quinta-feira, agosto 28, 2014

Vilões da inflação

Alvaro Gribel e Marcelo Loureiro 
O Globo

Se os alimentos fossem a causa principal para a inflação rondar o teto da meta, a queda dos preços no atacado seria a solução do problema. Os IGPs estão em deflação há três meses e a projeção para o índice de agosto, que será divulgado na quinta-feira, é de queda. Acontece que o IPCA tem outras fontes de pressão. Os vilões da vez são os administrados, sem falar nos serviços, que há muito tempo não aliviam.

Há dois indicadores principais de inflação no país. O IPCA é o índice oficial, do IBGE, que mede os preços aos consumidores. O IGP-M é uma taxa apurada pela FGV e que carrega um peso maior dos preços no atacado, tanto agrícolas quanto industriais. É o IGP-M que cai há três meses e deve ter nova deflação em agosto, de acordo com o economista Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil. Ele estima uma redução de 0,3%, o que daria uma queda de 1,8% nos últimos quatro meses.

A redução do índice no atacado acontece depois de dois anos de choques de oferta agrícola. A produção mundial de alimentos — principalmente de grãos — teve um ano mais favorável em 2014 e isso provocou queda nas cotações. Nos EUA, por exemplo, houve supersafras de soja e milho. A fraqueza da economia brasileira este ano também promoveu queda nos preços industriais no atacado, medido pelo IPA industrial.

Essa mudança de panorama fez as projeções para o IGP-M despencarem no Boletim Focus. Em meados de maio, o mercado chegou a estimar alta de 7% para o índice no final de 2014. Agora, essa taxa caiu para 3,5%. A pergunta que se faz é: por que as projeções melhoram no atacado, enquanto as estimativas para o IPCA continuam acima de 6% tanto para 2014 quanto para 2015? 

— O que aconteceu é que, a partir do momento em que caíram os preços no atacado, o mercado começou a projetar a alta da gasolina este ano — conta Leal.

Saiu uma fonte de pressão e entrou outra que estava na fila. Com a redução dos alimentos, o governo deve aumentar a gasolina para aliviar a Petrobras. Além do combustível, ainda há um cronograma pesado de reajustes da energia elétrica. A inflação de serviços é outro foco de problemas pois há mais de dois anos continua subindo cerca de 8% ao ano.

A redução no atacado não permite estimar quando o IPCA voltará ao centro da meta, em 4,5%. Por isso, ontem a estimativa para a Selic em 2015 subiu a 12%.

PIB minguante
O relatório Focus divulgado ontem trouxe a décima terceira queda consecutiva na expectativa para o PIB deste ano. Pela mediana das projeções, a economia crescerá apenas 0,7%. O gráfico abaixo mostra melhor essa perda de confiança. Em 2011, as previsões chegaram a apontar 4,6% de crescimento para 2014.

Biruta de mercado
Quanto menor os juros dos títulos públicos de um país, maior a confiança dos investidores nessa economia. Por incrível que pareça, os juros de 10 anos de Portugal caíram abaixo de 3% ontem, na mínima histórica, enquanto os do Brasil estavam a 3,81%. A boa avaliação se estende aos países da zona do euro e é resultado da promessa do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, de dar estímulos e evitar o risco de deflação. Parece — e é — um daqueles casos em que o mercado perde completamente a referência sobre o preço dos ativos. 

NO VERMELHO. 
A balança comercial tem déficit de US$ 785 milhões no ano, com queda na exportação, na importação e na corrente de comércio.

AMOR AOS LIVROS. 
Antônio Ermírio de Moraes teve que voltar de navio dos EUA ao terminar seus estudos. Trazia caixas e caixas de livros na bagagem.