Wagner Pires
Tribuna da Internet
A medida tomada pelo Banco Central de liberar R$ 30 bilhões para o mercado de crédito, por meio do afrouxamento do instituto do desconto compulsório do Banco Central, pode não dar o resultado que se espera.
O desconto compulsório é o recolhimento obrigatório a que todos os bancos comerciais são obrigados a fazer nos depósitos à vista e nas poupanças que seus clientes depositam. Assim, se um hipotético Sr. Joaquim deposita em poupança R$ 1.000,00 no HSBC, por exemplo, tal banco é obrigado a recolher 44% desse valor em uma conta única ao Banco Central, de tal modo que esse montante não sirva para o HSBC como recursos de empréstimo.
Sendo assim, sobram apenas os R$ 660,0 restantes para o banco comercial trabalhar oferecendo empréstimos a outros clientes tomadores.
Isso faz com que o volume de dinheiro disponível para empréstimo caia, reduzindo o padrão de consumo da população. E esta é a ideia do desconto compulsório instituído pelo Banco Central.
AFROUXAMENTO
Agora, com a medida de afrouxamento o Banco Central libera R$30,0 bilhões para os bancos comerciais emprestarem aos tomadores de empréstimos.
Acontece que, como disse o economista-chefe da Corretora Tullett Prebon, Fernando Montero, ao manter a taxa Selic em 11%, o BC abre um ponto de inflexão entre as duas medidas, pois, se liberou mais recurSos para se emprestados de um lado, continua a restringir o crédito ao inibir a tomada de empréstimos, porque a taxa de juros Selic continua alta, o que faz manter também altos os juros de empréstimos praticadas pelos bancos.
É como se uma medida anulasse a outra. Portanto, a decisão do BC é muito mais emocional do que racional.
E mais, o economista Fernando Motero não acrescentou o que já postulamos, porque não só o crédito está muito caro e, portanto, proibitivo, como as famílias estão com seus orçamentos apertados pelo endividamento já feito. Endividamento que compromete 46% de seus orçamentos familiares anuais.
CARGA TRIBUTÁRIA
Acrescente-se a decomposição do orçamento das famílias brasileiras pelo comprometimento também com o pagamento da carga tributária, que, como calcula o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) chega a 41% do orçamento.
Logo, se somarmos os dois compromissos teremos, por espanto, 87% (!) do orçamento das famílias já comprometidos com as dívidas e com o pagamento de tributos.
Sobram apenas 13% (!) para as famílias manobrarem os custos com a manutenção da casa e despesas básicas de existência como alimentação, vestuário, saúde, educação e transporte.
Veja que, sobre esses 13%, há, também, o efeito corrosivo da inflação!
Isso explica o porquê de no primeiro trimestre do ano corrente o IBGE ter apontado para um recuo do consumo e agora os índices do IBC-BR do BC terem apontando para uma recessão da nossa economia.
O poder de consumo da sociedade brasileira esgotou-se. E se não há consumo (demanda), não adianta criar oferta, e a economia entra em recessão. Simples assim.
