domingo, maio 18, 2014

Início sem fôlego

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

Não foi um bom primeiro trimestre para a economia mundial. O PIB europeu cresceu apenas 0,2%, o americano ficou em 0,1%. Aqui, o indicador do Banco Central de atividade econômica subiu apenas 0,3% em relação ao trimestre anterior. As vendas do varejo ampliado brasileiro, que incluem automóveis e materiais de construção, estão desacelerando fortemente no acumulado em 12 meses.

O comércio, que foi um ponto importante de sustentação do PIB no país, dá novos sinais de fraqueza. No índice ampliado, houve queda de 0,3% no primeiro trimestre, em relação ao quarto. Vejam no gráfico o que mostra o indicador acumulado em 12 meses. Percebe-se claramente a desaceleração do setor, que crescia a um ritmo de 12,4% em fevereiro de 2011 e agora sobe 3,2%.

Os bens duráveis são os que sofrem a maior desaceleração. A venda de eletrodomésticos, por exemplo, saiu de uma alta de 16,9% em março de 2012 para 6,1% em março deste ano. A mesma coisa aconteceu com os veículos, motos e peças, que, desde o melhor momento dos últimos dois anos, em novembro de 2012, desacelerou de 8% para 3,2%. Os consumidores estão enfrentando linhas de financiamentos mais caras e seletivas, ao mesmo tempo em que têm sua renda corroída pela inflação alta. O mercado de trabalho também não gera empregos no mesmo ritmo e, por isso, a renda cresce menos.

O indicador do Banco Central, que é o termômetro da atividade econômica, foi divulgado ontem e subiu apenas 0,3% entre o quarto trimestre e o primeiro. Mas o dado oficial só sairá no dia 30, pelo IBGE, e pode trazer surpresas porque vai incorporar pela primeira vez a nova série de cálculo da indústria, que mudou em março, ficando mais abrangente.

Na Europa, o PIB decepcionou, com um crescimento abaixo do esperado. Portugal encolheu 0,7% no primeiro trimestre, a Itália recuou 0,1%, e os franceses ficaram estagnados. A Holanda teve uma forte retração, de 1,4%, e, na outra ponta, os alemães continuam mostrando que são o motor do bloco, com crescimento de 0,8%. Tudo somado, há um ritmo fraco e desequilibrado entre os países da região. A ameaça de deflação continua rondando, porque os preços subiram apenas 0,7% em 12 meses até abril, muito abaixo da meta de 2%. Crescimento fraco com inflação baixa é um pesadelo enfrentado há décadas pelos japoneses. Para evitar o risco, o BCE deve fazer injeções de euros na economia, a exemplo do banco central americano.

Nos EUA, o inverno mais rigoroso bateu diretamente no PIB, que ficou praticamente estagnado. A boa notícia é que as expectativas ainda são por números mais fortes nos próximos meses, quando passar esse efeito atípico do clima. Isso quer dizer que os americanos podem ajudar a puxar outras economias.

O importante é registrar que, em cenário mundial assim, a margem para erros na política econômica é bem pequena e é mais difícil crescer nesse contexto.