Elio Gaspari
O Globo
A Igreja Universal do Reino de Deus inaugurou em São Paulo seu Templo de Salomão. É uma construção monumental, capaz de receber dez mil pessoas, o dobro da lotação da Basílica de Aparecida. Sua fachada tem 56 metros de altura, 13 metros mais que a de São Pedro, em Roma. Custou zero à Viúva e foi erguida com dinheiro da fé do povo.
O Templo de Salomão haverá de se tornar um símbolo da cidade e da fé dos brasileiros. Esse aspecto supera as tramoias administrativas praticadas na sua construção (o templo foi erguido como se fosse apenas a reforma de uma edificação demolida.) A fé dos evangélicos costuma ser depreciada, como se fosse produto da ingenuidade do andar de baixo. É pura demofobia. As denominações evangélicas expandiram-se associando fé religiosa e autoestima a um sentido de comunidade. Há bispos evangélicos vigaristas, sem dúvida, mas até hoje o Papa Francisco batalha para limpar a Cúria vaticana. O padre Marcial Maciel, um pedófilo promíscuo, quindim da plutocracia mexicana e figura influente no pontificado de João Paulo II, não pode ser usado para discutir a espiritualidade dos seus fiéis. O bronze das magníficas colunas do baldaquim de São Pedro foi tirado do Pantheon romano. A catedral da Cidade do México foi construída com as pedras coletadas na destruição do templo asteca de Tenochtitlan.
Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. O Templo de Salomão, como a Basílica de São Pedro e a Catedral do México, são símbolos da fé dos povos. Quem não consegue entender a fé alheia pode se habilitar a um pacote turístico de três dias em Gaza.
Os empreiteiros no escurinho do recesso
O senador Pedro Simon ensinou: “não esperem nada do Congresso”. É pior, esperem de tudo. Está na pauta do Senado para terça-feira a votação do projeto PLS 559. Pelo nome, altera a Lei de Licitações para uso de dinheiro público. Pelo texto, simplesmente revoga a lei 8.666, colocando no seu lugar um novo sistema de contratações de serviços e empreitadas. A 8.666 não é nenhuma Brastemp, mas o que vem por aí é um mecanismo que alivia as exigências feitas às empreiteiras, expande o poder dos comissários e generaliza as facilidades criadas pelo regime especial das obras da Copa. Sua tramitação teve a rapidez do raio. Começou em dezembro, não seguiu o ritual das comissões técnicas e arrisca ser votado naquilo que os senadores chamam de “esforço concentrado” (nome dado ao esforço que concentra seus interesses).
Isso tudo ao apagar das luzes de uma legislatura e no meio da colheita das campanhas eleitorais. Mesmo sabendo-se que existe uma indústria de projetos, é discutível que se façam “contratações integradas” pela vontade dos empreiteiros e burocratas apressados. O edital da licitação do sistema BRT de Belo Horizonte saiu num dia 5 de maio, os concorrentes tinham até dia 31 para apresentar os projetos, e a contratação ocorreu a 27 de junho. Monstrengos como o aeroporto de Guarulhos saíram das planilhas das construtoras. Joias como o projeto de 1937 do aeroporto do Centro do Rio, de concursos públicos. Há poucas semanas, apareceu uma emenda que permite ao vencedor de uma licitação destinada a construir um aeroporto, ou seja lá o que for, a exploração comercial da obra. Assim, a empreiteira faz a obra e leva o shopping. Tudo isso com uma só licitação.
Esse voluntarismo rondou o Trem-Bala. Não havia projeto nem estudo de viabilidade, mas o faraó queria fazer a obra. Felizmente, num caso raro, os empreiteiros não se interessaram pela pirâmide.
Eremildo no Santander
Eremildo é um idiota e acredita que o doutor Emilio Botín, presidente do banco Santander, armou uma ratoeira que poderá destruir seu banco e o sistema financeiro internacional. O doutor Botín anunciou que demitiu o responsável pelo desenho de um cenário pessimista para a economia brasileira caso o PT vença a eleição presidencial.
O cretino teme que a Doutrina Botín resulte na demissão de funcionários que, por quaisquer razões, façam previsões impróprias. Irão para a rua milhares de sábios-consultores, começando pelos que deram opiniões sobre a economia espanhola.
Eremildo exclui a possibilidade de o doutor Botín ter amarelado por pura pusilanimidade.
Natasha no Santander
Madame Natasha encantou-se com uma declaração do ministro Admar Gonzaga, que ocupa uma cadeira no Tribunal Superior Eleitoral por indicação da Ordem dos Advogados do Brasil.
Referindo-se ao patrulhamento de uma análise do banco Santander enviada aos seus clientes, ele teve o seguinte diálogo com o repórter Juliano Basile:
— As consultorias não podem elogiar ou criticar candidatos?
— Não podem adjetivar.
A senhora concedeu uma bolsa de doutorado ao ministro, para que ele ensine aos outros como se expressar sem o uso de adjetivos.
Padrão Santander
Se previsão errada (segundo a métrica petista) é motivo de demissão, o ministro Guido Mantega não deve ir trabalhar amanhã, pois perdeu o emprego há anos.
Mais: pela retórica eleitoral da doutora Dilma, Lula deveria justificar a sua teoria segundo a qual a crise de 2008 provocaria apenas uma “marolinha” no Brasil.
Lulômetro
Com o banco Santander ajoelhando no milho para agradar ao Planalto, ressurgiu a memória do infame Lulômetro, criado na casa Goldman Sachs em junho de 2002, durante a campanha que elegeria Lula.
A Goldman Sachs não deve ir para uma vala que não é a sua. O Lulômetro tinha duas elegantes equações, com quatro variáveis que ficavam à escolha do interessado. Preenchidas, forneciam o valor do dólar caso Nosso Guia fosse eleito. Refletiam a expectativa do curioso, não a do banco. Quem acreditasse que Lula manteria a política de Fernando Henrique Cardoso obteria um dólar barato. Muita gente ganhou dinheiro com essa expectativa.
Instrumento de terror eleitoral, o Lulômetro só produzia efeito se a pessoa estivesse aterrorizada.
Para o bem de todos, a Goldman Sachs apanha até hoje por causa do gracejo. Teria repreendido o autor internamente, mas nunca pediu desculpas.
Recordar é viver
Em 1973, o Bradesco negociava a compra do Banco da Bahia. O governador Antonio Carlos Magalhães não gostou da ideia de um banco paulista ficar com a tradicional casa baiana. Começaram depredações de agências do Bradesco em Salvador.
Amador Aguiar, o criador e dono do Bradesco, foi discutir a operação com ACM, e deu-se o seguinte diálogo:
— Doutor Amador, o povo baiano zangou-se com a venda do Banco da Bahia. Estão quebrando suas agências.
Amador interrompeu-o:
— Governador, não trate esse assunto comigo. A manutenção da ordem pública na Bahia é um problema seu.
(ACM contava essa história para mostrar a têmpera de Amador Aguiar.)