Publicado no Estadão
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Dependendo da análise jurídica do presidente da República, foi burrice. Pelo menos esta é a conclusão a que chegamos ouvindo suas respostas e seus comentários na entrevista concedida à TV Cultura.
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Dependendo da análise jurídica do presidente da República, foi burrice. Pelo menos esta é a conclusão a que chegamos ouvindo suas respostas e seus comentários na entrevista concedida à TV Cultura.
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Ele conta que chamou o então coordenador de sua campanha, que foi seu ministro e é presidente nacional do seu partido, o PT, e lhe perguntou de forma direta: 'Ricardo, você sabe quem armou esta burrice?' Mas o ex-ministro, também da turma que não sabe de nada, não sabia de nada!
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O presidente não se conformou com o fato. 'Como não saber? Gente sua! Auxiliares seus! Gente do nosso comitê e do comitê do Mercadante!'
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Segundo ele mesmo, o presidente teria usado um palavreado bastante forte. Muito gentil com as ilustres jornalistas presentes, porém, poupou-as de repeti-lo... Mas tratou de tomar as providências, com severidade, como, disse ele, sempre fez durante toda a sua vida. 'O companheiro errou? Tem de pagar pelo erro.' (É bem verdade que ninguém foi demitido. Uns foram afastados. Outros pediram demissão. O inquérito que corre foi aberto pelo Ministério Público, diante da ação eficiente da Polícia Federal.)
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Na entrevista ficou claro que, apesar da bronca que passou nos aloprados, ele continua achando que os 'companheiros' só foram 'burros'. Ou seja, obviamente eles não foram suficientemente competentes para que o plano desse certo! Isso, sim, foi imperdoável.
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Quanto ao pobre do Berzoini, a coisa ainda foi mais deprimente. O presidente da República não admite que ele não soubesse de nada. O presidente da República não aceita essa desculpa. O chefe tem de saber de tudo, pois não? Dentro desse seu raciocínio, a única exceção parece ser o presidente da República. Só a ele cabe não saber de nada.
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A chantagem nos Correios, o mensalão, o valerioduto, o superfaturamento na publicidade, os dólares no avião dos pastores do bispo Macedo, os dólares na cueca, os dólares para a compra do dossiê falso, as contas do pagamento de cartilhas, a violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo, a prática repetida de rapinagem nas prefeituras petistas, tudo isso escapou à sua vigilância. E, é sempre bom lembrar, se não fosse a briga interna que explodiu entre os aloprados, o Brasil estaria até agora encantado com a 'extraordinária habilidade política' revelada pelo presidente da República ao montar a sua fidelíssima bancada majoritária no Congresso! Que talento! Que demonstração de força persuasiva!
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Na entrevista, visivelmente irritado com as perguntas pertinentes dos jornalistas, ele mais uma vez se mostrou incapaz de responder com clareza e exatidão. Tergiversou, rodeou e fez apenas o que sabe fazer: auto-elogios! Mal o entrevistador terminava a sua fala e lá estava o presidente da República repetindo, pela milésima vez, as suas habituais arengas.
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Ouvindo-o, e o vendo, um pessoa desavisada imaginaria que, até o início de 2003, o País estava à deriva. Ele diz isso com a maior leviandade. No entanto, todo mundo sabe que, desde 1994, o Brasil vinha lutando e vencendo uma terrível batalha contra a inflação, que culminou com os belos resultados que aí estão até hoje. E tudo isso apesar de o PT e suas lideranças terem sempre trabalhado contra o Plano Real.
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Uma pessoa que chegasse agora ao Brasil e ouvisse as declarações do presidente da República iria supor que a modernização dos portos fora obra dele. Imagine! Foram quatro anos de luta atroz contra os sindicatos do atraso. Luta iniciada em 1993 e só terminada em 1997!
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Na entrevista, o presidente disse que 'sempre foi parlamentarista'. Chega a ser piada... E mais piada ainda foi ouvi-lo dizer que vai 'lutar pela fidelidade partidária e pelo financiamento público das campanhas'. Pode ser que essa, agora, venha a ser a saída do presidente e do seu PT, depois que o famoso 'processo petista de montar bancada fiel' e 'trocar o caixa 2 pelo mensalão' acabou descoberto e desmoralizado.
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Sua posição quanto às privatizações é absolutamente dinossáurica. Nem a esquerda chinesa acredita mais nisso! A sorte do Brasil foi, exatamente, o Estado ter conseguido se libertar dos entulhos monopolistas e autárquicos, herdados de duas ditaduras.
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Quem tem boa memória sabe que, até há poucos anos, entre as entidades federais que integravam o patrimônio da União, estavam o bondinho do Corcovado, hotéis falidos em estâncias hidrominerais, empresas de telefonia que não instalavam novas linhas, empresas de navegação cheias de funcionários e sem navios , empresas ferroviárias sem trilhos e sem trens, portos, outrora movimentados, parados e enferrujando ao tempo.
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Tudo isso mudou. Graças à retirada do Estado, o patrão dono preguiçoso e incompetente saiu de cena. Hoje, os usuários dos serviços são prioridade. Empresa que não der conta do recado perde a vez e o lugar.
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É claro que, para a mentalidade petista, isso é um desastre. Quantas nomeações de companheiros deixarão de ser feitas? É por isso que o presidente acha que a privatização da Vale do Rio Doce foi um erro e que as empresas estatais de telefonia deveriam continuar a infernizar a vida de todos nós.Nestes próximos dias, certamente teremos novos pronunciamentos do presidente da República. Tivemos o cuidado de não chamá-lo de Lula, neste artigo, porque ele se mostrou ofendido com a sem-cerimônia do seu opositor na eleição. Faz questão das deferências.Tudo bem. Existe, no entanto, uma pergunta que continua no ar e não ofende Sua Excelência: de onde pode ter vindo o dinheiro que foi encontrado em poder dos seus 'meninos', naquela sandice? Ou naquela burrice? Ou naquele crime?
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O Berzoini, coitado, não sabe. Mas o chefe dele é obrigado a saber,