Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA
A característica mais marcante dele é sua formidável capacidade de olhar e não ver
Nelson Rodrigues e Dilma Rousseff cansaram de alertar o Brasil sobre o complexo de vira-latas. Deu certo. Na Copa de 2014, os brasileiros se apresentaram ao mundo como vira-latas sem complexo.
O vira-latas complexado andas pelos cantos de cabeça baixa e, antes de entrar em, qualquer disputa, acha que já perdeu. O vira-lata sem complexo não padece desse mal. Contra pit bull ou pastor alemão, sempre acha que já ganhou. É depois da derrota que surge sua principal característica: ele não sabe por que perdeu. Está prontinho para perder a próxima.
A autópsia da Seleção Brasileira, triturada pelos alemães em seu próprio território, revela com clareza a causa mortis: autoengano. Depois de uma péssima primeira fase, e de quase ser eliminado pelo Chile nas oitavas de final – seria bem mais digno que o 7 a 1 – levando um balaço no travessão no último lance do jogo, o Brasil não baixou o nariz. Jogadores, técnico, comentaristas e torcedores tinham a explicação: não está fácil para ninguém.
Brasucas delirantes pelos quatro cantos do país enganavam ostensivamente a si mesmos, afirmando que a Alemanha tinha sofrido contra Gana e Argélia. Que a Holanda tinha passado sufoco contra o México e a Costa Rica. Que a Argentina, coitada, só não caíra ainda porque tinha o tal do Messi. Eis uma característica marcante do vira-lata sem complexo: ele tem a formidável capacidade de olhar e não ver.
Foi assim que o Brasil resolveu acreditar que seus problemas eram exatamente iguais aos de seus principais adversários. Bastaria ter visto (de olhos abertos) qualquer jogo da Alemanha – mesmo as pedreiras contra Gana e Argélia – para constatar que os alemães jogam como um time. Organizados, bem armados e com grande volume de jogo, apesar das dificuldades que passaram. O mesmo quanto à Holanda, e até a França, entre outros. Quem conhece um pouquinho de futebol viu a vulnerabilidade da Seleção Brasileira – e notou que até os camaroneses andaram passeando por aquela área onde os alemães pintaram o sete.
Mas o Brasil tem a camisa amarela, com muito orgulho, com muito amor, que faz todo mundo tremer. Os craques brasileiros choram de soluçar a cada vez que cantam seu hino, se debulham em lágrimas antes, durante e depois dos jogos, sentem muita emoção, muita pressão e muita raiva, querem se vingar de fulano que disse A, querem calar a boca de beltrano que falou B – e que venha o adversário que for, porque ninguém tem um novelão como o nosso.
Após o vexame dos 7 a 1, o ex-jogador e comentarista Juninho Pernambucano ouviu na TV um alemão dizendo não entender como todo o talento brasileiro que se vê até no futvôlei da praia, não se converteu numa grande Seleção. Juninho cortou: ”É porque, aqui, muitos acham que o talento substitui o trabalho”. Fim de papo.
Se não houver o talento para substituir o trabalho, serve o melodrama. Fica até difícil assimilar a cena do capitão e do goleiro da Seleção cantando o hino e segurando a quatro mãos a camisa de Neymar. O que foi aquilo? Que marqueteiro genial teve a ideia de transformar a Seleção perfilada para o Hino Nacional em varal da saudade? A resposta é simples: eles realmente acreditam que aquela pantomima ganha jogo. Que os alemães morreriam de medo do fantasma do Neymar. Leu-se e ouviu-se exaustivamente na imprensa – e era sério – a tese de que a Seleção Brasileira entraria em campo mais forte do que nunca “jogando pelo Neymar”. Não custa repetir: em matéria de autoengano, o vira-lata sem complexo é imbatível.
O time jogou pelo Neymar e tomou 7. Legou para a posteridade a imagem única de uma Seleção usando o Hino Nacional para uma performance criativa. Em vez de segurar a camisa 10, poderiam ter aberto um daqueles cartazes “Não Vai Ter Copa”. Seria ao menos mais coerente.
O melhor de tudo é o diagnóstico pós-catástrofe. O plantão da bondade autopiedosa já entrou em campo para bradar: “Nada de caça às bruxas!”; “Ninguém tem culpa!”; “Ninguém vai crucificado como o Barbosa no Maracanaço”. É isto aí. E ninguém será crucificado pelo derrame de dinheiro público nos estádios ou pela substituição da reforma viária por uma penca de feriados.
Para o vira-lata sem complexo, tudo sempre dá certo.