteceram durante a execução — disse Costa, na ocasião.
Procurada, a Sanko-Sider não quis se pronunciar. A Petrobras também não quis comentar o assunto. Preso desde o dia 20, Costa teve um pedido dehabeas corpus negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) na última sexta-feira.
