quarta-feira, junho 13, 2018

Turbulência nos mercados: as diferenças entre o Brasil de hoje e o da eleição de Lula em 2002

Luciana Rodrigues 
O Globo

Banco criou o ‘lulômetro’ e país recorreu ao FMI em junho daquele ano

  Patricia Monteiro / Bloomberg
Painel eletrônico da B3 (antigo BM&FBovespa) 
RIO - No dia 6 de junho de 2002, um texto que circulou entre operadores em Nova York dava a medida do pânico que se abateu no mercado financeiro diante da expectativa de que Lula seria eleito o próximo presidente do Brasil. “Introducing the Lulameter” era o título do relatório do Goldman Sachs. O “lulômetro”, índice criado pelo banco, estimava o valor do dólar caso Lula fosse eleito: chegaria a R$ 3,04 no dia 28 de outubro, após o segundo turno.

Lula venceu com ampla vantagem no segundo turno. Antes da eleição, a cotação superou R$ 4 e fechou em R$ 3,99 no dia 10 de outubro de 2002, que hoje corresponderiam a aproximadamente R$ 7, em valores atualizados.

Analistas já preveem que o nervosismo no mercado financeiro com as eleições presidenciais este ano será o maior desde 2002. Mas os números mostram uma economia hoje bem mais resiliente.

Se agora o Brasil tem mais US$ 380 bilhões em reservas internacionais, ou 20% do PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país ao longo de um ano), em 2002 esse colchão de proteção era bem menor: US$ 33 bilhões.

Não por acaso, ao se ver no escanteio em 2002, o Brasil teve de recorrer ao Fundo Monetário Internacionl (FMI). No dia 12 de junho daquele ano, enquanto o país se preparava para assistir à seleção entrar em campo na madrugada do dia seguinte para o último jogo da primeira fase da Copa do Japão, o governo decidiu sacar US$ 10 bilhões de uma linha de crédito com o FMI.

Nas contas externas, o déficit nas trocas com o resto do mundo chegava a 3,70% do PIB em 2002. Hoje, o rombo na conta corrente é bem menor: 0,43% do PIB.


Fragilidade fiscal

É no front fiscal, porém, que as fragilidades da economia brasileira hoje são mais gritantes. O déficit nas contas públicas chega a 7,51% do PIB, contra 2,46% do PIB em 2002. Com a importante ressalva de que os juros básicos da economia brasileira estão hoje no piso histórico: 6,5% ao ano, contra 18,5% em junho de 2002. Taxas menores de juros são um enorme alívio para o endividamento público.

A inflação sob controle (2,86% nos últimos 12 meses, contra quase 8% há 16 anos) também é um termômetro da economia mais estável. O crescimento econômico, ainda que em ritmo bem aquém do necessário para diminuir o elevado desemprego do país, segue em ritmo mais firme agora (1,30% no acumulado dos últimos quatro trimestres) do que em 2002 (0,70%).

O problema é que, quando se trata do mercado financeiro, muitas vezes as expectativas pesam mais do que os fundamentos da economia.