domingo, novembro 28, 2021

O Brasil não conhece o Brasil

 Eduardo Affonso

O Globo

Abancado à sua escrivaninha, em São Paulo, ali por volta de 1927, Mário de Andrade sentiu, de supetão, um friúme por dentro. Lembrou-se de que, lá no Norte, na escuridão da noite que caía, um homem pálido, magro, de cabelos escorrendo nos olhos, depois de fazer uma pele com a borracha do dia, fazia pouco se deitara, estava dormindo. Esse homem era brasileiro que nem ele.

O escritor fez esse descobrimento mais de quatro séculos depois de Cabral e o anotou no livro “Clã do jabuti”. Os brasileiros, entretanto, continuaram sendo gens ignota para boa parte dos seus conterrâneos.

Semana passada, na mansidão da tarde que caía, uma moça de 26 anos e longos cabelos lisos, depois de se despedir do filho, pegara o violão e decolara para mais um dia de labuta. No meio do caminho, tinha um fio de alta tensão. Tinha um fio de alta tensão no caminho entre a artista e seu público.

Ela era a autora e intérprete de uma das músicas mais tocadas no país em 2016. Aos 23 anos, a mais ouvida no YouTube. Aos 24, esteve à frente de Katy Perry, Beyoncé e Lady Gaga no ranking da Billboard, que mede a popularidade dos artistas nas redes sociais.

Aboletados sobre seus lepitopes, tábletes e aifones, país afora, milhões de pessoas souberam da morte de uma compositora de quem nunca tinham ouvido falar, de uma cantora que jamais tiveram vontade de ouvir. E manifestaram essa ignorância com uma mistura de surpresa e orgulho. Afinal, a moça era a musa de um gênero “menor”, a sofrência — tão menor que a palavra ainda nem consta dos corretores ortográficos.

Ela cantava amores, traições, dores de cotovelo, vinganças, voltas por cima, recaídas — com rimas fáceis e refrãos grudentos. E o Brasil não se reconhece nesse Brasil conservador que, paradoxalmente, lota estádios para ver e ouvir uma mulher que é senhora de seu desejo e não faz disso um discurso militante, doutrinário. E que foi bem-sucedida num meio machista, mas permeável ao carisma, ao talento, à tenacidade.

No dia seguinte a sua morte, Marília Mendonça atingiu o primeiro lugar (mundial) nos trending topics do Twitter. Em vida, só era notícia — fora da mídia de fofoca — quando assumia uma posição política (e se tornava alvo da direita) ou quando fazia uma brincadeira sobre transgênero (e atraía a ira da esquerda). No mais, estava protegida naquela bolha não frequentada pelos de “bom gosto”. Talvez por suas dores não terem o charme intelectual da fossa de uma Maysa, sua audácia carecer do apelo explícito de uma Anitta, seu feminismo dispensar o verniz ideológico de uma dúzia de ativistas canoras.

“O Brasil precisa de líderes que ouçam a voz do povo”, disse, em outro contexto, um recém-chegado à maratona presidencial. Precisa, antes, que os brasileiros ouçam a própria voz. E não se envergonhem dela. E saibam que, quando derem vez ao morro, ao cerrado, ao sertão, ao agreste, ao pampa, todo o país vai cantar.

Para falar dessa artista brasileira que ia aonde o povo estava, juntei aqui as vozes de Mário de Andrade, Aldir Blanc, Carlos Drummond, Vinícius de Moraes e Fernando Brant, que já nos lembraram que “estar de frente para o mar, de costas para o Brasil, não vai fazer deste lugar um bom país”.