terça-feira, outubro 24, 2006

O ovo da serpente

Por Sebastião Nery
Publicado na Tribuna da Imprensa

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"Na manhã do começo de dezembro, em que chegamos ao hotel Sofitel, na Rua Sena Madureira, em São Paulo (depois da vitória de 2002), na qual Lula anunciaria a criação do CNDES, José Dirceu estava inconformado: `Acabou. Não tem mais aliança com o PMDB. O Lula acabou de vetar tudo o que estava acertado'.
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Como a aliança que levara o PT à vitória ficou em franca minoria no Congresso, o acordo com o PMDB era fundamental para garantir a chamada governabilidade. Durante semanas, as negociações foram conduzidas por José Dirceu, sempre em concordância com Lula. Mas, depois de tudo combinado com o presidente daquele partido, Michel Temer, Lula achou que seria demais entregar os três ministérios que eles reivindicavam, ainda mais por se tratar de áreas com grandes dotações orçamentárias.
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Foi uma decisão solitária do presidente eleito, um exemplo do que ele faria mais tarde, nos momentos de crise do governo. Novamente debitamos os gestos à intuição de Lula, que às vezes até funcionava. Desse vez, no entanto, não funcionou, como só se descobriria dois anos depois.
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Sem conseguir fechar acordo com nenhum grande partido, o novo governo acabou negociando apoio no varejo, com agremiações menores, mais à direita, como o PTB e o PP, além do PL do vice-presidente José Alencar. Ninguém podia imaginar que estava se plantando ali o ovo da serpente que, em 2005, poria em xeque o governo".
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Ipojuca
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Essa história aí também está no passional e lula-láissimo livro do jornalista Ricardo Kotscho, assessor de imprensa de Lula de 89 até este ano, que citei sábado: "Do golpe ao Planalto, uma vida de repórter" (Editora Companhia das Letras). O livro do Kotscho confessa, de dentro do PT e do Palácio do Planalto, aquilo que tantos de nós, jornalistas não petistas nem palacianos nem amaciados, dissemos estes anos todos: o PT e o governo Lula são uma panela de escândalos que não resistiu à pressão do tempo e explodiu.
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Não foi por falta de advertência. Hoje à noite, aqui no Rio, a partir das 20 horas, na Livraria Letras e Expressões do Leblon (Ataulfo de Paiva, 1292), o cineasta e articulista de "O Estado de S. Paulo", Ipojuca Pontes, culto, destemido e profético, lançará e autografará seu último livro: "A Era Lula - Crônica de um desastre anunciado" (Girafa Editora, São Paulo).
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Bastam os títulos e datas de publicação de alguns dos artigos: "Lula e os corruptos". "O PT e a marca totalitária" (novembro de 2003). "A marcha da insensatez" (janeiro de 2004). "Quadrilha organizada" (fevereiro de 2004). "Sindicato de ladrões" (agosto de 2005). ("Lula-Dirceu, o eixo do mal" (agosto de 2005). "Dirceu, expulso a bengaladas" (dezembro de 2005).
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Mercadante
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Outra história de Kotscho, de 89: "O comício de encerramento (de Lula em 89, no 2º turno), no Rio, deu a impressão de que o pior havia passado. As pesquisas apontavam empate técnico - Lula não parava de subir e Collor de cair. No imenso palanque armado na Candelária, já se falava abertamente em ministeriáveis.
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Em nome de Brizola, Roberto D´Avila veio me pedir que transmitisse a Lula a única reivindicação do PDT: o Ministério da Fazenda. Perguntei ao amigo quem era o indicado pelo ex-governador: `Você não vai acreditar, mas ele mesmo gostaria de ser o ministro'.
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O petista mais cotado para o posto era Aloísio Mercadante, que estava no avião quando contei a Lula sobre o pedido de Brizola. Eu não saberia dizer qual dos dois ficou mais atônito".
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PMDB
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Imaginem vocês a montanha de ovos de serpente que Sarney, Renan, Jader Barbalho, Newton Cardoso, Romero Jucá, Gedel Viera Lima, toda a banda insaciável do PMDB, estão chocando agora no ninho de corrupção do Palácio do Planalto, para o segundo governo, se Lula ganhar domingo.
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Já nem precisamos falar da gula da "quadrilha dos 40", comandada por José Dirceu e denunciada pelo procurador geral da República, os mensaleiros, sanguessugas, dossieiros todos os que foram enxotados do governo e do Congresso, como Dirceu, e os que voltaram à Câmara, disfarçados e impunes, como Palocci, Genoino, João Paulo Cunha, José Mentor, Waldemar Costa Neto. Lula passaria mais quatro anos distribuindo ração à sua tropa corrupta.
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Humor
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Decepcionado e temendo o que pode vir por aí, o povo se vinga no humor.
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1 - No debate do SBT, Lula, visivelmente nervoso, puxava a cadeira toda hora, lia números gaguejando, como se não soubesse o que estava lendo, e a todo instante metia a mão no bolso do paletó para tirar os óculos, que já estavam no nariz. No restaurante, o garçom cantou a canção popular:"Passei a noite procurando tu, procurando tu, procurando tu".
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2 - O marqueteiro João Santana proibiu Lula de terminar os discursos com as duas mãos levantadas e abertas. Faz o 45 de Alckmin.
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3 - Estão procurando um cão-guia para Lula. Ele não vê nada.