Carlos José Marques
Revista ISTOÉ
(Crédito: Divulgação)
Na quadra de tempo que cobre a frenética passagem do capitão pelo poder, ele forneceu inúmeras evidências de como age para coibir, alterar, admoestar, repreender e ignorar princípios civilizatórios. Nada – nem mesmo semelhante! – em termos de crepúsculo no Brasil, do Império à República, em qualquer período, se compara ao deliberado trabalho para sabotar os pressupostos da modernidade por aqui. Agora o ataque mira a Educação, pilar essencial do desenvolvimento. Não é a primeira vez.
O governo tenta, desde sempre, impor a sua carranca assombrosa de ignorância até mesmo nas provas que medem o grau de aprendizado dos estudantes. Jactava-se, nos últimos dias, de censurar, transformar versões e fixar uma abordagem distorcida inclusive no rol de eventos históricos – e outros nem tanto – dentro de uma área que é absolutamente vital à evolução humana em qualquer parte do mundo. Como interferir nos episódios que integram plataformas lapidares do ensino? Chamar, por exemplo, golpe e ditadura militar pelo epíteto de revolução? É, basicamente, reinventar a história. Não pairam mais dúvidas: o presidente tenta doutrinar o sistema educacional e, dessa forma, reescrever e subverter o curso dos acontecimentos, adaptando-os a sua vontade e interesse. Justamente na Educação vem promovendo, há tempos, um desmonte brutal de estrutura, perseguindo e enxovalhando os métodos didáticos, livros e cartilhas. Bolsonaro busca, em pessoa, espremer a qualidade e os critérios do aprendizado até não restar nada de bom nesse aspecto.
Na temporada bolsonarista pelo Planalto, prepostos sob o comando do capitão já fizeram de tudo um pouco em termos de conspiração pela debacle do ensino. O ex-ministro e bedel da Corte, Abram Weintraub – aquele que saía cantando na chuva, confundindo o escritor tcheco Franz Kafka com a iguaria árabe “kafta”, enquanto profanava o decoro do Supremo, chamando ministros de “vagabundos” – chegou a alegar, falsamente, que universidades cultivavam plantações de maconha. Mandou para os píncaros da idiotice questões nos exames anuais do Enem e a logística da operação. Torpedeou a escola pública. O sucessor de Weintraub não fez por menos. Apontou que “crianças com deficiência são de impossível convivência” e pregou o apartheid delas nos colégios. Decretou que “gays vêm de famílias desajustadas”, quando questionado sobre a importância da educação sexual na sala de aula, e ainda sacramentou que professores “trans” não poderiam incentivar alunos a “andarem por esse caminho”.
Um horror de desaforos deixando latente o preconceito que marca aquela tropa. Bolsonaro, por sua vez, desde os primeiros dias, tratou de macular com impropérios desprezíveis a figura do patrono da Educação brasileira, de projeção internacional, o mestre Paulo Freire, a quem sempre se referiu como um comunista que não vale nada. O grupamento de trogloditas que compõe o pelotão de frente do dito Messias promove uma espécie de abate sem clemência da Educação no País. Não tenha dúvida! A cruzada de estragos na qual se engajaram não para por aqui. Chegaram a trocar professores por policiais como aplicadores do teste do Enem.
Nessa toada, em breve, vão prender estudantes que não responderem às perguntas da maneira que o capitão deseja. Na prática, a lição que o mandatário merece é a do ostracismo. O Brasil precisa devolvê-lo ao esgoto da insignificância, onde sempre atuou. O ativismo político e comportamental que trouxe para dentro do ensino reflete o quão prejudicial pode ser sua influência na vida de milhões de brasileiros. Como em todas as áreas nas quais se envolveu, da Saúde à Economia, e agora na Educação, restaram cinzas das duras conquistas construídas até a sua chegada ao poder.