O Globo
Editorial
Mal atendimento no Into e no Inca prova que é impossível um sistema ser eficiente dentro das normas burocráticas e esclerosadas que regem o funcionalismo público
Nem mesmo a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição em campanha, deixa de reconhecer a precariedade do sistema público de saúde. Na entrevista ao “Jornal Nacional", segunda-feira, admitiu que o atendimento à população sequer é “minimamente razoável”.
Nesta mesma semana da entrevista, O GLOBO mostra dois exemplos dramáticos dessas deficiências clássicas: mais uma vez, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad (Into) não consegue dar vazão às necessidades de cirurgias — há 14 mil na fila de espera —, falha idêntica do Instituto Nacional do Câncer (Inca), outrora um centro de excelência.
Os números frios das estatísticas escondem terríveis dramas pessoais. Como o do menino com 7 anos de idade, cujos pés têm má formação, que espera há cinco passar no Into por uma prescrita intervenção cirúrgica. Ou dos pacientes de câncer que morrem antes de ser operados no Inca.
O tempo passa, as campanhas eleitorais se sucedem, e a saúde pública, serviço essencial para a população, continua a ser debatida, porque não sai da agenda de problemas do país. A proposta usual é a injeção de mais dinheiro no SUS — uma temeridade sem que haja preocupação com as gritantes deficiências gerenciais observadas no sistema.
No Into, não é a primeira vez que surge a necessidade de mutirões para fazer andar a fila de cirurgias. O certo é, no mínimo, gerenciar melhor a questão. O Inca, por sua vez, começou a sair dos trilhos quando, em 2006, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que acabasse a terceirização de funcionários, feita por meio da Fundação Ary Fauzino.
Fez-se um acordo para a extinção do sistema até 2015. Mas os problemas já ocorrem, causados pela impossibilidade de o centro médico poder pagar salários mais elevados a bons profissionais.
Queiram ou não os interesses sindicais e corporativistas que atuam na saúde pública, é impossível prestar um atendimento “minimamente razoável” dentro das normas burocráticas e esclerosadas que regem o funcionalismo público. É por isso que as instituições públicas com melhor desempenho atuam como fundações ou organizações sociais. Caso da Fundação Sara Kubitschek e de alguns hospitais em São Paulo.
Por estarem dentro de um ambiente legal de governança flexível, pagam maiores salários, mas também cobram desempenho e o atingimento de metas. E por isso atendem o cidadão como deve ser. Até mesmo o governo do PT teve de criar uma empresa para administrar de maneira profissional os hospitais universitários.
As discussões na campanha sobre o tema ficarão mais ricas e abrangentes se o enfoque for além de questões orçamentárias. Tudo começa com a pergunta sobre se os bilhões colocados no SUS estão sendo bem gastos.