terça-feira, abril 01, 2014

Renovar e avançar é preciso.

Adelson Elias Vasconcellos.

Continua um mistério a conclusão das pesquisas sobre a aprovação do governo. Afirmei aqui  no blog, cerca de dois anos atrás, que as pesquisas de avaliação traziam conclusões absurdas. Considerando-se a soma total dos conceitos de cada uma das nove áreas avaliadas, jamais o conceito poderia diferir, fosse para cima ou para baixo, da média. Era confuso, e estranho, compreender que, diante de uma maioria absoluta de conceitos “regular”, o conceito final pudesse indicar aprovação de boa para cima. 

Nesta recente pesquisa, conforme o leitor poderá constatar, de novo temos o mesmo mistério. Se fôssemos considerar a média de aprovações, ela jamais poderia ser superior a 30%. Contudo, o resultado final apontou 36%! 


Área avaliada

Aprovação

Desaprovação
Não sabe /
Não respondeu
Educação
32%
65%
3%
Saúde
21%
77%
2%
Segurança pública
22%
76%
2%
Combate à fome e à miséria
48%
49%
3%
Combate ao desemprego
41%
57%
2%
Meio ambiente
41%
54%
5%
Impostos
18%
77%
5%
Combate à inflação
24%
71%
5%
Taxa de juros
21%
73%
6%

Somando-se os nove percentuais, na aprovação temos a soma de 267, que, dividida por nove, resulta em 29,67% de aprovação. 

Quanto à desaprovação, a soma é 599, cuja divisão por nove resulta em 66,56% de desaprovação.

E, não obstante isto, o resultado final aponta 36% de aprovação.

Ok, vamos dizer que o padrão final de avaliação empregado pelo IBOPE, tenha critérios que desconhecemos e possa  justificar a distorção.

Mas reparem nos dados da tabela: não há uma única área de atuação do governo em que tenha alcançado 50% de aprovação da população. Todos estão abaixo disto, algumas, como impostos, por exemplo, muito abaixo. Ora, isto revela um sentimento do momento, e este sentimento é de que a avaliação final do governo Dilma é muito ruim. 

O quadro acima pode mudar? Sim, até outubro, além da copa que teremos daqui setenta e poucos dias, ainda conviveremos com a campanha eleitoral e, pelo quadro de alianças que estão se formando, Dilma contará com uma fabulosa vantagem de tempo na tevê sobre seus adversários. E, sabemos como o marketing palaciano sabe ser eficiente na venda da imagem de uma gestora ruim como produto de primeira qualidade.  

Além disto, com a intervenção de Lula, mandando substituir Ideli Salvati nas Relações Institucionais  por Ricardo Berzoini, a costura das alianças tende a sofrer aquela política rasteira na qual os petistas se especializaram. Lula, de maneira alguma, quer perder a aliança com o PMDB. Até porque os petistas não escondem que foi a incompetência de Ideli Salvati quem permitiu a formação da CPI sobre a Petrobrás. 

Porém, diferentemente de 2010, hoje Dilma Rousseff, junto à população, deixou de ser um algo etéreo na qual bastava a palavra de Lula, que então gozava de uma aprovação superior a 70%, para avalizar a aposta. Quase quatro anos depois, a população já sabe o que pode e, principalmente, o que não pode esperar da candidata presidente. Os conceitos acima sobre a atuação de seu  governo, falam muito mais alto do que qualquer discurso em palanque, ou mesmo uma campanha marqueteira bem desenhada.  Porém, não devemos desdenhar da capacidade desta gente em vender gato por lebre.

Se a gente for avaliar todos os indicadores e realizações do governo comandado pela senhora Rousseff, impossível não considerá-lo como decepcionante. Não para este blogueiro que, mesmo antes dela assumir, preconizara o desastre. Não havia uma torcida para que desse errado, a conclusão baseava-se no fato de que seu desempenho à frente da Casa Civil tinha muito mais barulho e propaganda do que propriamente resultados positivos.  Além disto, o temperamento irascível da senhora  Rousseff depunha contra o perfil que se exige de alguém à frente do governo. E isto sempre se comprovou com as inúmeras áreas de atrito que o temperamento da presidente conflagrou desde 2011. 

E é justamente este mesmo temperamento arrogante que joga contra a possibilidade de uma reeleição. No fundo, o país precisa de alguém mais aberto ao diálogo, que apresente um projeto de país, que saiba resistir na primeira metade do mandato a liberação de cargos e verbas. O Brasil, a partir de 2015, precisa mais do que nunca de uma política fiscal rigorosa e disciplinada.  Se não seguir e perseguir, incansavelmente, este objetivo,  estará jogando o país num abismo de custo doloroso para toda a sociedade. Ou, para lembrar sentença de Mendonça de Barros, ainda no governo FHC,  nos primeiros dois anos de mandato o governo deverá equilibrar-se no limite da responsabilidade. 

Conforme estamos destacando há algum tempo, empurrou-se  muito esqueleto nas arcas do Tesouro Nacional que precisam ser extirpados. Há muita gordura no tamanho do Estado que precisa ser cortada. Há muitas estruturas sobrepostas com funções que precisam ser racionalizadas. Há muita distorção de preços que precisam se tornar realistas. E isto tudo não se fará sem alguma dose de sacrifício. Tudo isto, convenhamos, foge à competência da senhora Rousseff que sempre se mostrou avessa à qualquer choque ou controle fiscal, razão pela qual as contas públicas estão se deteriorando em velocidade impressionante. Não há recordes de arrecadação que deem conta desta irresponsabilidade. E já se fala em aumento de impostos para cobrir o rombo provocado pela crise energética. 

E, como sabemos, sem que se faça uma redução da carga tributária, além de reformas na previdência, na estrutura do Estado, nas leis trabalhistas, reduzindo-se os subsídios a zero e as despesas ao mínimo indispensável, não será possível abrir espaço para elevar o investimento público, em sucessiva queda livre no governo Dilma. 

Também os atuais marcos regulatórios das concessões públicas nas áreas da energia, transportes, rodovias, ferrovias, portos e  aeroportos não atrairão  os investimentos tão urgentes que necessitamos  para revigorar nossa infraestrutura.  E, vale lembrar, que todos estes marcos regulatórios em vigore foram obra da senhora Rousseff. 

Além disto, o comando do país precisa abandonar preconceitos contra o capital privado,  traçar e por em prática um plano estratégico de longo prazo em todas as áreas, jogar no lixo a ideia de que se pode conviver com uma inflação de 6% ao ano, em média, em troca de mais desenvolvimento. E, neste ponto, devemos convergir para um centro de inflação menor que os atuais 4,5%. 

Acrescente-se ao cardápio a urgente necessidade de se retomar o pilar dos conceitos macroeconômicos simplesmente postos de lado pelo atual governo. Câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário na medida certa,  para reduzir a dívida pública em percentuais menores em relação ao PIB.

Todo o cardápio acima, se colocado em prática,  resultará em um novo ciclo virtuoso de crescimento. Hoje, o Brasil não mais pode contar com os ventos externos para impulsionar seu desenvolvimento. O dever de casa pode até parecer de difícil execução, dada as arestas políticas que, no Brasil, adoram soprar em direção  contrária ao interesse público. Mas, sem tais medidas e políticas não estaremos erguendo as estruturas indispensáveis para o país sair do marasmo dos pibinhos, tampouco estaremos criando um  ambiente de negócios capazes de atrair os investimentos de que tanto precisamos. 

Assim, e partindo  da avaliação que a própria população faz do governo comandado pela senhora Rousseff, mesmo que esta seja reeleita, impossível imaginar ser ela quem liderará o processo de mudanças acima descrito.  O que precisamos que seja feito não se encaixa de jeito nenhum no perfil da atual mandatária. 

Se o desejo de mudanças expresso por mais de 60% da população for real, para que ele se consume e seja levado adiante, a primeira mudança deve se dar no comando do país. Ou será apostar em mais do mesmo. E, neste ritmo medíocre, não apenas continuaremos empacados na mendicância atual, como ainda colocaremos em perigoso risco a estabilidade econômica duramente conquistada.  

Precisamos mirar para frente, sem deixar de carregar na bagagem as lições do passado. As condições para refazer o mesmo caminho, por exemplo, que Lula teve a ventura de trilhar entre 2003 a 2010, NÃO EXISTEM MAIS. As condições não só do país, mas do mundo, são completamente diferentes.  Não podemos sonhar com as mesmas soluções porque este filme está gasto e o brilho na tela já não será o mesmo. O Brasil precisa renovar-se,  precisa aceitar e enfrentar os novos desafios e as novas realidades. Para isso, precisa  preparar-se de forma adequada. Tentar, como fez Dilma, ressuscitar modelos do passado, quanto mais modelos da própria ditadura militar, é condenar o país ao atraso. Renovar e avançar, este deve ser o foco de toda a sociedade.