domingo, novembro 05, 2006

Hegemonia: o próximo passo do poder petista

por Paulo G. M. de Moura, cientista político
Publicado no Diego Casagrande

Confirmada a vitória de Lula, a tarefa agora não é a de procurar culpados ou de brigar pela propriedade da razão crítica sobre as causas da derrota de Alckmin. O importante agora é tentar projetar os cenários do virtual segundo governo Lula. Já iniciei essa reflexão no artigo “E se Lula vencer?”, publicado em 18/10/2006. Nessa direção, creio que o foco de observação da cena política deve se voltar, no primeiro momento, para a tentativa do PT constituir base parlamentar para sustentar o governo. O poder de cooptação que o Estado confere ao presidente da República num país de cultura patrimonialista e autoritária é incomensurável. A possibilidade de Lula obter sucesso em sua empreitada não pode ser menosprezada.
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O primeiro grande movimento de Lula, já insinuado desde o início da corrida eleitoral, será em direção ao gelatinoso e absorvente PMDB. Políticos fisiológicos de todos os quadrantes do sistema partidário já começam a ensaiar seus passos em direção à porta do ônibus peemedebista. O partido saiu fortalecido das urnas e seu posicionamento centrista - do ponto de vista da condição de jogo e não da doutrina, que inexiste -, torna-se um leito confortável para qualquer indivíduo que esteja na política a negócio. É possível, inclusive, que a virtual maioria que a oposição conquistou no Senado seja ameaçada pela cooptação de senadores de “oposição” pelo PMDB. Não se deve menosprezar, também, a possibilidade de que os setores do PMDB que foram ligados ao governo FHC e opuseram resistência à adesão da legenda ao governo Lula, baixem a guarda e cedam ao sedutor canto da sereia dos cargos e ministérios. Na imprensa especula-se que o preço da adesão completa dos peemedebistas seria de sete ministérios de porteira fechada. Aos incomodados restará se retirar. Ou não. No PMDB sempre tem lugar para mais um.
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Outro dado importante. Imaginava-se que com a cláusula de desempenho o sistema partidário se consolidaria em torno de cerca de sete grandes partidos, reduzindo-se, com isso, o poder de barganha das pequenas legendas fisiológicas. Essa expectativa não está se confirmando. Recorrendo às fusões ou apostando na aprovação de uma lei que permita a criação de uma federação de partidos, os nanicos de todos os tipos vão driblando as regras do jogo. O número de partidos deve diminuir, mas restarão no tabuleiro algumas legendas fisiológicas às quais Lula poderá recorrer para compor sua maioria, de forma mais controlada do que aquela bandalheira do mensalão no varejo das almas do primeiro mandato. Resta saber maioria para quê? Tudo indica que, para nada fazer.
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Um terceiro fator relevante é a conduta do PSDB e do PFL como partidos de oposição. Ambos viram suas bancadas encolherem na saída das urnas. Talvez elas encolham ainda mais com as tentativas de cooptação de governo. O caso do PSDB me parece mais crítico, pelo menos por duas razões. Os tucanos têm vocação centrista e espinha flexível. Foram eles que contiveram o PFL nas tentativas de radicalizar a oposição ao Lula, pois sonhavam com a vitória fácil que, parece, não virá. Lula acena com o armistício com o canto da sereia da possível participação dos tucanos no governo.
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Além disso, temos o mineiro Aécio Neves. Três tucanos saem das urnas com plumagem de pavões: Serra; o próprio Aécio e, por que não, Alckmin, que se saiu melhor do que Serra como adversário de Lula. Sem governo importante para comandar, Alckmin deve buscar a presidência nacional do PSDB. Serão, portanto, três bicudos disputando a vaga de adversário do candidato de Lula em 2010. Nos meios políticos, têm-se como certa a ida de Aécio para o PMDB, o que pode se confirmar se ele avaliar que não conseguirá garantir a vaga para si. Não obstante, Aécio defende que a “oposição” do PSDB ao governo Lula seja tão light quanto já vinha sendo da parte dele. Aécio sonha um sonho impossível. Imagina que Lula e o PT apoiariam um nome que não seja do próprio PT à sucessão de Lula.
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Chegou a vez do PFL. Os pefelistas anunciaram que tomariam seu rumo e se distanciariam do PSDB caso Alckmin perdesse a eleição para Lula. Mais do que isso, o PFL precisa rever-se e revolucionar-se se quiser sobreviver. Há um evidente espaço a ser ocupado por um partido conservador moderno no espectro político brasileiro. A nova cara do PFL deve passar por Afif Domingos (SP), Rodrigo Maia (RJ), Onyx Lorenzoni (RS), Paulo Afonso Feijó (vice de Yeda Crusius no RS) e outras lideranças emergentes nos grandes centros urbanos do Brasil moderno.
O PFL precisará aprender a fazer política fora do governo; talvez menor, mas mais apegado à diretrizes ideológicas opostas ao petismo e ao estatismo. O povo brasileiro é conservador. Há um núcleo reduzido, mas consistente, de intelectuais liberais no país que se sentem órfãos de representação política. Se quiser fazer essa alquimia e apostar numa estratégia de poder longo prazo, demarcando suas claras diferenças com o PSDB – aliado circunstancial e não mais automático - e, com o PT, ao qual deve fazer oposição sistemática e intransigente.O próximo passo da estratégia de poder do PT é a conquista da hegemonia; isto é, da preservação do poder de Estado que os petistas conquistaram e não largarão com a facilidade que o PSDB e o PFL largaram. Quem não entender isso corre o risco de ser cooptado e de cair na irrelevância política. Mas a hegemonia petista não se restringirá à conquista do Estado. Seu objetivo é a consolidação de bases sociais sólidas. Para isso, terá de reconquistar a classe média, evitando seu confinamento nos grotões.
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O mau sinal das urnas para o PFL e o PSDB, é o indicador de que os benefícios econômicos concedidos na reta final do primeiro mandato e a recuperação parcial da imagem de um partido preocupado com o social, que o marketing do “bolsa-esmola” permitiu a Lula, pode estar sinalizando o início dessa reconciliação com a classe média na estratégia de poder do PT. Parte da classe média abriu a porta de casa e deixou Lula entrar outra vez. A luta nesse terreno é ideológica e de longo prazo. A oposição, a menos que venda a alma para o diabo, tem um longo e difícil caminho pela frente.
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Finalmente, o mais grave de todos os problemas. As instituições brasileiras – Parlamento, Justiça, Partidos, Sociedade Civil, Igreja, Entidades Representativas, e outras – mostraram que também têm a espinha flexível e valores morais frouxos na hora de tomarem posição contra a corrupção e a defesa da Democracia.
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