domingo, agosto 10, 2014

O alcance limitado do jogo de Putin

O Globo
 Editorial

Popularidade do presidente vai a 87% após queda de braço com Ocidente na Ucrânia, mas sanções poderão afundar a economia russa e complicar sua liderança

O clima de volta à Guerra Fria ganha força à medida que o Ocidente e a Rússia trocam chumbo devido à crise na Ucrânia. Moscou considerou uma afronta a aproximação entre a Ucrânia e a União Europeia, vista como uma intervenção num “espaço vital” russo, e passou a reagir de forma drástica e ameaçadora. Primeiro, reanexou a Crimeia, cedida em 1954; depois, enviou tropas com uniformes descaracterizados para “proteger a população russa do Oeste e Sul da Ucrânia”. A intenção, na verdade, é transformar essas regiões em satélites da Rússia ou, simplesmente, anexá-las. Os combates com forças ucranianas já mataram mais de 1.100 pessoas, com cerca de 300 mil refugiados.

Se o timing da aproximação Ucrânia/UE pode ser questionado, a reação do presidente russo, Vladimir Putin, não deixa dúvida sobre sua estratégia de usar seu comando imperial sobre o país para insuflar o nacionalismo russo contra supostas ameaças do Ocidente, conduzindo a crise ucraniana no fio da navalha: ora se mostra simpático a tentativas de cessar-fogo; mas mantém o suprimento de armas e apoio logístico a suas forças descaracterizadas. A crise chegou ao auge quando os rebeldes pró-Moscou, usando um míssil terra-ar russo, derrubaram um Boeing 777 da Malaysian Airlines no dia 17 de julho, matando as 298 pessoas a bordo.

A partir daí, e da relutância de Putin de ordenar a seus comandados permissão para total acesso de investigadores independentes ao local da queda do jato, os EUA e a UE adotaram sanções comerciais e financeiras pesadas contra a Rússia. O “czar” acaba de retaliar com o banimento de todas as importações de alimentos dos EUA, UE, Austrália, Canadá e Noruega, por um ano, medida que poderá beneficiar grandes exportadores de alimentos, como o Brasil. Na área militar, houve perigosos incidentes envolvendo aviões e navios americanos e russos, numa reedição de cenas da Guerra Fria.

Internamente, do ponto de vista político, tudo vai bem para Putin e sua democracia de fachada. Pesquisa do centro independente Levada, feita entre os dias 1º e 4º com 1.600 pessoas, atribuiu ao líder russo uma aprovação de 87%, resvalando a favor, também, do premier Dmitri Medvedev, que viu o seu índice subir de 48% (em janeiro) para 71% este mês.

O jogo de Putin, porém, tem alcance limitado. As sanções comerciais e financeiras contra empresas e pessoas têm um custo para o país, inclusive com aumento da inflação, o que poderá inverter a escalada da popularidade. A economia russa não tem hoje como sustentar uma guerra comercial e financeira contra o Ocidente, embora a Europa dependa do gás russo para 40% de seu abastecimento.

Putin, espião treinado, mantém o desafio para ver quem pisca primeiro. Suas chances não parecem boas.