Alexandra Stevenson e Keith Bradsher
The New York Time
Quando os Estados Unidos e seus aliados declararam uma guerra financeira à Rússia depois da invasão da Ucrânia, o mundo quis saber o que a China faria. Como potência global crescente, uma das maneiras pelas quais a China ampliou sua influência foi estabelecendo laços financeiros estreitos com países que não estão dispostos a seguir as regras ditadas pelos Estados Unidos e por outras potências ocidentais. Acreditava-se que, com certeza, a China faria o mesmo pela Rússia.
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Passagem da fronteira com a Rússia em Manzhouli, China, marcada por dois arcos, com o lado chinês dividido por uma cerca de arame verde que se estende por centenas de quilômetros
Há apenas um grande problema: dinheiro. Especificamente, o dinheiro da China.
Para ajudar a Rússia a escapar das sanções, a China teria de oferecer um substituto viável do dólar americano. Mas o dinheiro chinês – o renminbi – quase não é usado internacionalmente. Apenas três por cento dos negócios do mundo são feitos com essa moeda. Até a Rússia e a China conduzem seu comércio principalmente em dólares americanos e euros.
Além disso, os riscos de ajudar a Rússia a evitar a ruína econômica podem ser maiores para a China do que qualquer recompensa possível. Grande parte da própria economia chinesa depende do dólar americano e das bases financeiras que o sustentam. As empresas chinesas são ativas em todo o mundo, usando o sistema financeiro dos EUA para pagar aos funcionários, comprar materiais e fazer investimentos. A China é o maior exportador mundial, e é paga por suas mercadorias principalmente em dólar.
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Em frente a uma casa de câmbio em Moscou,
Se Pequim infringir as sanções contra a Rússia, a própria estabilidade financeira chinesa será posta em risco num momento em que seus líderes enfatizam a cautela. Além disso, a ajuda que o governo chinês poderia oferecer à Rússia não seria suficiente para garantir a sobrevivência do país em face de um apagão financeiro dos Estados Unidos e de seus aliados.
Seria possível facilitar transações transfronteiriças – permitindo que a China continuasse a vender a Moscou muitas das mercadorias que produz para o resto do mundo. Poderia investir em empresas de energia russas com problemas de caixa. Poderia deixar o banco central da Rússia lucrar com parte dos US$ 140 bilhões que detém em títulos chineses. Pequim poderia até mesmo criar um banco para ajudar a movimentar dinheiro russo como fez para o Irã e a Coreia do Norte.
Nenhuma dessas medidas seria suficiente para contrabalançar as sanções contra a Rússia, que incluíram a retirada de seus maiores bancos do sistema financeiro global e a proibição das importações de petróleo e gás pelos Estados Unidos. "A China não vai salvar o barco da economia russa que está afundando. Mas poderia talvez permitir que flutuasse um pouco mais e afundasse um pouco mais lentamente", disse Eswar Prasad, economista da Universidade Cornell.
Uma amizade cada vez mais profunda entre Xi Jinping, o líder da China, e o presidente Vladimir Putin, da Rússia, ajudou a aproximar os países mais do que durante os anos 1950, quando Mao cooperou estreitamente com Josef Stálin e, em seguida, com Nikita Khrushchov. O aquecimento dos laços diplomáticos foi construído sobre um desejo compartilhado de pôr fim ao que a China e a Rússia veem como a hegemonia econômica e geopolítica dos EUA.
Quando Xi e Putin se encontraram na véspera dos Jogos Olímpicos de Pequim, declararam que o vínculo entre os dois países não tinha "nenhum limite". A invasão russa da Ucrânia, dias depois do fim dos Jogos, levou os EUA e outras nações industrializadas a impor ondas de sanções destinadas a devastar a economia russa.
A China tem criticado repetidamente essas atitudes. O primeiro-ministro Li Keqiang o fez novamente em sua conferência de imprensa anual: "As sanções severas prejudicarão a recuperação econômica mundial, o que não é do interesse de ninguém."
Mas criticar as sanções é uma coisa. Outra é optar por ir contra a ordem financeira global e se arriscar a sanções em casa. Pequim já deu alguma indicação de que não está disposto a enfrentar esse último cenário. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, que Washington vê como um rival do Banco Mundial, anunciou que suspenderia seus empréstimos à Rússia e a Belarus por causa da guerra na Ucrânia. Alguns bancos chineses reduziram o financiamento de commodities russas.
"Os bancos chineses estão tentando reduzir sua exposição à Rússia. Dá para perceber que a teoria da China oferecendo uma alternativa financeira à Rússia permanece questionável", comentou Raymond Yeung, do ANZ Bank.
O principal regulador bancário da China afirmou que os bancos não necessariamente cortariam seus laços com os homólogos russos. "Não participaremos dessas sanções e continuaremos a manter trocas econômicas, comerciais e financeiras normais com as partes relevantes", garantiu Guo Shuqing, presidente da Comissão Reguladora de Bancos e Seguros da China.
À medida que as sanções vão se somando, a manutenção desses laços econômicos sem maiores riscos será dificultada, e as opções da China para ajudar a Rússia estão diminuindo. Os países ocidentais bloquearam a Rússia do sistema de mensagens financeiras e pagamentos Swift, efetivamente excluindo seus bancos das transações internacionais.
A China vem desenvolvendo um serviço alternativo de mensagens para que as instituições financeiras comuniquem transações transfronteiriças. Mas esse serviço opera em pequena escala e depende em parte da tecnologia vinculada às sanções. Depois que a Visa e a Mastercard interromperam suas operações na Rússia, vários bancos russos recorreram ao UnionPay da China, que oferece opções de pagamento em cerca de 180 países. Para que a China possa oferecer um processamento próprio de pagamento, as transações não devem ser em dólares, a fim de evitar punições.
Depois, há o dinheiro que a Rússia tem no país vizinho. Mediante reservas de bancos centrais, investimentos do governo e um acordo de empréstimo de longa data, a Rússia pode rapidamente levantar na China o equivalente a mais de US$ 160 bilhões, ou cerca de 16 meses de vendas de petróleo e gás natural russos para a União Europeia e os Estados Unidos.
Grande parte desse dinheiro – cerca de US$ 140 bilhões – está atrelada a títulos e em renminbi denominado. O resto está empatado em acordos entre os bancos centrais dos dois países, que se comprometem com empréstimos sem juros de curto prazo no valor de US$ 24 bilhões em caso de emergência.
Uma opção mais diplomaticamente arriscada seria a China lavar dinheiro para a Rússia por intermédio de um pequeno banco chinês criado especificamente para escapar das sanções. Foi o que a China National Petroleum Corp. fez em 2009, quando comprou um pequeno banco na província de Xinjiang, no noroeste do país, e mudou seu nome para Banco de Kunlun. Este ajudou o Irã a realizar centenas de milhões de dólares em transações.
Em um cenário semelhante, uma companhia petrolífera chinesa poderia pagar a uma empresa de fachada e a seus diretores corporativos na China uma "taxa de consultoria" bem alta para negociar petróleo em seu nome, em vez de pagar a uma companhia petrolífera russa diretamente por petróleo bruto. No fim, tal operação provavelmente seria encerrada. Foi o destino do Banco de Kunlun depois que o Tesouro dos EUA o sancionou em 2012.
Em outro cenário, as empresas chinesas com o apoio estatal poderiam captar as participações do Ocidente em algumas das maiores empresas de petróleo e gás da Rússia. Gigantes americanas e europeias como a Shell e a BP anunciaram que sairão de suas joint ventures na Rússia por causa da invasão, mas não há muitos compradores óbvios além de estatais da China.
"Você tem algumas das empresas de energia mais valiosas do mundo negociando suas participações agora por meras frações de seu valor real. Os países desenvolvidos não vão tocar nessas empresas, de modo que, basicamente, só sobra a China. Talvez seja muito ruim em matéria de relações públicas, mas o preço pode ser muito bom", disse Taylor Loeb, analista da empresa de consultoria Trivium.
Enquanto Pequim contempla até que ponto está disposta a ir para manter sua amizade "sem limites" com a Rússia, há uma dura realidade: o renminbi não pode salvar a moeda russa, o rublo. O valor deste despencou, levando consigo grande parte da riqueza do país. A única maneira de a Rússia estabilizá-lo? Comprando dólares americanos.
c. 2022 The New York Times Company

