C. Marcano
El Pais
“Querem te punir por qualquer coisa. Não podemos ir ao cinema, nem a um shopping, nem à praia. Se uma paciente te convida, não pode aceitar”. Lisandra Santos, médica, de 28 anos, trabalhou entre 2009 e 2013 como especialista em endoscopia para a Missão Médica Cubana na Venezuela. No ano passado pediu refúgio nos Estados Unidos.
Sua eloquência contrasta com a parcimônia dos cubanos na Venezuela, que não falam de sua experiência ou o fazem como se as paredes ouvissem. Nas suas pupilas manifesta-se uma centelha de temor a cada pergunta, cada palavra, que poderia comprometê-los. “Não podemos nos relacionar com vocês [os venezuelanos] mais do que pelo trabalho. Sabe como chamam isso, se vai, por exemplo, na casa de alguém, se faz amizade? Relações desmedidas com nacionais”, conta um técnico alocado em um centro de diagnóstico integral (CDI) que pede para não revelar seu nome. O homem, de 36 anos, recusa um convite para jantar porque também é proibido sair depois das seis da tarde. “Supostamente é pela insegurança, puro controle”.
O médico Janoi González, refugiado nos Estados Unidos desde 2013, assegura que são espiados constantemente. “Em cada missão há uma pessoa que é chamada de jurídico. Todo mundo sabe que o jurídico é um agente de segurança do Estado, que controla tudo, que acusa, que tem direito de revistar seus documentos privados, seu telefone, tudo”. As falhas são punidas com penas que vão desde repressões e a confiscação de uma porcentagem de sua exíguo salário em Cuba até a expulsão da missão e o retorno imediato à ilha, segundo o regulamento de disciplina.
“Na missão, se passa necessidade. Pagavam-nos muito pouco. Quando cheguei em 2009 recebia 500 bolívares mensais (261 reais na cotação oficial) e deixei a missão em 2013 ganhando 1.500 (389 reais). Comida, transporte, telefone... nós mesmos tínhamos que pagar. Eu gastava 500 bolívares e não comprava nada”, recorda Lisandra, em entrevista telefônica de Miami.
Esse pagamento mensal na moeda local, como explica um técnico que trabalha no oriente do país, “não é um salário, mas uma remuneração que não sustenta pelo alto custo de vida, pela inflação”(56% em 2013). Atualmente subiu para 3.000 bolívares (menos de 26 euros [80 reais] no mercado negro, o único no qual podiam trocar). O subsidio é custeado pela Venezuela, além do que paga por pessoa (mais de 9.400 euros [24,247 reais] mensais).
Na ilha, o Governo cubano deposita para eles um salário mensal – entre 125 e 225 pesos convertíveis cubanos (CUC), a mesma quantidade em dólares no câmbio atual [283 e 509 reais], dependendo da especialidade – que só podem retirar no seu regresso, de férias ou definitivo, “com avaliação satisfatória”.
Mesmo assim, é mais do que ganhariam na ilha. “A gente vive com muito medo de que acabem com a missão porque como é um dinheirinho... eu como médica recém-graduada ganhava em Cuba 16 dólares [36 reais], e minha mãe, que também é médica, 25 dólares [57 reais]”, compara Lisandra.
O alojamento na Venezuela é uma verdadeira loteria. Muito vivem em lugares de alta periculosidade, ou apertados em espaços pequenos. Lisandra dormiu 15 dias em uma cama improvisada com tábuas em um corpo de bombeiros de Aroa (Yaracuy), até que, graças a uma prima, conseguiu um translado para Caracas, no principal quartel militar do país. “Vivíamos quatro mulheres em um quartinho com dois beliches, um banheiro e uma salinha. Também havia casas de 16 pessoas”.
Se abandonam a missão e pedem refúgio nos EUA, como centenas fizeram, perdem o dinheiro depositado na ilha e não podem voltar para Cuba em oito anos.
“Desde 2006, cerca de 8.000 garotos chegaram aos Estados Unidos, a grande maioria vem da Venezuela. Somente entre o final de 2012 e 2013 saíram de lá cerca de 3.000 desertores”, assegura Julio César Alfonso, diretor da ONG norte-americana Solidariedade Sem Fronteiras (SSF). Esse ano, Washington aprovou o programa Cuban Medical Parole, que permite aos trabalhadores cubanos recrutados pelo Governo cubano para trabalhar ou estudar em um terceiro país solicitar um visto humanitário. Médicos, enfermeiros, paramédicos, fisioterapeutas, técnicos de laboratório e treinadores esportivos podem optar.
Ficar na Venezuela é uma opção difícil para os que não obtêm o visto dos EUA ou quem, apesar das restrições, se envolveu em namoros clandestinos e tem parceiros venezuelanos. Não apenas enfrentam a pressão dos Governos cubano e venezuelano- até um mês atrás era impossível para eles serem legalizados-, mas lutam para conseguir emprego.
Um técnico casado com uma venezuelana relata as represálias que sofrem os que abandonam a missão. “O Governo cubano, além de roubar o dinheiro que temos no banco, ganhado com sacrifício, ainda nos proíbe de entrar em território cubano sem se importar se um familiar fica doente ou morre”. E acrescenta, “não podemos exercer nossas profissões porque não revalidamos o título”.
Lisandra, ainda que também tenha se apaixonado por um venezuelano, foi para os EUA. Como a maioria, foi pela fronteira com a Colômbia, ante o temor de ser detida no aeroporto. “Se descobrem algo, te colocam em um avião e te mandam para Cuba”. Já em Bogotá, as autoridades migratórias a deportaram para os EUA. Em Caracas temia por sua vida. “Na Venezuela me senti quase pior que em Cuba, porque para mim é um regime muito similar, mas com insegurança. Atacaram-me com pistola na rua, no metro... Já imaginou? Um sistema repressor com insegurança?”, pergunta Lisandra.