Publicado no /terra Magazine
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Dúvidas que assolam muitos brasileiros neste pós-eleições - "O segundo mandato de Lula será mais desenvolvimentista?" ou "O novo governo de Lula terá uma atuação mais à esquerda?" ou ainda "A Era Palocci chegou ao fim?" - não tiram o sono do cientista político Fernando Massote, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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"A Era Palocci chegou ao fim? Nem sonhando!", diz, convicto, o doutor em Filosofia pela Universidade de Urbino (Itália) e autor do recém-lançado "A História pela Metade - Cenários de Política Contemporânea" (Editora CEFET-MG).
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"O governo Lula tem compromissos com a estrutura de poder, com os interesses do 'establishment' nacional e internacional neoliberal. Ele não tem, contrariamente, nenhuma sustentação política capaz de apoiar qualquer veleidade política alternativa ao quadro geral desses interesses", afirma Massote.
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Para o cientista político, posições como a do ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro - autor da já desautorizada frase "a Era Palocci acabou" -, servem para fazer afagos a setores da esquerda. "Tarso Genro é uma das cerejas do bolo de que Lula se vale para neutralizar as posições de centro-esquerda. Tarso Genro que se cuide, sobretudo agora, diante da derrota tão contundente que o seu partido sofreu no seu próprio Estado, o Rio Grande do Sul."
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Se o ministro gaúcho é a cereja, o bolo, na avaliação do especialista, são as ações sociais do governo Lula. "As chamadas políticas sociais - que na verdade são medidas compensatórias recomendadas, aliás, pelos organismos internacionais como FMI e o Banco Mundial - visam proteger os interesses dominantes das explosões sociais que estas mesmas políticas causam".
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Para o professor da UFMG, as políticas de transferência de renda ajudaram o presidente reeleito e o Partido dos Trabalhadores a substituír os coronéis das velhas oligarquias sem alterar as estruturas de poder. Diz o professor:
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- Com as políticas compensatórias, que os 'neo-pelegos' e Lula tentam apresentar como algo mais orgânico e consistente, eles, PT e Lula, se tornaram o partido e o governo do neo-coronelismo. Com estas políticas ditas sociais todos os coronéis estão, agora, ameaçados. Hoje o velho coronel que quiser sobreviver vai ter que pedir a benção de Lula.
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Mas como governar sem ter o apoio de setores mais conservadores e de organismos internacionais? Na avaliação do cientista político, as forças sociais que ele chama de "sadias" precisam se organizar e se articular em torno de um denominador comum, que realize "uma mudança política em defesa do povo e do País".
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Essas forças, segundo Massote, podem encontrar um campo de atuação junto às famílias atendidas pelas políticas de transferência de renda, que vão lutar para não perder esse benefício. "As forças mais progressistas têm aí um espaço no qual se inserir", avalia.
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"A política, hoje, em todos os lugares, está amarrada a estreitas posições de poder. É necessário desamarrá-la e fazer com que ela se volte para a defesa dos interesses da população, dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens e que resolva os problemas enormes que estão aí em todas as áreas".
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Para realizar essa "desamarração", seria importante a participação de setores do sindicalismo e dos movimentos sociais. O professor, porém, ainda vê com reservas a possibilidade de atuação mais contundente dessas forças, que foram importantes na reeleição do atual presidente.
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"Lula recorreu ao socorro salarial de última hora para reconquistar o apoio do funcionalismo público que o estava abandonando velozmente com a Reforma da Previdência e todo o elenco de políticas neoliberais", diz.
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"Ganhou, com isto, o apoio de ambientes sindicais que atuaram fundamentalmente a seu favor nestas eleições, funcionando como caixa de ressonância das diretrizes eleitorais do PT e Lula contra seus adversários, sobretudo tucanos".
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"As estruturas montadas ao longo de tantos anos pelo PT junto aos sindicatos e aos movimentos sociais e, do mesmo modo, pelo PCdoB, ajudaram muito esta programação de cobertura popular para a campanha eleitoral de Lula. Atuaram também, muito, em favor de Lula, os ideólogos da Teologia da Libertação comprometidos com as posições de poder do PT, como Frei Betto, e outros movimentos de base ligados à Igreja".
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Massote, porém, não crê que o governo atual apóie demandas populares ou dialogue com posições progressistas.
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- Não espero que o PT e o governo Lula vão manter este espaço aberto. Como poderá, de fato, o PT fazer qualquer mobilização social e política no Amapá, no Maranhão, que são quintais de Sarney, ou no Pará de Jader Barbalho?
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A grande questão que o professor deixa, para este segundo mandato, é de que forma vão atuar os setores que foram fundamentais para a reeleição de Lula.
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"Como é que esta estrutura de apoio mais popular vai reagir às contradições que vão se abrir com as políticas conservadoras preparadas pelo novo governo Lula é que são elas...".
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Fabiano Angélico, 30, é jornalista da PrimaPagina (www.primapagina.com.br), onde atua como editor da agência européia de notícias Lusa. (www.agencialusa.com.br). Trabalhou nos jornais Agora São Paulo, Estado de Minas e Hoje em Dia e na EPTV (afiliada TV Globo).
Texto completo aqui
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Dúvidas que assolam muitos brasileiros neste pós-eleições - "O segundo mandato de Lula será mais desenvolvimentista?" ou "O novo governo de Lula terá uma atuação mais à esquerda?" ou ainda "A Era Palocci chegou ao fim?" - não tiram o sono do cientista político Fernando Massote, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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"A Era Palocci chegou ao fim? Nem sonhando!", diz, convicto, o doutor em Filosofia pela Universidade de Urbino (Itália) e autor do recém-lançado "A História pela Metade - Cenários de Política Contemporânea" (Editora CEFET-MG).
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"O governo Lula tem compromissos com a estrutura de poder, com os interesses do 'establishment' nacional e internacional neoliberal. Ele não tem, contrariamente, nenhuma sustentação política capaz de apoiar qualquer veleidade política alternativa ao quadro geral desses interesses", afirma Massote.
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Para o cientista político, posições como a do ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro - autor da já desautorizada frase "a Era Palocci acabou" -, servem para fazer afagos a setores da esquerda. "Tarso Genro é uma das cerejas do bolo de que Lula se vale para neutralizar as posições de centro-esquerda. Tarso Genro que se cuide, sobretudo agora, diante da derrota tão contundente que o seu partido sofreu no seu próprio Estado, o Rio Grande do Sul."
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Se o ministro gaúcho é a cereja, o bolo, na avaliação do especialista, são as ações sociais do governo Lula. "As chamadas políticas sociais - que na verdade são medidas compensatórias recomendadas, aliás, pelos organismos internacionais como FMI e o Banco Mundial - visam proteger os interesses dominantes das explosões sociais que estas mesmas políticas causam".
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Para o professor da UFMG, as políticas de transferência de renda ajudaram o presidente reeleito e o Partido dos Trabalhadores a substituír os coronéis das velhas oligarquias sem alterar as estruturas de poder. Diz o professor:
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- Com as políticas compensatórias, que os 'neo-pelegos' e Lula tentam apresentar como algo mais orgânico e consistente, eles, PT e Lula, se tornaram o partido e o governo do neo-coronelismo. Com estas políticas ditas sociais todos os coronéis estão, agora, ameaçados. Hoje o velho coronel que quiser sobreviver vai ter que pedir a benção de Lula.
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Mas como governar sem ter o apoio de setores mais conservadores e de organismos internacionais? Na avaliação do cientista político, as forças sociais que ele chama de "sadias" precisam se organizar e se articular em torno de um denominador comum, que realize "uma mudança política em defesa do povo e do País".
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Essas forças, segundo Massote, podem encontrar um campo de atuação junto às famílias atendidas pelas políticas de transferência de renda, que vão lutar para não perder esse benefício. "As forças mais progressistas têm aí um espaço no qual se inserir", avalia.
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"A política, hoje, em todos os lugares, está amarrada a estreitas posições de poder. É necessário desamarrá-la e fazer com que ela se volte para a defesa dos interesses da população, dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens e que resolva os problemas enormes que estão aí em todas as áreas".
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Para realizar essa "desamarração", seria importante a participação de setores do sindicalismo e dos movimentos sociais. O professor, porém, ainda vê com reservas a possibilidade de atuação mais contundente dessas forças, que foram importantes na reeleição do atual presidente.
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"Lula recorreu ao socorro salarial de última hora para reconquistar o apoio do funcionalismo público que o estava abandonando velozmente com a Reforma da Previdência e todo o elenco de políticas neoliberais", diz.
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"Ganhou, com isto, o apoio de ambientes sindicais que atuaram fundamentalmente a seu favor nestas eleições, funcionando como caixa de ressonância das diretrizes eleitorais do PT e Lula contra seus adversários, sobretudo tucanos".
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"As estruturas montadas ao longo de tantos anos pelo PT junto aos sindicatos e aos movimentos sociais e, do mesmo modo, pelo PCdoB, ajudaram muito esta programação de cobertura popular para a campanha eleitoral de Lula. Atuaram também, muito, em favor de Lula, os ideólogos da Teologia da Libertação comprometidos com as posições de poder do PT, como Frei Betto, e outros movimentos de base ligados à Igreja".
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Massote, porém, não crê que o governo atual apóie demandas populares ou dialogue com posições progressistas.
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- Não espero que o PT e o governo Lula vão manter este espaço aberto. Como poderá, de fato, o PT fazer qualquer mobilização social e política no Amapá, no Maranhão, que são quintais de Sarney, ou no Pará de Jader Barbalho?
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A grande questão que o professor deixa, para este segundo mandato, é de que forma vão atuar os setores que foram fundamentais para a reeleição de Lula.
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"Como é que esta estrutura de apoio mais popular vai reagir às contradições que vão se abrir com as políticas conservadoras preparadas pelo novo governo Lula é que são elas...".
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Fabiano Angélico, 30, é jornalista da PrimaPagina (www.primapagina.com.br), onde atua como editor da agência européia de notícias Lusa. (www.agencialusa.com.br). Trabalhou nos jornais Agora São Paulo, Estado de Minas e Hoje em Dia e na EPTV (afiliada TV Globo).
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