Talita Fernandes
Veja online
Um dos 'pais' do Plano Real, o ex-presidente do BC explica ao site de VEJA que a meta do plano era, sobretudo, de modernizar o país; Arida chama atenção ainda para a série de retrocessos que o Brasil presenciou nos últimos anos
(Daniela Toviansky)
Pérsio Árida, ex-presidente do BC e sócio do banco BTG
Se no passado trocar de moeda era uma prática comum no Brasil, esse triste passado parece ter ficado para trás, pelo menos por enquanto. Embora o país hoje viva um cenário infinitamente melhor do que o de 1994, quando o Plano Real foi implantado, os indicadores econômicos e a condução da economia não trazem motivos para tranquilidade. A inflação volta a ameaçar encostar no teto da meta (de 6,5%) ao acumular alta de 6,4% nos últimos doze meses e o crescimento deve ficar na faixa de 1% este ano. Para um dos 'pais' do Plano Real, o ex-presidente do Banco Central Persio Arida, o país sofreu uma série de retrocessos em relação às conquistas do Plano. Arida indica que, não só o cenário atual não é bom como a expectativa não é de melhora. Porém, segundo ele, nem tudo está perdido. É preciso que o governo reconduza a economia de forma a mostrar que haverá, nos próximos anos, "mais crescimento e menos inflação". Em entrevista ao site de VEJA, ele conta por que o Plano deu certo e mostra que a ideia ia muito além de estabilizar a economia, mas de modernizar o país. Confira os principais trechos da entrevista:
Na visão do senhor, como está a situação econômica do país agora, vinte anos depois da implantação do Plano Real?
Nos anos recentes houve uma série de retrocessos. Primeiro, cristalizou-se uma inflação muito mais alta do que a média. Hoje, não só estamos no patamar inflacionário acima de 6% como as expectativas mostram que a inflação não volta para 4,5%. E temos 6% com muitos preços congelados, se não houvesse isso, a inflação estaria em 8%. Nesse sentido está longe de uma situação confortável do ponto de vista inflacionário. Além disso, a rota de diminuição do tamanho do Estado e de concentração de seus esforços em educação e saúde, que era a ótica inicial, não aconteceu. Tínhamos esse conceito de termos o Estado voltado a suas funções básicas. O que vimos é que o Estado cresceu muito em tamanho em relação ao que tínhamos. O governo já arrecada muito mais do que antes e gasta muito mais do que antes. Muito do gasto público foi destinado para outros fins que não educação e saúde. A independência das agências reguladoras desapareceu, o agigantamento do Estado e a excessiva interferência do Estado na economia acabaram, de um lado, diminuindo a produtividade do país e, por outro, abalaram as expectativas. As expectativas estão muito baixas, o grau de pessimismo é muito grande.
Alguns economistas dizem que vivemos uma crise de expectativas e ainda não estamos em uma crise real. Qual a visão do senhor sobre isso?
Hoje há um certo desencanto: o país cresce pouco, a inflação está no teto. As pessoas não acham que vai haver uma mudança importante na condução da economia do país. As expectativas ruins agravam ainda mais esse cenário. A maneira de reverter isso não é mudar a expectativa no grito, mas encaminhar a política econômica de uma maneira que seja razoável, ou seja, que as pessoas possam esperar mais crescimento e menos inflação. Se houver isso, com certeza a expectativa melhora na hora. No Plano Real as pessoas perceberam que o país se indicou em uma rota certa, apesar de o momento ser complicado. Com isso, as expectativas ficaram favoráveis. A expectativa só muda se houver a percepção de que o país está, de fato, no caminho correto.
Na visão do senhor, por que o Plano Real deu certo?
O Brasil teve antes do Plano Real uma série de tentativas de estabilização, todas baseadas em congelamento de preços. Essas várias tentativas levaram a uma exaustão desse modelo. Não fazia sentido o país tentar mais uma vez o congelamento de preços. Contudo, os poucos momentos de estabilidade que esses planos anteriores permitiram, mudaram o imaginário coletivo. Criou-se uma vontade de estabilização porque os benefícios foram sentidos. O Plano Real teve uma adesão porque havia essa vontade de estabilização. Além disso, nós fizemos diferente. Invertemos a ordem do que era feito anteriormente: primeiro foi feito um ajuste fiscal e depois foi anunciada a nova moeda.
Se todos os outros planos tinham a proposta de acabar com a inflação e não conseguiram, por que o Plano Real convenceu a população de que seria possível?
Havia um aspecto importante, embora ficasse claro para uns e não para outros, que o Plano Real foi concebido como um projeto de modernização do país. Claro que, por definição, um país com inflação não pode ser um país moderno. Mas o plano não era só inflação. Isso aconteceu aos poucos, as privatizações começaram a acontecer depois do Plano Real, foi criada a lei de responsabilidade fiscal, os bancos estaduais quebraram e arrumou-se uma solução, foram criadas as agências reguladoras. Eu acho que a população, quando apoiou, estava preocupada mais com a inflação. Mas, do ponto de vista das pessoas que acompanham mais de perto a economia, elas apoiaram porque viram de um lado que tinha um ajuste fiscal, entenderam que aquilo era parte de um plano de Brasil moderno. Se você observar, todo o modo de funcionar do Brasil de hoje foi feito naquela época. Foram quebrados os monopólios de telecomunicações e do petróleo.
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