quarta-feira, abril 30, 2014

Pacote para montadoras: esta armadilha precisa acabar

Adelson Elias Vasconcellos

É claro que a cadeia da indústria automobilística tem enorme importância na economia brasileira. Quando as vendas se retraem milhares de empregos ficam comprometidos, como vem acontecendo agora. 

Porém, é preciso rever as estratégias antigas e tentar localizar nelas os erros cometidos para incorrer novas armadilhas futuras.

Por exemplo, carro não é artigo de alta rotatividade. Ninguém assume um financiamento de 30/40 mil reais, ao longo de 60 meses, para trocar por um modelo mais novo um a dois anos depois. Tem quem faça, mas este é o caso para poucos que tem renda suficiente para bancar tamanho luxo.

Porém, a maioria do povo brasileiro tem apenas a 80º renda per capita do mundo, e o rendimento mensal médio dos trabalhadores é ligeiramente superior a R$ 2.000/mês.

A pergunta que se impõem é: temos mercado suficiente para absorver a atual produção de veículos? Resposta curta e grossa: NÃO. Sendo assim, as montadoras se obrigam a exportar os excedentes. E aí surge a segunda dificuldade: além de Mercosul, com quem mais o Brasil tem acordo bilateral de comércio? Pelo que se sabe, no caso da indústria automobilística, o país mantém dois acordos: Argentina e México. O país governado por Cristina Kirchner anda de mal a pior.   Em razão disto, as exportações para o país vizinho empacaram. 

Diante disso fica a percepção de que, nos últimos anos, colocamos os ovos em apenas dois cestos: o mercado interno, limitado pela renda, e a exportação para a Argentina, em situação econômica pior do que a brasileira. 

Então, por conta do que se projetou uma produção interna maior do que a capacidade interna de absorvê-la? 

É claro que há limites para que o governo socorra a atividade privada. Desde 2003, já foram editados 16 pacotes em favor das montadoras, ao passo que outras cadeias produtivas tem sido duramente penalizadas com mais impostos, com falta de crédito barato, com excessos de burocracia, e, no caso do etanol, com uma política de preços para os combustíveis, altamente destrutiva para a atividade por parte do governo da senhora Rousseff.

Outro questão que precisa ser revista: por que o carro produzido no Brasil, exportado para o México ou Chile, por exemplo, é mais barato lá fora? Claro, o peso dos impostos aqui dentro inflaciona o preço final muito além da capacidade de grande parte da população. 

Mas não apenas automóveis são castigados por altos impostos. A carga tributária elevadíssima atinge tudo que aqui dentro se produz, tornando o Brasil um dos países mais caros do mundo. 

São bilhões de reais que os brasileiros vem gastando lá fora por conta desta carestia maluca. Ou seja, estamos exportando emprego e renda, e isto acaba se refletindo no mercado interno. 

Mas falem em reduzir a carga tributária para ver o que acontece. Ou então, que o governo federal autorize um aumento de 15% no valor do salário mínimo. Prefeitos e governadores vão espernear a mais não poder. Por outro lado, estes mesmos chorões não são capazes de reduzirem, por exemplo, seu staff, os tais cargos comissionados, o rol de despesas vagabundas e inúteis que praticam, ou até o número de privilégios com que se cercam. 

Assim, a carga tributária é alta além da conta fruto de uma estrutura política esquizofrênica, asfixiante, que devora sem piedade as riquezas produzidas no país. Isto se observa em todos os escalões, inclusive a própria presidência da república, com seus 39 ministros, mais dezenas de penduricalhos, sem utilidade alguma para o país.

Conceder incentivos tributários ou creditícios para a indústria automobilística tem o dom  apenas de maquiar coisas muitas graves que são atacadas, porque o Brasil se acostumou, lamentavelmente, a suportar o peso de um Estado muito além do razoável.  Sustentar este monstro custa muito caro, e o que é pior: com retorno praticamente nenhum para a sociedade. 

Portanto, é mais fácil mitigar crises em setores da economia com perfumaria, e não com soluções definitivas, porque estas exigiria o sacrifício de se dar ao Estado brasileiro uma estrutura que a classe política e sindicatos não permitiriam. Assim, acabam sufocando e sacrificando o interesse público em favor dos interesses pessoais e corporativos. Enquanto tal cultura não mudar, continuaremos nos enganando com pacotinhos incipientes. 

Além disso, o país precisa dedicar prioridade maior  à questão do transporte coletivo em detrimento do transporte individual. O problema da falta de mobilidade urbana tornou-se insustentável. Maior razão ainda para o Brasil se livrar desta armadilha.