Adelson Elias Vasconcellos
A recente pesquisa do IBOPE pode-se dizer estar em perfeitamente sintonia com aquela que, apesar de dar vitória à Dilma em primeiro turno, trazia de contrapeso o desejo de 63% dos brasileiros por mudanças. Não por outra razão, a avaliação de regular e ruim atinge o mesmo patamar.
Mas esta pesquisa revela um dado curioso. Em todas as áreas de atuação do governo houve queda, inclusive a avaliação sobre a atuação do governo e suas políticas sociais. E é possível, portanto, afirmar que, o resultado final está em consonância com as avaliações por áreas de atuação. Muito embora o resultado final, assim como em pesquisas anteriores, tenha “puxado” o conceito final para cima, em todos os conceitos a atuação do governo é considerado de regular para baixo.
Esta pesquisa, a meu ver, reflete de modo cristalino, a avaliação que aqui já vínhamos fazendo, e até os senões que apresentamos sobre pesquisas anteriores. De fato, era estranho que a maioria das áreas avaliadas apresentasse conceitos abaixo do regular e que o resultado final fosse considerado ótimo.
Não há uma única área de atuação do governo Dilma em que possamos avaliar como boa. Em todos os serviços públicos o descalabro é um fato. Além da saúde, educação e saneamento, parece que o brasileiro, finalmente, deu-se conta do verdadeiro escândalo que é o transporte público. Durante anos, este item, apesar de seu estado péssimo, jamais foi considerado, nunca foi avaliado com maior rigor. Mas não apenas isso: o governo Dilma teve quatro anos para trabalhar em prol de melhorias acentuadas dos serviços públicos. Além da renovação de promessas que nunca se cumprem, a par da máquina de propaganda tentando vender ao país uma realidade que ele, de fato, nunca teve, as questões econômicas também mostram uma piora sensível, destacando-se a inflação, o retorno dos juros altos, os múltiplos casos de corrupção que vão se tornando rotina.
Tudo isso era visível e sentido pela população desde o início do atual governo. Eram questões abertas que clamavam por providências e medidas que jamais se efetivaram. Mas há, especialmente, uma área que se tornou ainda mais sensível a todos nós: a sensação de insegurança. Impossível esconder da população a estatística de 50 mil homicídios por ano. Ela está presente em todos os municípios. De todas as regiões. O medo de se andar nas ruas e talvez não retornar com vida para casa ao final do dia é um fantasma perturbador. E ele agora vem somar-se as avaliações que sempre foram ruins na saúde, educação, transporte público, saneamento.
Muito embora a queda pronunciada de agora possa surpreender alguns analistas, inclusive ao próprio governo, no fundo, para aqueles que circulam nas ruas, nos ônibus, nos supermercados ela reflete apenas a realidade que se percebe no dia a dia. Claro que há aqueles recalcitrantes desta realidade, que permanecem ao lado do governo mesmo que tudo vá mal e o governo se revele entre o ridículo e o medíocre, como é o caso do governo da senhora Rousseff. São os tais interesses subalternos a guiar-lhes a consciência (se é que a tem). Mas nem todos são cegos, ou militantes de esquerda, ou desinformados e alienados. As pessoas percebem nos preços que pagam pela alimentação e outros itens de consumo, que os preços estão se elevando de forma mais veloz. Sentem as dificuldades de se ter uma educação de qualidade para seus filhos, muito em função da má escola que frequentam, ou, lá na ponta final de sua formação, as dificuldades de se colocarem no mercado de trabalho.
Este ambiente negativo não é formado apenas pelo noticiário, como muitas vezes os governistas tentam insinuar. São conceitos que se formam no cotidiano das pessoas, quando percebemos que, apesar do muito de impostos que pagamos, não temos o retorno devido nos serviços de competência do poder público. Também se sentem traídos pela sensação de impunidade que alimenta o aumento descontrolado da criminalidade. Se fôssemos consultar a população brasileira sobre a questão da maioridade penal, por exemplo, veremos uma imensa distância entre o que o governo faz, ou deixa de fazer, e aquilo que a sociedade em sua maioria desejaria.
Uma sociedade só se torna melhor, mais justa, com melhor qualidade de vida, com melhor distribuição de renda, se ela for movida pelo progresso. É o desenvolvimento econômico que abre espaços para o desenvolvimento social. Quantas vezes ouvimos nossas autoridades desdenharem os seguidos pibinhos afirmando que o povo não come PIB, como recentemente afirmou a senhora Conceição Tavares, economista do PT? Não obstante, se não houver crescimento do PIB, de que maneira se imagina ser possível oferecer alimentação farta e barata para a população? De que ação mágica será possível extrair empregos de melhor qualidade, aumentar de forma efetiva a renda média das pessoas para que possam, de maneira prática e direta, e não apenas por manipulação estatística, crescerem como cidadãos?
E, como vemos, o crescimento do país, no mandato Dilma, marca passo e oferece uma perspectiva de futuro pouco alvissareiro.
Portanto, e parece que este movimento de insatisfação geral vai se cristalizando, o resultado ruim da pesquisa IBOPE é apenas consequência de um governo que até agora, não conseguiu colocar luz no próprio poste.
Vale, deste modo, voltar ao passado. Após ser eleita, mas mesmo antes de assumir, dissemos aqui que Dilma teria que fazer uma escolha. Ou ela dedicaria seu mandato a um projeto de país, dando continuidade às conquistas que herdou, não apenas do governo Lula, mas, principalmente, do governo FHC, ou optaria por dar seguimento ao projeto de poder hegemônico de seu partido, e insistiria em degradar instituições, em imprimir maior força à máquina de propaganda de seu partido, e em perenizar a pobreza de milhões para se tornarem mera massa de manobra, verdadeiro curral eleitoral sem força, sem voz, sem autodeterminação.
Se a opção fosse a primeira, isto é, um projeto de país, deveria dedicar seu primeiro ano no poder a uma profunda reforma com caráter fiscal, para lhe permitir ter capacidade de elevar os investimentos. Dilma, tanto na campanha de sua eleição, quanto pouco antes de assumir, sempre rechaçou a ideia de choque fiscal, que considerava coisa ultrapassada. Não apenas disse mas, como vemos hoje, dedicou estes anos a conviver com a expansão de gastos, redução de investimentos, manipulação contábil das contas públicos, represamento artificial de preços. O resultado é o que vemos hoje, deterioração das contas públicas. E, apesar dos inúmeros alertas, teimou em impor modelos ultrapassados, já experimentados pelo país nos anos 70 e 80 do século passado e que nos levaram a 25 anos de atrasos.
O mundo mudou nos últimos dez anos. A força motriz que nos impulsionou entre 2002 a 2008, já não existe mais, nem interna nem externamente. Durante os anos de Lula, tivemos um imenso espaço para aprofundar reformas estruturais, para avançar nas conquistas econômicas, no aperfeiçoamento da atividade pública, na criação de um melhor ambiente de negócios capaz de atrair os investimentos que precisamos para impulsionar o crescimento do país. Nada disso foi feito. Tanto Lula quanto Dilma se aprimoraram em aprofundar e cuidar apenas e tão somente de um projeto político. E só não mergulhamos em crises como as que vivem Argentina e Venezuela, governadas sob a mesma ótica, sob a mesma bandeira ideológica, porque somos um país muito mais rico, e com instituições muito mais fortalecidas. Mas os efeitos degradantes, mesmo que em menor escala, podem ser percebidos como o aumento indiscriminado da criminalidade, a histórica impunidade da classe política, inflação persistente, erosão da renda, crescimento baixo, serviços públicos decadentes, etc.
Sendo assim, e diante do alerta que a pesquisa IBOPE oferece, a senhora Rousseff terá pouco tempo para tentar salvar seu projeto de reeleição. O ambiente lhe é negativo, seja pela insatisfação disseminada na sociedade, seja pela falta de unidade de sua base política para implementar reformas, seja pela sucessão de escândalos clamando por investigação, seja pela falta de recursos para investimentos em serviços, sejam dezenas de promessas de campanha que ficaram pelo caminho e que não se realizarão nos poucos meses que ainda lhe restam de mandato. Em cima disso, esta insatisfação se acentua ainda com a proximidade da Copa cujo legado prometido, se sabe, também está condenado a ficar pelo caminho. O paraíso prometido continua uma quimera de difícil realização.
Se o governo tivesse encomendado uma pesquisa antes da se candidatar à sediar a copa, perceberia que apenas um terço da população brasileira é aficionada de futebol. Nossos costumes, neste sentido, sofreram profundas alterações nos últimos 30 anos, basta ver o vazio dos estádios em dias de jogos. Assim, para os restantes 2/3 é uma aberração o país torrar cerca de R$ 30 bilhões para sediar um evento que atrairá a atenção de apenas um terço, sem considerar os imensos e bilionários elefantes brancos que ficarão às moscas quando terminada a competição. O país tinha, e ainda tem, inúmeras outras prioridades muito mais urgentes para serem atendidas. E isto está na alma de todo o povo brasileiro. Este erro de avaliação agora cobra seu preço, aliás, cobra desde as manifestações de junho de 2013, e a classe política, não só o governo, parecem ainda não terem se dado conta desta insatisfação.
A senhora Rousseff pode até ser reeleita em outubro próximo, mas o grau de exigência e de cobranças há muito já ultrapassaram os limites da tolerância. A população brasileira cansou de esperar, não quer mais discursos e promessas. Exige que o país tenha, de fato, um governo que dê direção a um projeto de país, porque assim como ninguém põe PIB na mesa, ninguém come politicagem. Tanto isso é verdade, que a simples divulgação de uma pesquisa apontando uma tênue possibilidade de mudança no comando do país, serviu para assanhar os mercados, indicando, conforme preconizamos há mais de um ano, que o prazo de validade do petismo se esgotou.