segunda-feira, março 28, 2022

Os pastores das sombras

 Elio Gaspari

O Globo

O ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, terceirizou o acesso a recursos de sua pasta, transformando os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura em corretores junto a prefeitos

  Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo / 24/11/21

Desgaste. Um dos únicos respaldos recebidos pelo ministro Milton Ribeiro

 foi do presidente Jair Bolsonaro, que declarou colocar a "cara no fogo" por ele 

O último escândalo é sempre o mais popular. O ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, terceirizou o acesso a recursos de sua pasta, transformando os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura em corretores junto a prefeitos de pelo menos 15 cidades de oito estados.

Gilmar é presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil e dirige o Instituto Teológico Cristo para Todos. Arilton é assessor de Assuntos Políticos da Convenção Nacional e preside o seu conselho político. A dupla teria chegado ao ministério depois de um pedido do presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos meses, reuniram-se 19 vezes com Ribeiro e, em alguns casos, a agenda do ministro registrava o assunto: “alinhamento político”.

Ribeiro, como seus três antecessores no ministério de Bolsonaro, é uma usina de incontinências verbais, mas nenhum deles foi apanhado criando a figura de corretores de verbas para construir ou reformar creches e escolas, bem como para conseguir equipamentos eletrônicos. Repetindo: equipamentos eletrônicos.

Os prefeitos de dois municípios revelaram que a dupla cobrava um capilé que ia de R$ 15 mil a R$ 40 mil para abrir os processos, bem como taxas de sucesso quando a verba fosse liberada. Pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento e Educação, o FNDE. Repetindo: FNDE. Num caso, Arildo pedia um quilo de ouro (cerca de R$ 300 mil). Noutro pediu que lhe comprasse mil bíblias, a R$ 50 cada uma.

(Tramita na Câmara dos Deputados um projeto que prevê pena de até cinco anos de cadeia para quem usar indevidamente a palavra Bíblia.)

O ministro se explicou revelando que pode ter sido enganado e que em agosto passado pediu à Controladoria-Geral da União que investigasse denúncias. Contudo, em novembro Ribeiro recebeu Arildo acompanhado de um prefeito e 16 dias depois o FNDE liberou R$ 200 mil para sua cidade.

Uma semana depois da primeira notícia dessa bizarria, o presidente Jair Bolsonaro proclamou:

“Estamos há três anos e três meses sem corrupção no governo federal.”

Não é bem assim.

O cofre do FNDE foi atacado em 2019

Bolsonaro estava a poucas semanas do primeiro aniversário do seu governo quando, em dezembro de 2019, o repórter Aguirre Talento revelou que a Controladoria-Geral da União havia capturado um jabuti numa licitação de R$ 3 bilhões (mais ou menos dez toneladas de ouro, na cotação de hoje). O ervanário sairia do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o FNDE, aquele onde até poucos meses agiam os pastores do ministro Milton Ribeiro. Destinava-se também à compra de equipamentos eletrônicos para a rede pública de ensino. O leilão eletrônico foi anunciado em agosto e aconteceu em setembro. A CGU pegou o jabuti antes que se batesse o martelo do certame.

Num memorável trabalho de 66 páginas, os analistas da CGU descobriram o seguinte:

A escola municipal Laura de Queiroz, de Itabirito (MG), com 255 alunos receberia 30.030 laptops. Seriam 117 laptops para cada estudante. Mais: 355 escolas receberiam um número de laptops superior ao de alunos.

O edital tinha também sinais de direcionamento. Um fornecedor se apresentava em papel timbrado de outro, que também participava da licitação, usando o mesmo CNPJ. Ambos cometeram o mesmo erro de português nas cartas de proposta: “Sem mais, para o momento, colocamo-nos à disposição para quaisquer esclarecimentos que se façam necessária.”

O jabuti do edital do FNDE foi abatido por um organismo de controle do governo Bolsonaro. Depois de ter sido suspenso, o edital foi cancelado e não se falou mais no assunto, até que apareceram os pastores que agenciam verbas do FNDE, inclusive para compra de equipamentos eletrônicos.

A frase do presidente — “Estamos há três anos e três meses sem corrupção no governo federal” — ficaria redonda se os responsáveis pelo edital tivessem sido identificados, oferecendo explicações públicas para suas condutas. 

Isso nunca aconteceu, apesar de terem sentado na cadeira dois ministros da Educação e três presidentes do Fundo. O atual chefiava o gabinete do senador Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil de Bolsonaro e um dos marqueses do Centrão.

Em tempo: O FNDE tem um orçamento de R$ 55 bilhões.

Salto alto

O Datafolha informa:

Lula 55% (contra 59% na pesquisa anterior), Bolsonaro 34% (contra 30% na anterior).

A vida real revela: um cidadão de boa biografia convidou Lula para uma palestra e ouviu do comissário:

Vamos analisar.

Assessor de candidato a vereador diria :

Vamos voltar a nos falar e combinamos.

Gênios militares

O comando do Exército tirou do ar o site Observatório de Doutrina do Exército onde um çábio previu que as tropas russas tomariam Kiev num prazo de cinco a dez dias contados a partir do início da invasão.

O autor não deve ficar triste. No final de 1941, uns seis meses depois da invasão da Rússia pelas tropas alemãs, os çábios do Estado-Maior do general Góes Monteiro, gênio militar do Estado Novo, previram que com a chegada da primavera, em abril de 1942, “as operações serão reabertas com o objetivo de pôr fora de causa a URSS no ano corrente, no mais curto prazo, como fator essencial para o desenvolvimento ulterior da guerra.”

No final de 1941 havia começado a batalha de Moscou, e a ofensiva alemã nessa frente foi paralisada. As tropas que seguiram para Stalingrado se renderam no inverno seguinte.

Os Estados Unidos entraram na guerra e quem foi posta fora de causa foi a Alemanha.

Salomão disse tudo

O ministro Luis Felipe Salomão, do Superior Tribunal de Justiça, disse tudo ao fixar em R$ 75 mil a indenização que o ex-procurador Deltan Dallagnol deverá pagar a Lula pela sua espetaculosa exposição de PowerPoint de 2016:

— Deve-se considerar a gravidade do fato em si (...), a partir de imputações da prática de crimes que não foram objeto da denúncia, com diversos ataques a honra e vilipêndio aos direitos fundamentais de qualquer acusado; os meios utilizados na divulgação, com convocação dos principais canais de TV para transmissão ao vivo, para o Brasil e outros países, com ampla repercussão; a responsabilidade do agente, que à época dos fatos era profissional experiente, Procurador da República, capaz tecnicamente de identificar os termos utilizados em seu discurso e a repercussão das notícias que se propagava.”

Espetáculo tem preço.

Armínio enquadra Queiroga

O doutor Marcelo Queiroga defende a criação de um sistema de Open Health, pelo qual operadoras poderiam trocar informações financeiras (como fazem os bancos) e médicas de seus clientes.

Tomou um contravapor de Armínio Fraga que entende mais de banco (e de saúde pública) que ele:

Ficar doente é uma situação bem diferente de não pagar um empréstimo.

O SUS enfrenta inúmeras dificuldades. O Ministro da Saúde faria bem em dedicar a ele a sua atenção.